Transe: Uma Explicação Científica - Parte III

Transe: Uma Explicação Científica - Parte III

Samej Spenser
“A maioria das pessoas percorre o mundo em transe, destituídos de poder. Nosso trabalho é transformar isso em um transe de capacitação.”
— Milton H. Erickson, (1901-1980)


Um hipnotizador e seus pacientes

Hipnotizadores de palco/teatro logo aprenderam que nem todas as pessoas são igualmente suscetíveis às suas técnicas nem igualmente capazes de proporcionar um “bom show” em público. Levado pela necessidade de se livrar dos que reagem de forma mais lenta e, afinal, para padronizar as técnicas de indução, o ator teatral utilizou “testes de sugestionabilidade” para selecionar rapidamente os indivíduos mais sugestionáveis. De fato, as pessoas que se apresentavam voluntariamente eram parte do processo de seleção. Testando-as rapidamente, o hipnotizador logo dispunha de vários pacientes nos quais podia confiar que se comportariam de uma maneira previsível. Portanto, os hipnotizadores de palco na verdade consideravam que as pessoas pertenciam a uma das duas categorias: os “bons” pacientes e os “maus” pacientes.

Um médico que começasse a estudar a hipnose inicialmente teria de tomar lições com um hipnotizador leigo ou com um ator teatral e seria natural que aprendesse as mesmas técnicas de seleção que pressupunham que as pessoas eram ou “bons” ou “maus” pacientes para a hipnose. O médico sentia que também ele não podia desperdiçar tempo. Assim, no processo de utilização da hipnose num pequeno número de pacientes selecionados, ele necessariamente eliminava muitos dos quais ele considerava “maus” pacientes e, dessa forma, privava-os involuntariamente dos benefícios da hipnose.

O hipnotizador clínico que se especializou bastante em hipnoterapia teria de trabalhar com quase todos que o viessem procurar e não poderia selecionar e escolher seus pacientes como o apressado entretenedor ou como o ocupado médico. Seu temperamento estava predisposto a gastar mais tempo com cada indivíduo e tentar ensiná-los a se tornarem bons pacientes hipnóticos durante um período de tempo. Em decorrência dessas novas atitudes entre os hipnotizadores, novas técnicas de indução e classificação aos poucos foram surgindo.

A maior parte dessas tentativas de classificação seguia o trabalho de hipnotizadores experimentais no meio universitário e terminava com uma descrição estatística da percentagem de estudantes que respondiam as “testes de suscetibilidade” de vários graus. Esse trabalho poderia ser descrito mais como de cunho fenomenológico do que neurológico. A diferença entre os pacientes hipnóticos era considerada “apenas o modo como a hipnose ocorre”, sem qualquer tentativa de correlacioná-la com os vários tipos de sistemas nervosos.

Algumas vezes os hipnotizadores poderiam, por observação e experiência, chegar a conclusões acerca da diferença na hipnotizabilidade entre pacientes masculinos e femininos, entre pacientes velhos e moços, ou de acordo com diferenças ocupacionais, educacionais ou níveis de inteligência, nacionalidades, etc. Embora operacionalmente válidas, essas classificações apenas atribuíam as diferenças existentes entre pacientes hipnóticos a diferenças de ambientação e de desenvolvimento. Em outras palavras, os indivíduos reagiam de forma distinta por causa das suas diferentes experiências, atitudes, expectativas passadas, etc.

Assim, ninguém parecia capaz de relacionar as descobertas de Pavlov com a classificação dos pacientes hipnóticos. Hipnólogos americanos nunca haviam estado muito interessados na abordagem fisiológica da hipnose, mas a influência pavloviana era muito forte fora do mundo de língua inglesa. Hipnólogos europeus e sul-americanos são pavlovianos (ou neo-pavlovianos como muitos preferem, devido ao reconhecimento do envolvimento das estruturas subcorticais do cérebro na hipnose) e provêm desses lugares os recentes avanços nesse sentido.

