São Bento 61
CARTA APOSTÓLICA
SANCTORUM ALTRIX
DO SUMO PONTÍFICE
JOÃO PAULO II
NO XV CENTENÁRIO
DO NASCIMENTO DE SÃO BENTO
PATRONO DA EUROPA,
MENSAGEIRO DA PAZ
(continuação...)
VI
Na sociedade, qual existe nos nossos tempos, e aqui e ali tomou o carácter de "sociedade sem pais", o Santo de Núrsia ajuda a reencontrar aquela primária dimensão — talvez demasiado esquecida pelas autoridades — a que chamamos dimensão paterna.
S. Bento faz entre os seus monges as vezes de Cristo, e estes obedecem-lhe como ao Senhor com sentimentos que o mesmo Salvador tinha para com o Seu Pai. A esta obediência-audição, própria de filhos, que deste modo ajudam a pintar a figura do pai, corresponde a mente decidida, que S. Bento deseja transmitir a todos os monges, considerando as pessoas em geral. Esta atenção permite-lhe tratar mais diligentemente de todas as necessidades da comunidade.
Quem exerce a autoridade, ainda que não omitindo as coisas que dizem respeito à estruturação da vida monástica e às coisas materiais, é necessário que tenha a solicitude da condição espiritual de cada pessoa, porque esta deve ser muito preferida ao que é terreno e transitório.
Na consideração destas coisas, que na vida humana são espirituais e fundamentais, o abade é iluminado pelo colóquio que tem assiduamente com a palavra de Deus. A esta palavra de Deus tanto se conforma o pai, que a sua acção se torna quase um fermento de justiça divina a actuar na mente dos filhos.
Nas deliberações que hajam de tomar-se dentro da comunidade, S. Bento concede plena autoridade ao abade; a sua deliberação não pode ser impugnada. Isto não vem todavia de a autoridade ser julgada dominação imperiosa: o pai toma conselho com todos os irmãos e com alguns em particular, sem qualquer preconceito, estando ele persuadido que também nas coisas de grande importância "muitas vezes o Senhor revela ao mais novo o que é melhor" [33].
No colóquio fraterno, o abade ouve as propostas daqueles que interroga sobre a atribuição de um ofício determinado, mas, para bem do particular ou da comunidade, há-de ser forte no mandar coisas que às vezes podem parecer impossíveis; deverá ter muito a peito a promoção dos particulares, a fim de que progridam e toda a comunidade aumente e cresça.
O fim primário, em vista no pai da comunidade, deverá ser ajudar e governar as almas atentamente, de maneira que se veja com clareza que o primado é atribuído ao amor. O verdadeiro pai "exalte a misericórdia acima do juízo" [34], e procure mais ser amado que temido, sabendo convir mais ser útil do que mandar [35].
Recordando-se que deverá prestar contas de todos os que lhe estão entregues, o abade ama os irmãos; com eles e por eles desempenhando o cargo de bom pastor, faz o que julga ser mais útil para o bem de todos, mais convir e ser mais salutar. "O abade deve ter, pois, grande solicitude e correr com todo o discernimento e empenho, para não deixar perder nenhuma das ovelhas a si confiadas... Imite ainda o piedoso exemplo do bom Pastor que, deixando 99 ovelhas no monte, vai procurar uma que se tresmalhara, tomando dela tanta compaixão que se digna recebê-la sobre os sagrados ombros e assim reconduzi-la ao rebanho" [36]. O pai da comunidade, que há-de governar as almas, saiba que neste ministério pastoral deve fomentar os bons costumes de muitos [37]; conforme-se e adapte-se a cada um, para dar ajuda certa e concreta de que precisa; seja paciente com todos, não tolerando porém as faltas dos transgressores: odeie a prevaricação, mas, isento de ira e de ódio, ame os próprios filhos sóbria e magnanimamente.
