São Bento 9

São Bento 9



CARTA ENCÍCLICA

FULGENS RADIATUR

DO SUMO PONTÍFICE

PAPA PIO XII


(Continuação)



16. Surgiu aqui, no princípio, uma dificuldade grave e intricada, na questão relativa a escolha dos candidatos. Vinham bater às portas do mosteiro indivíduos de todas as categorias sociais, na mais completa promiscuidade de nacionalidade, raça e classe: romanos e bárbaros, livres e servos, vencidos e vencedores, aristocratas de alta linhagem patrícia e humildes filhos da plebe. Bento resolve o problema, com serenidade de espírito, aplicando-lhe o princípio da caridade fraterna, "porque, quer gire nas nossas veias o sangue orgulhoso dos patrícios, quer o humilde e obscuro do escravo, todos somos um em Cristo, servindo na mesma milícia o mesmo estandarte. Seja igual para todos, portanto, a caridade, respeitando-se em tudo o merecimento e virtude de cada um".(24) Aos que entrarem no seu Instituto exige "que possuam em comum todas as coisas", (25) não contrariadamente ou por força, mas espontaneamente, por amor. Todo religioso deve prender-se, por voto de estabilidade, ao claustro do seu mosteiro. Poderá, desse modo, consagrar-se, com mais eficácia, à oração, ao estudo dos livros; (26) ao cultivo dos campos,(27) às artes manuais, (28) e aos trabalhos de apostolado religioso. Com efeito, "sendo a ociosidade inimiga da alma, convém que o religioso se ocupe, a horas determinadas, no trabalho manual...".(29) Todavia, o que acima de tudo havemos de colocar, sobre o que se deve zelar com todo o cuidado e diligência, "é que nada se prega ao ofício divino".(30) E embora "tenhamos de fé que está Deus presente em todos os lugares, devemos crer com mais firmeza esta verdade no ofício divino. Considerando, pois, as maneiras que devemos guardar na presença da Divindade e dos anjos, salmodiemos de modo que a nossa voz e a nossa alma vibrem a uníssono". (31)

17. Desses princípios e regras que tivemos por bem salientar da Regra beneditina, facilmente se conclui e avalia a sabedoria, a oportunidade, a admirável congruência desta Regra com a natureza humana, a sua importância e gravidade. Com efeito, enquanto nessa escura e convulsionada época da história o cultivo da terra, o amor do trabalho e da arte, o estudo das ciências e das letras, tanto religiosas como profanas, eram lançados, por uma espécie de desdém geral e sintomático, ao abandono, dos mosteiros beneditinos sai uma plêiade luminosa de agricultores, de artistas, de sábios, que nos salvaram incólumes os monumentos da velha literatura, conciliaram os velhos e os novos povos, em guerras constantes, reduzindo-os da barbárie renascente, das correrias, do saque, à moderação da moral humana e cristã, à abnegação do trabalho, à luz da verdade; reconstituíram, enfim, uma civilização enformada nos princípios do Evangelho.


(Continua...)


Fonte: https://www.vatican.va/content/pius-xii/pt/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_21031947_fulgens-radiatur.html


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