O falecido hipnólogo húngaro, Dr. Ferec Andreas Volgyesi, propôs uma tipologia a esse respeito. Ele afirmou que há quatro tipos básicos de temperamentos nervosos, como se segue:

1. Os constitucional e evolutivamente psicoativos;

2. Os constitucionalmente psicoativos, mas evolutivamente psicopassivos;

3. Os constitucionalmente psicopassivos, mas evolutivamente psicoativos;

4. Os constitucional e evolutivamente psicopassivos.


Os da primeira categoria são pessoas que têm constituições nervosas psicoativas herdadas e que também adquiriram características psicoativas através de sua educação. A segunda categoria é das pessoas que têm constituições psicoativas herdadas, mas que adquiriram características psicopassivas. O terceiro grupo é composto das que têm constituições psicopassivas herdadas, mas posteriormente adquiriram características psicoativas. As pessoas que são psicopassivas tanto pelas constituições nervosas hereditárias como pelas características adquiridas pertencem à quarta categoria. Esse sistema poderia satisfazer a ambos os lados do velho debate “hereditariedade versus meio ambiente”!

O Dr. Volgyesi acreditava que cerca de cinquenta por cento das pessoas educadas pertencem ao Grupo Quatro, cerca de vinte e cinco por cento ao Grupo Três e vinte por cento ao Grupo Dois, com os restantes cinco por cento no Grupo Um.


Correlacionamento dos tipos

Se tentarmos uma correlação dos “tipos de pessoas”, ficaremos chocados com o fato de que parece não existir apenas quatro categorias e que essas classificações do temperamento humano parecem ser totalmente compatíveis entre si. Se sintetizarmos as tipologias de Hipócrates, Pavlov e Volgyesi, o resultado será este:

1. Reações de excitação (psicoativas)

a) Fortemente excitável. Constituição nervosa psicoativa herdada, com aquisição posterior de características psicoativas. O indivíduo “colérico”.

b) Vivamente excitável. Constituição nervosa psicoativa herdada, com características psicopassivas adquiridas. Indivíduo “sanguíneo”.


2. Reações de inibição (psicopassivas)

a) Calmo, imperturbável. Constituição nervosa psicopassiva herdada, com características psicoativas adquiridas. O indivíduo “melancólico”.

b) Ligeiramente inibível. Constituição nervosa psicopassiva herdada, com características psicopassivas posteriormente adquiridas. Indivíduo “fleugmático”.


Essa classificação merece uma séria análise. Pode não coincidir com o que desejaríamos que fosse a raça humana, mas é muito provavelmente a classificação moderna mais científica. As percentagens de Volgyesi são naturalmente simples aproximações, mas o que é mais interessante, porque os hipnotizadores têm sempre estado de acordo, é que vinte por cento de qualquer população pode ser fácil e profundamente hipnotizada na primeira tentativa.


Inibição do cérebro e desfalecimento

Pavlov descobriu que, sob estimulação gradualmente crescente do tipo perturbador ou exaustivo, poderia surgir, mais cedo ou mais tarde, o comportamento “anormal”. Esse comportamento “anormal” (que na verdade, é normal sob tensão anormal) poderia ser dividido nos três estágios seguintes:

1. Estágio “equivalente”, no qual o cérebro dá a mesma resposta tanto ao estímulo forte como ao fraco.

2. Estágio “paradoxal”, no qual o cérebro responde mais ativamente ao estímulo fraco do que ao forte.

3. Estágio “ultraparadoxal”, no qual os reflexos condicionados e os padrões de comportamento se modificam do positivo para o negativo ou do negativo para o positivo.


Por fim, naturalmente, o estágio de “desfalecimento” é atingido quando os limites de resistência do cérebro finalmente são ultrapassados. Ele se assemelha ao coma histérico; Pavlov chamou-o de “inibição transmarginal protetora”.


Cães nervosos e homens nervosos

Desses estudos resultaram certas proposições científicas. Elas se aplicam a todos os estados de consciência alterada provocados por fadiga, experiências emocionais traumáticas e que afetam os nervos, drogas, falta de sono, indução hipnótica negativa ou uma combinação programada de todos esses fatores que se tornou conhecida em nossos dias como “lavagem cerebral”.

Todos os dados experimentais levam às seguintes proposições:

1. As pessoas, da mesma forma que os cães de Pavlov, respondem a tensões impostas, ao aumento de estimulação, ou a situações conflitantes, de modos previsíveis e de acordo com os seus diferentes tipos de temperamento herdado e adquirido.

Por exemplo, o cão “fortemente excitável”, ou o homem “colérico”, ou o paciente hipnótico “psicoativo/psicopassivo” responderiam a uma estimulação extrema com agressividade pânica e selvagem.

