Watch me while I bloom.
O silêncio no apartamento de Gangnam parecia reverberar numa densidade diferente daquele que ela conhecera na cobertura em Haeundae. Meses atrás, o vazio das salas amplas e a vista luxuosa para o mar de Busan eram preenchidos por uma expectativa febril, quase doentia. Ela passava noites em claro, encarando a tela do celular, dividida entre o desejo infantil de ser notada e o pavor de ver o nome de Tomiko ou Shigeru no celular iluminar o quarto. Cada chamada era uma batalha pela sua autonomia, um lembrete de que, para eles, ela era apenas uma extensão da tradição, uma peça a ser moldada para um casamento de conveniência.
Agora, em Seul, numa sexta-feira à noite, Rina sabia que não havia chamadas a caminho.
Estava sentada diante da escrivaninha, a luz fria do notebook acentuando as olheiras que a maquiagem não escondia mais. O cursor piscava ritmicamente no documento das tarefas da faculdade, como um coração mecânico e indiferente. Ela finalmente estava cursando Relações Internacionais, o curso que Shigeru ridicularizara, enfatizando que era uma "perda de tempo" antes de ameaçar cortar seu sustento. No entanto, ela venceu. Aquela patricinha que não sabia nem ao menos pegar um ônibus, que ele tentara dobrar tinha sobrevivido, mas a vitória tinha um sabor de solidão.
O que tornava a noite ainda mais pesada era o eco de uma notícia recente: o retorno dele. O amigo, aquele interesse que nunca virou nada, que ficou perdido na própria incapacidade dela de ser algo além de uma boneca de porcelana, ou se permitir sentir algo real. Saber que ele estava em Seul era um soco no estômago, mas a angústia real vinha de perceber que o tempo não para. Ela não era mais a garota acuada na cama de um quarto digno de princesa, e ele certamente não encontraria mais aquela Rina. O abismo entre quem eles foram e quem sobrou agora parecia impossível de atravessar.
Com a morte dos pais, a opressão que a sufocava transformara-se em uma liberdade vasta e aterradora. Não havia mais o blazer Chanel impecável da mãe para julgá-la através de uma videochamada, nem a postura rígida do pai para fazê-la baixar os olhos de vergonha. Contudo, enquanto observava o reflexo da própria expressão cansada no vidro da janela, Rina sentia uma ansiedade nova. Era a inquietante percepção de que o silêncio do apartamento não era apenas a ausência de barulho, mas a ausência de um porto — mesmo que esse porto fosse, outrora, um lugar de tormentas.
A chama de coragem que a fizera enfrentar a misoginia e o controle familiar ainda ardia, mas naquela noite, parecia apenas uma pequena vela em um quarto imenso e escuro. Ela era livre, dona do seu destino e das suas noites de sexta-feira, mas enquanto seus dedos hesitavam sobre o teclado, Rina percebia que a solidão de quem não tem ninguém a quem prestar contas era, por vezes, mais pesada do que a opressão de quem tinha tudo a provar.