prequel 01, after goodbyes
skyliamMesmo na pré-adolescência Liam nunca desacreditava quando seus familiares começavam com aquela conversa de “muitas mudanças vão ocorrer” e “a vida vai te ensinar”, mas jamais imaginaria que esse seria um desses ensinamentos.
Nenhum “não” que já recebera soava como este último. Por mais que detestasse que o negassem, nada era pior do que a imagem que se repetia na mente. O melhor amigo olhando-o com aquela feição de quem pedia desculpas; seu melhor amigo se virando e indo embora; seu melhor amigo escolhendo isso. E talvez o errado fosse o próprio Liam, já que não era novidade ver Haerin escolhendo Mikael outra e outra vez; ele o escolhera em favor de suas roupas favoritas, e então de seus colegas, de seus hobbies, de sua família.
Então Liam se perguntava: como poderia ter sido tão idiota? Tão ingênuo, tão cego? Por que achara que com ele seria diferente?
Talvez porque sempre estiveram juntos? Afinal, tinha poucas memórias em que o melhor amigo não estava presente. Fora ainda no início da vida escolar que os dois se conheceram - e Liam ainda tinha na memória o jeito que trocaram olhares durante a apresentação de turmas, o jeito que os olhares se tornaram sorrisos desconcertados por causa de um acessório igual que usavam. Então a amizade genuína. Nunca mais se separaram depois disso.
Quer dizer, até agora. Já que seu amigo não respondia suas mensagens e ignorava seus convites. Nos breves momentos em que estavam juntos podia estar tudo bem, mas assim que ele aparecia até o ar mudava. Os ombros do amigo ficavam tensos, como os de um animal prestes a ser caçado; o comportamento mudava e ele era automaticamente substituído por alguém distante.
E Liam entendia porque sua mãe já havia conversado com ele sobre. “Tenha paciência”, ela dizia. “As coisas iriam mudar”, “Namorado é namorado. Amigo é amigo”. Mas Liam definitivamente odiava isso. Ele mesmo jamais quisera uma namorada e, toda vez que seus ficantes exigiam que regulasse sua amizade com Erin, era ali que qualquer chance de romance acabava. Ele não precisava disso.
Então por que o amigo não fazia o mesmo? Por que quando tinha que escolher entre Liam, que sempre estivera ali, e um idiota bruto ridículo, mentiroso, um…! Não queria concluir a pergunta, tampouco gostava nem de pensar no nome ou nos atributos desse homem. Definitivamente o odiava. Com todas suas forças, de uma forma que jamais pensara ser capaz. Liam virou para o lado e enfiou o rosto no travesseiro, as narinas congestionadas logo o fizeram sentir dificuldade para respirar, mas ele iria até onde aguentasse. Porque queria que Mikael sumisse. De vez. Queria matá-lo, fantasiava mil formas de fazer isso, formas que ora o faziam sofrer, ora eram rápidas para acabar logo com o problema.
E então voltava a chorar. Porque sabia que jamais o faria, porque sentia falta do amigo, porque Liam também era um idiota. Um maior por achar que essa linha não seria cruzada, quando até dos próprios pais ele havia se afastado.
*
Os próximos dias de Liam foram iguais. Conforme o tempo passava, a proporção entre tristeza e indiferença mudava, mas a superação nunca vinha. Nada parecia recuperar as cores e tudo foi se perdendo em uma apatia. O garoto mal sentia vontade de pisar os pés fora de seu quarto.
Mas como poderia? Quando sequer conhecia uma vida sem o melhor amigo estar envolvido? Toda vez que tentava ressaltar uma lembrança sem ele, Liam se frustrava. “Não, ele estava aqui também”. E não era apenas a presença do garoto ali, era a forma como Liam orbitava confortavelmente ao seu redor. Seu porto seguro, a quem sempre contava tudo, sem mentiras. Quem o acompanhava em todas suas aventuras decididas de última hora: “Vamos aprender a cavalgar”, “vamos fazer cerâmica?”, “vamos invadir uma festa dizendo que conhecemos o aniversariante?”, “vamos criar uma suposta cópia do Monet e tentar vender para seus pais”. Não importava quanto a pergunta fosse absurda, não importa que ninguém fosse acreditar na cópia que fizeram de Monet. Erin sempre estava lá, e agora Liam percebia que sequer teria forças para fazer nada disso se ele não estivesse.
É por isso que aquele “sinto muito, precisamos nos afastar” doía tanto. Explicitava uma escolha que já havia sido feita e Liam tentava ignorar. O deixava finalmente de frente com o fato de que agora era apenas uma casca vazia, fadada a viver os próximos dias assim. Olhando para o teto. Quantos dias haviam passado mesmo? Nem conseguia dizer.