O cão “vivamente excitável”, o homem “sanguíneo”, ou o paciente hipnótico “psicoativo/psicopassivo” responderiam à mesma tensão extrema com agressividade controlada e propositada.

O cão “calmo, imperturbável”, o homem “melancólico”, ou o paciente hipnótico “psicopassivo/psicoativo” responderiam à mesma tensão com um comportamento passivo.

O cão “ligeiramente inibível”, o homem “fleugmático” ou o paciente hipnótico “psicopassivo/psicopassivo” responderiam à mesma tensão com reações de evitação e com um comportamento extremamente passivo.

Finalmente, os seres humanos, bem como os animais, desfalecerão quando as tensões ou conflitos se tornarem excessivos para seus sistemas nervosos dominarem.


2. Influências ambientais produzem reações à tensão normal alterando apenas alguns detalhes de comportamento. O padrão básico de temperamento não é alterado; tensões “anormais” forçam todos os seres a reações previsíveis.

Pavlov notou que cães que mostravam reações de “ligeira inibição” podiam experimentar a “inibição transmarginal protetora” (um “colapso nervoso”, no caso de um ser humano) muito mais rapidamente do que os cães de outro tipo, mesmo com tensões muito mais leves.

Já disse que os cães do tipo “fortemente excitáveis” requerem doses de sedativos cinco a oito vezes maior do que o necessário para cães de mesmo peso e do tipo “ligeiramente inibíveis”. É de conhecimento geral que os efeitos de drogas nos seres humanos variam amplamente, da mesma forma que as reações e quantidades normais e anormais de tensões. Quaisquer que sejam as modificações de comportamento devidas a diferentes fatores ambientais que possam ocorrer, o tipo nervoso básico do indivíduo não é, nem pode ser, modificado.


3. A quantidade de tensões que pode ser tolerada por um ser humano ou por um cão de qualquer tipo nervoso depende também do estado físico da pessoa ou do animal.

Uma diminuição de resistência pode, portanto, ser produzida por meios tais como: fadiga, fome, febres, drogas, etc. No âmbito do hipnotismo, o brilhante Abade Faria fez uma perspicaz observação quando verificou que as pessoas que haviam “sangrado” (uma prática médica comum em sua época) ficavam mais suscetíveis à indução mesmérica do que o normal.


A observação dos seus semelhantes é uma característica do homem desde o início dos tempos, mas é um subterfúgio da natureza humana o fato de observar cuidadosamente só o que é inusitado, com a tendência de não tomar conhecimento do que é comum. Estudamos mais quanto às doenças do que o fazemos quanto à saúde e mais quanto às anormalidades do que quanto às condições normais. Além disso, muito de nossas observações sobre os efeitos da alteração neurológica (transe) do comportamento vêm sendo feitas e, condições anormais de guerras, fome, doenças, drogas e toda sorte de influências desagradáveis. Mesmo assim, esses estudos têm produzido um conhecimento considerável e devemos ser gratos por isso.

Embora muito do que foi dito sobre a explicação científica do transe e sobre os fenômenos relacionados com ele seja aplicável principalmente a transes negativos, que são provocados pela estimulação de emoções perturbadoras, esses princípios podem ser relacionados com todos os casos de alteração neurológica, inclusive o transe hipnótico positivo. Os estudiosos que se aplicam com seriedade ao hipnotismo deverão adequar as implicações desses princípios ao transe hipnótico do tipo positivo, que é eliciado pela estimulação das emoções estabilizadoras.


A hipnose é uma ciência

Espero que essa discussão sobre o “transe” tenha lançado alguma luz sobre o assunto. Pelo menos, eu espero que tenha estabelecido o fato de que podemos falar mais apropriadamente sobre a hipnose numa terminologia científica. É um erro adotar termos metafísicos para descrever fenômenos que podem ser definidos e descritos adequadamente na linguagem comumente aceita pela ciência natural. Pois continuar falando sobre hipnose com figuras de linguagem obsoletas retardará o seu desenvolvimento científico no futuro e a sua aceitação no presente.

Eu insistiria para que todos os hipnólogos aprendam a pensar e a falar na linguagem da ciência!


Fonte: Trechos retirados do livro “Hipnose Científica Moderna”, de Richard N. Shrout, Ed. Pensamento, pp. 59-65, 1985.

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