São Bento 68

São Bento 68



VISITA PASTORAL DO SANTO PADRE A SUBIACO (ITÁLIA)

[28 DE SETEMBRO DE 1980]

 DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II

DURANTE A VISITA À GRUTA SAGRADA (SACRO SPECO)

Mosteiro Beneditino

Domingo, 28 de Setembro de 1980


(Continuação...)


6. Quer se trate do mundo que no tempo de São Bento se limitava à antiga Europa, quer do mundo que, ao mesmo tempo, estava prestes a nascer, o horizonte de ambos passava através da parábola do rico e do pobre Lázaro. No momento em que o Evangelho, a Boa Nova de Cristo, penetrava na Antiguidade, esta suportava o peso da escravidão institucional. Bento encontrou no horizonte da sua época as tradições da escravidão e simultaneamente relia no Evangelho uma verdade desconcertante sobre o reajustamento definitivo da sorte do rico e de Lázaro, de acordo com a ordem do Deus de justiça, e lia também a alegre verdade sobre a fraternidade de todos os homens. Desde o princípio o Evangelho constituiu, portanto, um apelo a que se ultrapassasse a escravidão em nome da igualdade dos homens aos olhos do Criador e Pai. Em nome da cruz e da Redenção.

Esta verdade, esta Boa Nova da igualdade e da fraternidade, não foi São Bento que a traduziu em Regra de vida? Traduziu-a não somente em regra de vida para as suas comunidades monásticas, mas, ainda mais, em sistema de vida para os homens e os povos. "Ora et labora". O trabalho, na antiguidade, era a sorte dos escravos, o sinal do aviltamento. Ser livre significava não trabalhar, e portanto viver do trabalho dos outros. A revolução beneditina coloca o trabalho no coração mesmo da dignidade do homem. A igualdação dos homens à volta do trabalho torna-se, através do mesmo trabalho, um como fundamento da liberdade dos filhos de Deus, da liberdade graças ao clima de oração em que vive o trabalho. Aqui está com exactidão uma regra e programa. Programa que inclui dois elementos. A dignidade do trabalho não pode, com efeito, ser tirada unicamente de critérios materiais, económicos. Deve amadurecer no coração do homem. Não pode amadurecer em profundidade, senão por meio da prece. Porque é a oração — e não são apenas os critérios da produção e do consumo — o que diz definitivamente à humanidade o que é o homem do trabalho, esse que trabalha suando no rosto e fatigando-se também no espírito e nas mãos. Diz-nos que não pode ser escravo mas que é livre. Como afirma São Paulo: "O que é chamado pelo Senhor, sendo servo, é um liberto do Senhor" (1 Cor 7, 22). E Paulo, que não julgou indigno de um Apóstolo "cansar-se a trabalhar com as suas mãos" (1 Cor 4, 12), não teme mostrar aos anciãos de Éfeso as suas próprias mãos que proveram às suas necessidades e às dos companheiros (cf. Act 20, 34).

E na fé em Cristo e na oração que o trabalhador descobre a sua dignidade. E ainda São Paulo que explica: "Deus enviou aos nossos corações o Espírito do Seu Filho que brada 'Abbá! Pai!. Portanto, já não és escravo mas filho" (Gál 4, 6-7).

Não vimos recentemente homens que, perante toda a Europa e o mundo inteiro, uniam a proclamar a dignidade do seu trabalho a oração?

7. Bento de Núrsia, que pela acção profética procurou tirar a Europa das tristes tradições da escravidão, parece portanto falar, passados quinze séculos, aos numerosos homens e às múltiplas sociedades que é preciso libertar das diversas formas contemporâneas de opressão do homem. A escravidão pesa sobre quem está oprimido, mas também sobre o opressor. Não conhecemos, no decurso da história, potências, impérios, que oprimiram as nações e os povos, em nome da escravidão ainda mais forte da sociedade dos opressores? A palavra de ordem "ora et labora" é mensagem de liberdade.

Além disso, esta mensagem beneditina não é hoje, no horizonte do nosso mundo, apelo para nos libertar da escravidão do consumo, de uma maneira de pensar e de julgar, de estabelecer os nossos programas e de orientar todo o nosso estilo de vida apenas em função da economia?

Nestes programas desapareciam os valores humanos fundamentais. A dignidade da vida está sistematicamente ameaçada. A família está ameaçada, quer dizer, este laço essencial recíproco, fundado na confiança das gerações, que encontra origem no mistério da vida e plenitude em toda a obra da educação. É também todo o património espiritual das nações e das pátrias que está ameaçado.

Somos nós capazes de enfrear tudo isto? De reconstruir? Somos capazes de afastar dos oprimidos o peso do constrangimento? Somos capazes de convencer o nosso mundo de que o abuso da liberdade é outra forma de constrangimento?

São Bento foi-nos dado como Padroeiro da Europa do nosso tempo, do nosso século, para testemunhar que somos capazes de tudo isto.

Só é preciso que assimilemos de novo o Evangelho no mais profundo das nossas almas, no quadro da nossa época actual. Devemos aceitá-lo como a verdade e consumi-lo como alimento. De novo se descobrirá então, pouco a pouco, o caminho da salvação e da restauração, como nesses tempos longínquos em que o Senhor dos Senhores colocou Bento de Núrsia como candeia em cima do velador, como farol no caminho da história.

É Ele, com efeito, que é o Senhor de toda a história do mundo, Jesus Cristo, que, de rico que era, se fez pobre por nós, para nos enriquecer com a sua pobreza (cf. 2 Cor 8, 9).

A Ele honra e glória pelos séculos!


Fonte: https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/speeches/1980/september/documents/hf_jp-ii_spe_19800928_speco-subiaco.html

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