従う.

従う.

12:13am. Purlieu.

TW: Violência, sangue, cárcere.

Hinata não sabia ao certo exatamente, mas já fazia um bom tempo que o barulho das gotas d'água pingando contra o telhado da madeira velha acontecia; o garoto se encontrava deitado em posição fetal conforme o frio açoitava cada parte do corpo, apenas coberto por maltrapilhos rasgados e que sequer conseguiam esconder a grande coleira de ferro atrelada ao pescoço, pesada — quase como se fizesse parte de si.

A casa cheira a incenso barato, se misturando com um odor metálico que o canídeo sabe que não quer reconhecer. É mais fácil reconhecer os próprios grilhões do que dar atenção ao líquido vertendo dos diversos hematomas que cobrem o corpo esguio; é mais fácil reconhecer a voz grave e distorcida que ecoa dentro da própria cabeça e faz com que se encolha, ainda que não reconheça as palavras; é mais fácil saber que não deveria estar ali.

Súbito, ele sente — a mão gélida que desliza por entre os seus fios, afagando o seu cabelo como se fosse um cão fiel. Não há qualquer resquício de afeto naquele ato e a forma como o peito se aperta é o suficiente para que soubesse. Ele não quer estar ali.

Mas, ainda que tentasse se mover, era como se o seu próprio corpo não respondesse ao que é obrigado, pela mesma mão que o afagava, a grunhir de dor com o puxão furioso contra os fios. Ele não consegue sequer ver a figura que o açoita — apenas uma sombra onde deveria haver um homem. Seus olhos, se existem, são buracos vazios. Ele sempre foram vazios.

“ . . . Obedeça, a sombra sussurra.

Os choques contra o corpo são a pior parte. Desde sentir a bochecha queimando, os fios sendo arrancados ou a forma como simplesmente se encolhe em um pedido de desculpas conforme sente o estômago revirar com mais um chute, tão certeiro quanto qualquer outro. Não soube dizer exatamente como o tempo passara em meio ao choro; a visão turva demais para reconhecer qualquer coisa — não lhe servia mais, não precisava mais dela.

Precisava obedecer. Precisava obedecer. Precisava obedecer.

“ . . . Mate, a sombra ordena.

E Hinata obedeceu.


(. . . ) O choro que escapou da boca quando abriu os olhos não foi a única surpresa do canídeo, além do incessante aperto contra o próprio peito. Não reconhecia o lugar onde estava — os olhos procurando alguma visão familiar em meio ao conjunto de árvores que cercavam o Inugami, ligeiramente familiares. Se aquilo fora realmente um sonho, onde é que estava? Não fazia ideia de que era um sonâmbulo, se aquele fosse o caso.

Ainda sim, a lembrança do pesadelo fazia com que fosse obrigado a engolir a própria preocupação. A mão passa pelo próprio pescoço, procurando a coleira que já não está mais ali. Estava completamente sozinho; não queria que esse fosse o caso. Talvez algum amigo na cidade pudesse lhe oferecer o abrigo que buscava. Talvez pudesse dormir na cama de outra pessoa, apenas por hoje.

Hinata não faria bagunça.

Hinata obedeceria.


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