São Bento 58

São Bento 58


CARTA APOSTÓLICA

SANCTORUM ALTRIX

DO SUMO PONTÍFICE

JOÃO PAULO II

NO XV CENTENÁRIO

DO NASCIMENTO DE SÃO BENTO

PATRONO DA EUROPA,

MENSAGEIRO DA PAZ


(continuação...)


III

No tempo de S. Bento a comunidade eclesial e a sociedade humana mostravam muitas semelhanças com as condições da vida humana que existem hoje. As perturbações do Estado e a incerteza do futuro, estando iminente a guerra ou tendo já rebentado, originavam males que aterravam os ânimos. Por isto aconteceu que a vida foi julgada desprovida de todo o significado certo e definido.

Dentro da Igreja acalmara-se finalmente a prolongada luta, com que se investigavam apaixonadamente os mistérios de Deus, sobretudo a imperscrutável verdade da divindade do Filho e da Sua autêntica humanidade. Todas estas matérias ressoavam como eco nas palavras, dignas de eterna memória, de Leão Magno, sucessor de S. Pedro e bispo de Roma.

S. Bento, reconhecendo este estado de coisas, pediu a Deus e à tradição viva da Igreja a luz e o caminho que devia seguir. A determinação por ele tomada pode considerar-se como paradigma do dever cristão nas várias alternativas desta peregrinação terrena, embora não existisse um método de vida certo e definido.

Jesus Cristo é o centro vital, absolutamente necessário, a que todas as coisas devem referir-se, para que a estas possa ser dado sentido e elas possam harmonizar-se solidamente. Apelando para a afirmação de S. Cipriano, Bispo de Cartago, Bento afirma com energia e gravidade que absolutamente "nada pode ser anteposto ao amor de Cristo" [19].

Nos homens, porém, e nas coisas, há força e importância na medida em que tudo está ligado com Cristo; portanto a esta luz tudo deve ser considerado e estimado. Todos os que estão no mosteiro — do superior (que é o pai, o abade) até ao hóspede desconhecido e pobre, do doente ao último dos irmãos — significam a presença viva de Cristo. Também as coisas são sinais do amor de Deus para com as criaturas, ou do amor com que o homem é levado para Deus, e até mesmo um instrumento e uma ferramenta para se fazer um trabalho "sejam considerados como vasos sagrados do altar" [20].

S. Bento não propõe alguma vazia consideração teológica, mas partindo da verdade das coisas, segundo o uso, inculca nas almas um modo de pensar e de agir, segundo o qual a teologia é transferida para a prática da vida. Não tem tanto a peito falar das verdades sobre Cristo quanto, partindo do mistério de Cristo e do "Cristocentrismo" dele derivado, viver uma vida bem autêntica.

É necessário que o primeiro lugar, que é atribuído ao modo sobrenatural de sentir as vicissitudes quotidianas, concorde com a verdade da Encarnação: porque, ao homem fiel a Deus, não é lícito esquecer-se do que é humano, deve ser fiel também ao homem. Por isso, o dever para cumprir, de modo vertical como dizem, que se manifesta sobretudo na vida de oração, está devidamente equilibrado se se harmoniza devidamente com o que requer o modo "horizontal", de que a parte mais importante é o trabalho.

Na convivência monástica, portanto, sob a guia daquele que "se crê fazer as vezes de Cristo" [21], S. Bento mostra o caminho que há-de percorrer-se, o qual se distingue por grande uniformidade. Este caminho, que está entre a solidão e a convivência, entre a oração e o trabalho, é necessário que também o leigo do nosso tempo o percorra — ainda que sejam diversos os pesos para atribuir a estas coisas — a fim de poder realizar perfeitamente a sua vocação.



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