Esta maneira de proceder mostra aos outros, com a autoridade em governar, também a outra face do cargo de superior: referimo-nos à discrição, que é justa medida e equilibrio em tomar as deliberações e decisões, para que não se murmure inutilmente. Assim, os particulares, obedecendo modestamente, não só são ajudados a ultrapassar os limites apertados daquilo que procuram como útil para si naquele momento, mas alargam-se a uma mais alta vista da salvação e da vida social, cooperando por dever de consciência e atingindo aquela liberdade interior, que é necessária, para cada um poder chegar à maturidade sua pessoal.
Estas coisas agora ditas do abade, que desempenha o cargo como sábio dispensador da casa de Deus [38], são o fundamento da paz completa. Paz que está em os irmãos se aceitarem benignamente entre si e se amarem muito uns aos outros, embora haja defeitos inevitáveis e seja completamente diverso o modo como se manifesta a pessoa de cada um.
Esta é a paz que deriva de cada um, humildemente e por dever de consciência, se obrigar com o laço de uma tal sociedade humana, em que a lei do Espírito domina a lei da matéria, onde se encontra instalada uma ordem justa, e onde todas as coisas estão dispostas convenientemente para a realização do Reino de Deus.
S. Bento veio este ano de algum modo visitar-nos de novo, mostrando os modos de conduzir a vida humana, que não fazem senão recordar de perto a doutrina do Evangelho. Isto não nos deve deixar sem curiosidade e descuidados. Especialmente os seus filhos, fiéis aos exemplos e às determinações do pai, são chamados a testemunhar tão excelsa e ao mesmo tempo tão certa e determinada forma de vida. Este testemunho moverá também os simples e os duros de coração, a cujo peito já não descem as palavras. Mas a renovação consequente fará que o mundo revista novo aspecto, mais espiritual, mais sincero e mais humano. Todavia, quem está em posse da autoridade, em qualquer sociedade e grau, é preciso que favoreça mais e mais, e declare o dom da paternidade, que é a única a conseguir congregar os homens com o vínculo fraterno. Porque estes edificarão na paz um mundo melhor e constituirão uma sociedade em que, orando e trabalhando, o homem se torne cooperador e interlocutor do Deus único.
É agradável também recordar, nesta ocasião, que S. Bento foi declarado por Paulo VI, Nosso Predecessor de feliz memória, Patrono da Europa, a qual nasceu, depois da queda do império romano, daquele grande esforço em que participaram em notabilíssima parte ele e os monges, mantendo as instituições de vida. Esta silenciosa, constante e esclarecida obra desses monges fez que o património da cultura antiga se conservasse e fosse transmitido aos povos europeus e a todo o género humano. Assim "o espírito beneditino", como solicitamente dissemos no 1° de Janeiro deste ano, "é totalmente contrário ao espírito de destruição" [39]; e este "pai da Europa" [40] exorta todos os interessados a que promovam activamente os bens que de facto alimentam e nobilitam os espíritos, e ao mesmo tempo a que afastem com todas as forças o que é destruição e subversão destes mesmos bens.
S. Bento como "mensageiro de paz" [41] dirige-se particularmente aos povos da Europa, empenhados salutarmente em conseguir a própria unidade. A convivência pacífica, que deve procurar-se com toda a energia, há-de fundar-se particularmente na justiça, na libertada verdadeira, na compreensão mútua, no auxílio fraterno — coisas estas que são totalmente conformes à disciplina evangélica.
Proteja, pois, e favoreça o Santo os povos deste continente e todos os homens; e com a sua oração afaste as gravíssimas calamidades, que podem trazer armas perigosíssimas e sumamente mortíferas.
Estas ideias agitam o Nosso espírito, ao mesmo tempo que nos dirigimos, com o pensamento e a oração, a este excelso homem, romano e europeu, glória da Igreja.
A vós, por fim, dilectos filhos, e às famílias monásticas que se encontram, a vários títulos, sob a vossa jurisdição, com a melhor das vontades concedemos a Bênção Apostólica, como testemunho da Nossa paternal benevolência.
Dada em Roma, junto de S. Pedro, no dia 11 do mês de Julho, na festa de S. Bento abade, no ano de 1980, segundo do Nosso Pontificado.
IOANNES PAULUS II