São Bento 64
VISITA PASTORAL DO SANTO PADRE
A MONTECASSINO E CASSINO (ITÁLIA)
CONCELEBRAÇÃO LITÚRGICA POR OCASIÃO
DO XV CENTENÁRIO DE SÃO BENTO
HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II
Montecassino, 20 de Setembro de 1980
No esplêndido cenário desta basílica, ressurgida milagrosamente da ruína devida ao ataque da guerra, e de novo consagrada pelo meu inolvidável predecessor Paulo VI, transborda hoje com uma assembleia tão escolhida, talvez única na história mais que milenária cassinense, de filhos e filhas de São Bento diante do seu glorioso sepulcro, como se o víssemos redivivo. Aqui à volta do altar, onde se concelebra o Sacrifício Eucarístico, vem-me espontaneamente ao espírito e não posso deixar de repetir o grito jubiloso de Isaias: Ó Pai venerando, "levanta os olhos à volta e vê: como todos estes se reuniram para vir a ti; os teus filhos chegaram de longe e as tuas filhas foram transportadas ao lado" (cf. Is 49, 18; 60, 4). Para celebrarem o teu jubileu, juntaram-se de todas as partes do mundo, na alegria de te manifestarem a sua fidelidade filial, de te exprimirem os seus votos e de pedirem a tua fecunda bênção em comunhão visível e muito desejada com o sucessor de Pedro. E este sente a satisfação de se encontrar com eles, para te manifestar a ti — Patriarca, pelo decorrer de tantos séculos, de milhões de monges — a estima e o amor que toda a Igreja professa por ti, criador, por desígnio e graça de Deus, de imensos tesouros de civilização, cultura e sobretudo de santidade.
A tua vida, embora passada no apertado raio de uma só região, foi maravilhosa por virtude e prodígios; mas a acção da tua mensagem vivificadora estendeu-se a toda a Europa e a todo o mundo, até alcançar os nossos dias, graças àquele teu pequeno mas grandíssimo livro, destinado a tornar-se fermento da divina justiça para a formação cristã das multidões que Deus, como já para Abraão, te preparava como inigualável herança.
É muito agradável e comovedor para mim, e para todos os aqui presentes, pensar que, precisamente neste mosteiro, num pequeníssimo e escuro ângulo que a guerra respeitou, foi escrito aquele livro, a tua Regra: como recorda ali em baixo uma inscrição lapidar: "Aqui escreveu a Regra e ensinou-a com palavras e obras".
Veneráveis Abades, dilectíssimos filhos e filhas de tão grande Pai e Legislador: neste encontro que podemos definir excepcional e neste vértice das celebrações centenárias do nascimento, do Santo, a esse preciosíssimo livro devemos regressar e nele inspirar-nos para conseguir a reconstrução moral e religiosa que urgentemente nos diz respeito e ao mundo devemos. A minha recentíssima Carta Apostólica Sanctorum Altrix teve em vista propor, quase em visão panorâmica, o muito de vital e de fértil que ainda podem oferecer o ensinamento e a instituição de Bento, não só para a vida de perfeição monástica, mas também para a renascença e o revigoramento do sentir e do praticar, que se inspiram no Evangelho.
Com imenso prazer sei ainda que, para digna memória do centenário, estais a celebrar em Roma, coração da Cristandade, um original Simpósio precisamente sobre a Regra, com o nobre propósito de verificar e descobrir, em seguida aos muitos estudos recentes e com base em experiências já feitas ou ainda em execução, quanto ela possui ainda de válido e vivificante, quais são as estruturas fundamentais e infrangíveis que hão-de resistir, quais as acessórias que a evolução dos tempos tornou e torna caducas, e quais os valores inderrogáveis a que é preciso aderir tenazmente nos mosteiros, para que possam reconhecer-se ainda inseridos no sulco da família beneditina.
Com razão, como acontece em todo o pensamento e em toda a prática de hoje, sentis a necessidade, vós especialmente que sois os pastores das comunidades, de que fique bem clara a identidade do filho e discípulo de Bento. Falo a quem sabe: vós que tantas vezes lestes e longamente meditastes a vossa Regra, sabeis bem o que por meio dela, da qual ninguém se aparte temerariamente (3, 7), o Patriarca quer construir e ao mesmo tempo ensinar.
Quer construir, como é bem sabido, a escola do serviço do Senhor (Prol. 45). A identidade vossa está neste absoluto e total serviço ao valor absoluto que é Deus. Todo o mundo está em Deus; mas o mosteiro, como Bento gosta de o definir, é casa de Deus (53, 22) em especial: o monge está nele para servir o Senhor desta casa, na humildade, na obediência, na oração, no silêncio, no trabalho e sobretudo na caridade. Conheceis a insistência especial com que o vosso Legislador assinala esta virtude no seguimento de Cristo, como informadora de toda a vida monástica. O capítulo dos instrumentos das boas obras (Reg. 4) adverte-vos que, na realidade, a ascética e a mística beneditinas são simplesmente evangélicas, com um Evangelho aceito e praticado em todas as suas consequências.
Reconhecida esta identidade, eis o propósito e o amor, hoje também tão difundidos, de autenticidade. Dos beneditinos isto quero eu, queremos todos na Igreja e no mundo: convencidos do que é o monge na mente do Patriarca, sejam monges verdadeiramente, verdadeiramente (diz ele próprio revera) buscadores de Deus, amantes de Deus, felizes por viverem apartados do mundo, num contexto familiar de obediência e de caridade, do qual nascem a paz e a alegria: ninguém se perturbe nem contriste na casa de Deus (31, 19).
(Continua...)