álcool forte e boca macia.
Ryu TaerimOdeio essa parte do trabalho. Odiaria admitir, mas tem noites que eu preferia estar no baixo, sentindo as cordas tremerem sob meus dedos, ou no bar do Eclipse com um copo de uísque, em silêncio com meus demônios. Mas não… hoje era noite de cobrança.
A porra do devedor achou que podia brincar com meu dinheiro. E meu dinheiro é sagrado.
Entrei no beco com o Jun, um dos capangas do Sr. Kang, aquele armário de dois metros que resolve tudo no punho. O ar ali cheirava a urina e ferrugem, luz de neon piscando quebrada, como se até a rua tivesse vergonha de existir. O cara estava encolhido contra a parede, tremendo, olhando pra mim como se tivesse visto o diabo. E talvez eu fosse o diabo mesmo. Nesses momentos eu não me reconhecia, eu não era o Ryu que ajudava as senhorinhas do prédio.
— Você achou mesmo que eu ia esquecer, filho da puta? — minha voz saiu baixa, firme. Eu nunca grito. Não preciso.
Jun puxou ele pelo colarinho e jogou no chão com um baque seco. Eu fiquei parado, mãos nos bolsos, observando o estrago que ia se formando. O som dos socos ecoava nas paredes estreitas. Sangue espirrou, e eu virei o rosto. Maldita sensação de me sujar com o que não é meu.
— Cadê o dinheiro? — perguntei. Não levantei a voz, mas o peso da frase caiu como uma marreta.
O cara gaguejava, cuspindo vermelho, tentando se explicar. Mentiras mal costuradas, promessas vazias. Dei um chute no estômago dele, só pra interromper aquele balbucio irritante.
— Eu odeio isso, sabia? — falei, limpando o coturno no chão molhado do beco. — Odeio ter que colocar a mão em merda quando já devia estar resolvido. Você me faz perder meu tempo, e eu fico de mau humor. E quando eu tô de mau humor… você não quer estar na minha frente.
Jun quebrou mais uma costela dele, dava pra ouvir o estalo. O som seco reverberou na minha cabeça, e eu fechei os olhos, respirando fundo.
No fim, ele abriu a boca com os dentes quebrados e falou o que eu queria ouvir: onde estava escondido o dinheiro. Fiz Jun parar, peguei o envelope sujo que ele arrastou debaixo da jaqueta e contei, nota por nota.
Levantei o queixo, olhando o corpo mole quase inconsciente no chão. — Se levantar vivo amanhã, agradece à porra da sorte ou Deus...
Saí do beco com Jun atrás de mim. As mãos ainda limpas, mas a mente suja. O uísque no Eclipse ia ter que ser duplo. E, se a noite quisesse ser generosa, um boquete depois. Porque depois de lidar com merda desse tipo, eu precisava de dois remédios: álcool forte e boca macia.