São Bento 67
VISITA PASTORAL DO SANTO PADRE A SUBIACO (ITÁLIA)
DISCURSO DO PAPA JOÃO PAULO II
DURANTE A VISITA À GRUTA SAGRADA (SACRO SPECO)
Mosteiro Beneditino
Domingo, 28 de Setembro de 1980
(Continuação)
3. Homem de Deus, Bento foi-o relendo continuamente o Evangelho, não apenas com a finalidade de o conhecer, mas também para o traduzir por inteiro em toda a sua vida. Poder-se-ia dizer que o releu em profundidade — com toda a profundidade da sua alma —, e que o releu na sua extensão, segundo a medida do horizonte que tinha diante dos olhos. Este horizonte foi o do mundo antigo a ponto de morrer e o do mundo novo que estava para nascer. Tanto na profundidade da sua alma como no horizonte deste mundo, consolidou todo o Evangelho: o conjunto do que constitui o Evangelho, e ao mesmo tempo cada uma das suas partes, cada uma das passagens que a Igreja relê na liturgia e mesmo cada frase.
Sim, o homem de Deus — "Benedictus", o Abençoado, Bento — deixa-se penetrar por toda a simplicidade da verdade que nele está contida. E vive este Evangelho. E vivendo-o, evangeliza.
Paulo VI deixou-nos em herança São Bento de Núrsia como Padroeiro da Europa. Que desejava dizer-nos com isto? Primeiro que tudo, talvez, que devemos entregar-nos sem cessar à tradução do Evangelho, que o devemos traduzir inteiramente e em toda a nossa vida. Que devemos relê-lo com toda a profundidade da nossa alma e completamente segundo a dimensão do horizonte do mundo que temos diante dos olhos. O Concílio Vaticano II situou firmemente a realidade da Igreja e da sua missão no horizonte do mundo que dia após dia se lhe torna contemporâneo.
A Europa constitui parte essencial deste horizonte. Enquanto continente, onde se encontram as nossas pátrias, ela é para nós um dom da Providência, que no-la confiou ao mesmo tempo como obra para ser levada a termo. Nós, como Igreja, como Pastores da Igreja, devemos reler o Evangelho e anunciá-lo na medida das tarefas que são inerentes à nossa época. Devemos relê-lo e pregá-lo à medida das expectativas que não param de se manifestar na vida dos homens e das sociedades e ao mesmo tempo à medida das contestações que encontramos na vida de uns e de outros. Cristo não deixa nunca de ser "a expectativa dos povos" e simultaneamente não cessa também de ser o "sinal de contradição".
Sim, seguindo as pisadas de São Bento, a tarefa dos Bispos da Europa está em empreender a obra da evangelização neste mundo contemporâneo. Fazendo isto, eles referem-se ao que foi elaborado e construído desde há quinze séculos, ao espírito que o inspirou, ao dinamismo espiritual e à esperança que marcou esta íniciativa; mas é também obra a que se devem meter ombros de maneira renovada, à custa de novos esforços, em função do contexto actual.
4. É neste quadro da evangelização que toma todo o seu sentido a Declaração dos Bispos da Europa, acabada de ler: "Responsabilidades dos cristãos perante a Europa de hoje e de amanhã". Este documento, elaborado em comum, é fruto apreciável da responsabilidade colegial dos Bispos do conjunto do continente europeu. E sem dúvida a primeira vez que a iniciativa toma esta amplidão. Trata-se de um documento, de alguma maneira, da Igreja católica na Europa, que é representada, de modo especial, pelos Bispos como Pastores e Mestres da fé. Saúdo com alegria este sinal animador de uma responsabilidade colegial que progride na Europa, de uma unidade melhor afirmada entre os Episcopados. Estes Episcopados encontram-se, com efeito, em países com situações muito diversas, quer se trate dos sistemas sociais ou económicos, da ideologia dos seus Estados ou do lugar da Igreja católica — que forma umas vezes maioria indiscutível, outras pequena minoria ao lado das outras Igrejas — quer se trate em relação com uma sociedade muito secularizada. Confiando no carácter benéfico, estimulante, das trocas e da cooperação, como muitas vezes tenho dito, animo de toda a alma a que se prossiga em tal colaboração, que se inscreve bem na linha da Concílio Vaticano II. Não é aliás estranha à prática beneditina e cisterciense da interdependência e da cooperação entre os diferentes mosteiros ao longo da Europa.
