TRAÇOS DE PALAVRAS

TRAÇOS DE PALAVRAS

Erin Miller

Erin aceitou o convite do colega para fazer ilustrações dos poemas que ele iria exibir no concurso do SKYGG como uma honra. Afinal estava se sentindo reconhecido, mesmo sendo estudante de artes visuais, o australiano sempre teve receio quanto a mostrar suas obras aos outros.

A parceria parecia perfeita, ele um artista, o outro um escritor. "Cinco poemas. Coisa rápida. Faz aí uns traços orgânicos, pô, algo meio aquarela digital", ele disse.

Haerin pegou os esboços dos textos na segunda-feira, leu durante os intervalos dos treinos e ensaios de seus próprios clubes e times. O conteúdo era sobre mãos que se encontram sem querer no corredor da faculdade. Eram poemas sobre amor, mais precisamente amor universitário. "Clichê", ele pensou.

O ruivo começou a trabalhar nas ilustrações na segunda à noite. O primeiro poema pedia 'dedos que hesitam'. Ele rabiscou umas cinco versões de mãos. Nenhuma ficava boa. As mãos pareciam mortas, sem aquele tremor que o poema descrevia.

Na terça-feira ele tornou a reler. O segundo poema era sobre silêncios compartilhados numa mesa do restaurante universitário. A personagem do poema contava as horas pelo movimento das sombras no rosto de seu interesse. Erin abriu seu procreate e, sem pensar, desenhou a luz da janela recortando uma orelha, um pedaço de queixo, os fios de cabelo que escapam do 'rabo de cavalo' mal-feito.

O arquivo foi salvo como "estudo_luz_01". Mas os trações utilizados ali eram familiares.

Na quarta-feira, o terceiro poema o paralisou. Era sobre alguém que aprendeu a identificar a presença do outro pelo cheiro de tinta nanquim que impregnava o corredor do departamento de artes. Ele leu 3 vezes. Era como se aqueles poemas estivessem falando de si, ele vivia com cheiro de nanquim pois era a pessoa que estava sempre com os dedos manchados de preto e tinha uma pessoa em específico que sempre comentava sobre seu cheiro.

Na madrugada de quinta-feira, Erin estava em seu dormitório, luz desligada, a tela do ipad iluminando meu rosto enquanto ele desenhava o quarto poema. Falava sobre olhares que demoram meio segundo a mais do que o necessário. Ele desenhou olhos. Só olhos. Dezenas deles. Todos com o mesmo formato amendoadado, todos com a mesma íris castanha que tem um ponto mais claro perto da pupila. Todos com aquela expressão que ele nunca soube nomear, mas que guardava num arquivo mental chamado "coisas que a ele faz".

No fundo Haerin sabia que tinha alguém em mente enquanto lia aqueles poemas, e ao ilustrá-los, não poderia usar outros rostos de referência, a não ser o dele.

Assim que finalizou o quarto, foi para o quinto poema. Era o mais curto.

e se o amor que eu canto

for o mesmo

que eu não tenho coragem

de chamar pelo nome?

Ele ficou olhando para aquelas quatro linhas por um longo tempo. O ponteiro do relógio marcava 4h17. Erin abriu uma nova camada. Escolheu um pincel macio, quase invisível e começou a desenhar.

Quando terminou, era um rosto visto de perfil, quase dissolvendo nas bordas, como se estivesse surgindo da névoa ou prestes a desaparecer. Não dava pra reconhecer. Só quem soubesse procurar veria o ponto claro na pupila castanha, o cabelo que nunca fica completamente preso devido ao comprimento, a curva do sorriso que faz quando está concentrado e nem percebe.


O arquivo foi salvo como "estudo_sobre_ele_o5".

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