caos.

caos.

tw: nenhum identificado.

Joey sempre foi instável. Meio descontrolada. Uma bagunça ambulante tentando parecer uma tempestade planejada. E naquela manhã, por algum motivo idiota, ela achou que estava tudo sob controle.

A aula era prática. Alternância de pontas. Transição. Equilíbrio. Palavras bonitas pra algo que, no fundo, ela sabia que não dominava. Mas queria tentar. Porque se ainda estava ali, era preciso fazer valer. Provar alguma coisa. Ainda que nem soubesse mais o quê.

O círculo sob os pés pulsava devagar. O vento veio primeiro, fácil como sempre. Girou ao redor dela como uma fita solta no ar. Depois a necromancia. As sombras subiram obedientes, frias e silenciosas.

Ela estava no ritmo.

Estava indo bem.

Até não estar mais.

O professor corrigiu um movimento. Frio, seco. E uma voz no fundo: alguém comentou algo baixo, venenoso. Uma piada. Um deboche. Nem precisou entender as palavras. Joey entendeu o peso.

Na hora, tentou ignorar. Puxou o ar de novo, chamou a morte contida que sempre respondia ao seu toque. Mas o ar se recusou, se partiu em rajadas descoordenadas. E a presença do Outro Lado, aquele eco frio e insistente, veio rápido demais, subiu pelo corpo como um arrepio invertido, cravando no peito um peso impossível de expulsar.

O chão sob seus pés tremeu.

Joey tentou retomar o controle. Mas era como segurar areia com as mãos molhadas.

E então veio a sensação.

Aquela.

Como um loop rodando de novo, a mente correndo em círculos. O corpo ali no centro de um redemoinho que ela mesma criou.

Porra. De novo.

Ela achou que tinha escapado.

Achou que tinha enterrado aquele nome. Aquela presença. Aquele toque gelado nas costas. Mas ele estava ali. Ainda estava ali.

O chão dentro do círculo começou a se entortar. Literalmente. As pedras em volta afundaram ou subiram, cada uma por conta própria. O próprio espaço se esticava e encolhia como tecido mal costurado. Um som grave começou a vibrar nos ossos, não no ar, mas dentro da carne.

O tempo perdeu a forma. Um segundo parecia durar horas.

O círculo se abriu em espiral.

Não rachado. Curvado. Como se o chão tivesse decidido não seguir mais as regras do mundo. E ali no meio, flutuando meio centímetro, ela sentia tudo.

O descontrole. A magia fora de si. A certeza de que aquilo não vinha só dela, vinha dele também.

— Ainda vejo você. — ele disse.

A frase veio de todos os lados e de nenhum.

Joey sentiu a espiral interna descer pro peito. Um pânico quente, pesado. Não era só medo, era cansaço. Era o reconhecimento amargo de que não importava o quanto corresse, ela sempre parecia voltar pro mesmo lugar.

Ela fechou os olhos com força, querendo apagar tudo, querendo sumir. A raiva veio como uma fisgada nos dentes. Ela tinha lutado pra seguir em frente. Tinha enterrado tudo. Tinha queimado todas as pontes.

Mas o círculo não deixava.

O chão a prendia.

E ele...

— Eu esperei você voltar, criança.

Foi um sussurro doce. Carinhoso, até. E isso foi pior. Porque parecia afeto. Porque soava como casa. Como uma voz familiar que, em vez de assustar, acolhia.

E por um segundo, ela quis responder.

Quis cair naquele tom.

Deixar-se ir.

Mas ao redor, o chão seguia se partindo em formas impossíveis. Um pedaço da arena ficou suspenso no ar, parado como se o tempo tivesse travado ali. Linhas tortas flutuavam como rachaduras num espelho invisível.

A ponta tinha se aberto.

E agora, realmente, não tinha mais como fechar.

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