Terra abrasada.

Terra abrasada.

Alric Lars Granfelt. Halkeginia, 00am. 22.05.2025

Desde a visita à Torre E, algo em Alric tinha mudado.

Não era exatamente um sentimento — era um silêncio. Um silêncio profundo que o seguia mesmo durante o burburinho das aulas ou a confusão nos corredores dos dormitórios com os preparativos para a festa na piscina.

Aquele mistério tinha acendido algo em Alric.
E ele continuou investigando, claro.

A rotina dos funcionários, os horários de troca dos faxineiros, o padrão das luzes que nunca piscavam naquela parte específica do castelo ou os sussurros que jurava escutar durante a madrugada; todos eram traduzidos como sinais. Mas fora o pergaminho de Elarim que veio como uma fagulha sobre a lenha seca: incompleto, cheio de promessas, e ainda assim com aquele brilho antigo e denso, como carvão que ainda crepitava mesmo enterrado sobre as cinzas. Havia algo ali, algo que o professor Mahir não quis admitir e que a diretoria fez questão de colocar de baixo do tapete. Algo que Alric queria descobrir.

Mas então, vieram os sintomas.

No primeiro dia, pensou que fosse apenas o cansaço. Dor de cabeça, a garganta rouca, a pele mais quente que o normal.

No segundo, a febre se tornou tão alta que o espelho do banheiro embaçava com sua respiração e podia jurar ver aparições no vidro.

No terceiro, o termômetro explodiu.

— É só um resfriado. — Mentiu, tentando desviar a preocupação de Hector; insistente em levá-lo até a enfermaria.

Mas não era.

Sua pele queimava ao toque, a ponta dos dedos pareciam latejar em brasas e os livros em seu quarto escureciam nas bordas como se houvessem sido queimados de repente. Ele tentou esconder os sinais. Tentou não chamar atenção. Afinal, ele sabia: mostrar demais era abrir a porta para ser apagado.

Como Yanlin havia sido. Como os meteoros.

Foi no quarto dia que ele desmaiou.

Acordou na sala de isolamento da enfermaria, com a janela lacrada e a luz do lampião acima da cama piscando, tão fraca quanto o próprio pulso. Havia manchas escuras no lençol, como se houvesse transpirado mais do que deveria. Sua garganta estava seca como areia e a febre ainda borbulhava sob a pele, ameaçando o consumir de uma vez. Era como se algo pressionasse seu peito de dentro para fora, uma mão invisível tentando romper a carne já fraca do loiro.

Você visitou a Torre E. — Disse uma voz, familiar demais.

Era o professor Mahir El-Sayed, parado contra a sombra da porta. Seus olhos estavam menos calorosos do que o normal desde sua saída do castelo.

Ainda sim, Alric não respondeu.

— Há lugares em Halkeginia que estão trancados por bons motivos. — O professor continuou, cruzando os braços. — O fogo... não gosta de ser contido. Ele lembra. Ele reage. Você deveria saber disso melhor do que ninguém.

Foi só então que Alric entendeu, suspirando. A febre. A rejeição. Não era apenas sua ponta querendo nascer — era algo naquela torre tentando impedi-lo; de alguma forma o contato com as paredes da Torre E haviam plantado algo dentro dele — ou despertado o que já existia.

— O que é que eles tanto temem? — Murmurou.

— O que Halkeginia teme... é queimar. — O professor se afastou, parando em frente a saída. — Você precisa fazer uma escolha, Alric.

Um passo em falso, e o fogo que quer sair vai consumir tudo.
Inclusive você.

Naquela noite, ninguém viu Alric sair da enfermaria.

Mas quem estava acordado nos dormitórios poderia jurar ter sentido a temperatura subir. Janelas embaçaram, as luzes piscaram e uma sombra passeou pelos pátios do castelo, marcando a terra por onde plantava os pés. Apressados. Desesperados.

Foi só quando finalmente chegou nas arenas — o lugar onde viu os meteoros desaparecerem no vácuo — que a dor que sentia se tornou insuportável. Ele caiu de joelhos, o peito em chamas. Os olhos se fecharam por instinto e, por entre as pálpebras, saiu uma luz avermelhada, turva, quase como se fosse fumaça líquida.

A ponta nasceu.

Não com controle, mas com fúria. Com raiva.

Alric arranhou a terra com a ponta dos dedos e sentiu o corpo inteiro se dobrar no meio; grunhiu alto, a boca se abrindo e deixando uma chama rugir em direção aos céus ao que condenava a terra ao seu redor em seu próprio incêndio.

Havia feito uma escolha.

Deixaria com que o corpo se tornasse sólido como rocha.
Deixaria com que a alma fluísse como a própria corrente.
Deixaria com que as emoções escapassem, como as chamas.

Seria assim,
como terra abrasada.


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