Na Declaração tornada póblica hoje e neste alto lugar, exprimis vós a justo título a solicitude por uma unidade eclesial alargada. A Europa é, com efeito, o continente em que as separações eclesiais tiveram origem e se manifestaram clamorosamente. Quer dizer que as Igrejas na Europa — as nascidas da Reforma, a Ortodoxia e a Igreja católica, que permanecem ligadas de maneira especial à Europa — têm responsabilidade particular no caminho da unidade: o verdadeiro ecumenismo deve desenvolver-se nela com intensidade, no plano da compreensão recíproca, dos trabalhos teológicos e da oração.
Do mesmo modo, quanto às comunidades católicas dos outros continentes, aqui representadas, a Igreja da Europa deve caracterizar-se pelo acolhimento, pela serviço e pelo inetrcâmbio recíprocos para ajudar estas Igrejas-irmãs a encontrarem o seu rosto próprio na unidade da fé, dos sacramentos e da hierarquia.
Em resumo, é testemunho comum da vossa solicitude pastoral hodierna, caros Irmãos, que damos hoje, em função das necessidades e das expectativas. Não tenho de retomar aqui o que está longamente exposto nesse Documento comum. Trata-se de delinear um caminho de evangelização para a Europa, e de o seguir com os nossos fiéis. É obra para ser continuada e retomada sem cessar. O próximo Simpósio dos Bispos da Europa não tem por tema "A auto-evangelização da Europa"? Isto leva-nos ao grande projeto, à iniciativa sem paz de São Bento, de que certos caracteres específicos têm enormes consequências humanas, sociais e espirituais.
5. São Bento de Nursia tornou-se Padroeiro espiritual da Europa porque, como o profeta, fez do Evangelho e seu alimento, e provou-lhe ao mesmo tempo a doçura e e amargor. O Evangelho constitui, com efeito, a totalidade da verdade sobre o homem: é simultaneamente a alegre nova e também a palavra da cruz. Por meio dele vê-se reviver, de diversas maneiras, o problema do rico e do pobre Lázaro — com o qual a liturgia de hoje nos familiarizou — enquanto drama da história e problema humano e social. A Europa inscreveu este problema na sua história; levou-o bem além das fronteiras do seu continente. Com ele, semeou a inquietação no mundo inteiro. Desde meados do nosso século, este problema voltou, em certo sentido, à Europa, põe-se assim na vida das suas sociedades. Não deixa de ser a fonte das tensões. Não deixa de ser a fonte das ameaças.
Destas ameaças, já falei no primeiro dia do ano, fazendo alusão a este grande aniversário de São Bento; lembrava, diante dos perigos de guerra nuclear que ameaçam a existência mesma do mundo, que o espírito beneditino é espírito de salvação e promoção, nascido da consciência do plano divino de salvação e educado na união quotidiana da oração e do trabalho". "Está nos antípodas de qualquer programa de destruição".
A peregrinação que realizamos hoje é ainda portanto grande brado e nova súplica pela paz na Europa e no mundo inteiro. Pedimos que as ameaças de autodestruição, que as últimas gerações fizeram levantarem-se no horizonte da sua própria vida, se afastem de todos as povos do nosso continente e de todos os outros continentes. Pedimos que se afastem também as ameaças de opressão de uns para com os outros: a ameaça da destruição dos homens e dos povos que, durante as suas lutas históricas e à custa de tantas vítimas, adquiriram o direito moral de serem eles mesmos e decidirem deles mesmos.
(Continua...)