Seus sentidos pareciam mortos. Ele parecia morto. Tanto que não ouviu a mãe batendo no quarto e entrando. Ou chamando seu nome pelas primeiras vezes - isso quando Liam normalmente reconhecia a presença de sua mãe quase tão rápido quanto a do amigo, apenas pela fragrância típica que deixavam para trás.
— Meu amor — O tom era de óbvia preocupação, mas nem isso apagava o sotaque australiano digno de um morador natural de Melbourne. Sotaque que sua mãe tinha desde o segundo dia desde que fora para a Austrália.
E ela invadia o espaço de Liam sem muita pergunta. Logo sua fragrância já havia invadido, sua imagem capturando a atenção do filho. Eram alguns segundos de trégua no coração de Liam, porque agora só precisava pensar em sua mãe.
— Você ainda não comeu hoje, meu filho. – ela voltou a falar preocupada. A mão estendeu, afundou nos fios de cabelo, ajeitando para ver o rosto. Como doía ver Jinsun assim, abatido e sem resposta. Fazendo cara feia para a ideia de comer.
Mas o silêncio continuava sepulcral. O máximo de reação que obtivera fora o filho a abraçando, repousando a cabeça sobre seu colo. Era bom, mas não era o ideal, então Hyesun o puxou para se sentar.
— Você confia em mim? — a loira perguntou, ajeitando a postura do filho, deslizando as mãos geladas sobre sua pele. Suas mãos sempre estavam mais geladas - o que era um alívio no calor da Austrália. Jinsun costumava escorar nela, ou grudar-lhe o rosto quando sentia calor. Sua mãe sempre reclamava, porque como seu pai, Liam era quente.
— Claro que confio — Liam falou baixinho, mas com convicção. Todos sabiam como a amava, como seu mundo, antes de girar ao redor do amigo, girava completamente ao redor dela.
— Então vou precisar que você me escute, ok? — Hyesun falou com uma seriedade quase inédita. Era difícil vê-la com aquele rosto, embora não fosse impossível. Ela segurava no rosto do filho com a mesma convicção que ele dera sua resposta — Eu vou precisar que você faça o que eu mando por um tempo. Sem questionamentos, pode ser?
Liam não respondeu de imediato. Na verdade, seu rosto não foi exatamente de desconfiança, mas de desânimo. Se pudesse falar algo, seria “Como, se não tenho forças?”. Mas o amor de admiração por sua mãe era tão grande que ele apenas acenou positivamente. Hyesun sabia disso. Hyesun usava isso a seu favor, como fazia com todos.
— Eu preciso que você se levante e vá comer. Preciso que se levante todos os dias e se alimente, que saia de casa e vá ver seus colegas. — Hyesun conseguia ver o rosto de Liam se distorcendo em desespero a cada palavra que ela adicionava. — E eu sei que vai ser horrível e você preferia não sair, ficar no seu quarto. Sei de tudo isso. Mas eu preciso que você vá e que você trate isso como um remédio que eu estou te obrigando a tomar. Igual a gente fazia com aquele xarope, lembra dele?
Liam fez uma careta pior ainda. Ele odiava aquele maldito xarope antialérgico, mas sua mãe sempre o convencia a tomar - assim como o estava o convencendo a sair. Ela continuava o discurso:
— Não estou dizendo que você precisa ser bom em nada disso. Em acordar, tomar banho, sair ou comer. Mas preciso que tente. Entendeu?
Liam acenou com a cabeça novamente. Era impossível dizer não para ela, fosse em seu discurso motivador ou em suas mãos geladas que agora apertavam as dele, o levantando da cama. O australiano comeu arrastado, banhou-se arrastado, foi para a escola arrastado. Sua mãe sabia, porque estava lá para acompanhá-lo, para guiá-lo pelo caminho e oferecer o que fosse necessário para sua melhora - e ela não tardou a aparecer. Logo Liam estava de volta - não exatamente como antes, mas ali. O que era feito em tom de desânimo em algum momento apenas se tornou parte da rotina novamente. Quando notou, a indiferença foi sendo substituída por outras coisas - suas brincadeiras e confusões, suas cópias de Monet e festas infiltradas.
Nada disso trazia seu melhor amigo de volta, embora ele tenha voltado em alguns momentos. Nada disso diminuiu a saudade que sentia do amigo quando ele partia, mas eventualmente aprendeu a lidar com sua ausência - e então com seu retorno, sua inconsistência. Estava tudo bem, porque nos seus baixos, havia sua mãe ali: suas mãos geladas, seu alívio, seus conselhos e discursos motivadores. Sua imagem que causava transe e lhe dava forças para seguir.
Estava tudo bem.