São Bento 5

São Bento 5


CARTA ENCÍCLICA

FULGENS RADIATUR

DO SUMO PONTÍFICE

PAPA PIO XII


(Continuação)


I. A FIGURA HISTÓRICA DO PATRIARCA

4. Filho de nobres pais e natural da província de Núrcia,(3) "foi plenificado no seu espírito de todas as virtudes"(4) e defendeu a Igreja, admiravelmente, com sua prudência e virtude. Com efeito, enquanto o mundo se atolava e empobrecia no vício, enquanto a Europa e a Itália pareciam um miserável teatro de guerra e de povos em luta, e até as próprias instituições monásticas, manchadas com o pó da terra não dispunham já daquela porção de vitalidade e energia indispensáveis para resistir com vantagem às insinuações da corrupção, Bento estabeleceu na Igreja, com sua obra e vida, uma corrente perene de juventude, renovando a severidade dos costumes e robustecendo, de leis mais santas e vigorosas, a vida claustral. Mas isto não é tudo. Porque, a peso de trabalho e de esforço seu e seus sequazes, converteu aqueles povos rudes e ferozes, incutindo-lhes hábitos civis e cristãos, convertendo-os para a virtude, o trabalho e para as tranqüilas ocupações da arte e da ciência e unindo-os todos por laços de amor fraterno e caridade.

5. Na flor dos anos ainda, foi enviado a Roma para o estudo das disciplinas liberais.(5) Teve ocasião de ver aí, com imensa tristeza, o pulular das heresias, que arrastavam no vórtice subversivo do erro muitos dos espíritos mais belos; o rebaixamento dos costumes públicos e privados; o atoleiro sensual em que se revolvia a mocidade galante e mundana do seu tempo, de tal modo que se podia dizer, em verdade, da sociedade romana: "Está morrendo e ri. E, por isso, em todas as partes do mundo, às nossas gargalhadas se tem seguido as lágrimas".(6) Ele, porém, prevenido da graça de Deus, "guardou-se do contágio... e, ao ver que muitos se perdiam no sorvedouro do vício, puxou atrás o pé que já havia colocado na entrada do mundo. ...E pondo de lado o estudo das letras, desertando da casa e dos bens paternos, demandou, com o desejo só de agradar a Deus, o hábito da vida perfeita".(7) Rejeitando, pois, os encantos duma vida mundana e fácil, renunciando, e com prazer, à perspectiva aliciante duma posição categorizada, a que, não sem motivos, podia aspirar, deixou Roma e foi-se meter em lugar silvestre e apertado onde, com mais liberdade, se pudesse entregar à contemplação das coisas celestiais. Chegou, assim, ao sítio que se chama Subiaco e recolhendo-se aí em estreita gruta, começou a fazer vida mais de anjo que de homem.

6. "Escondido com Cristo em Deus" (cf. Cl 3, 3), todo se deu, por espaço de três anos, a se treinar na perfeição evangélica a que, por uma quase espécie de divino instinto, era chamado. Fugir das coisas da terra e apetecer somente, com sagrado ardor, as do Céu; levar as noites e os dias, em suaves colóquios com Deus e em efusão de incendiadíssimas preces pela salvação da sua alma e do próximo; coibir e pôr freio aos instintos sensuais com castigos e macerações da carne, tal foi a convenção solene que a si mesmo se impôs. Desse novo modo de vida colhia tamanha suavidade e prazer, que entrou, então, em maior asco dos deleites que anteriormente experimentara nas venturas do século. Acometido, certo dia, pelo inimigo do gênero humano, com furiosa tentação da carne, como de ânimo nobre e ousado que era, lhe resistiu com toda a energia de sua vontade, e, rojando-se entre puas de cardos e urtigas que ali cresciam, com este sedativo voluntário aplacou o ardor libidinoso. Triunfou, por este processo, de si mesmo e mereceu ser confirmado em graça, em prêmio de tão grande virtude. "Daí por diante, como depois contava a seus discípulos, de tal modo ficaram nele subjugados os apetites, que jamais lhes sentiu o mínimo desforço. Liberto, assim, dos apuros da tentação, podia, em verdade, tornar-se mestre de virtudes".(8

7. Nesse refúgio solitário e pacífico, em que por longo tempo viveu, se adestrou Bento na prática da virtude e reformulação dos costumes, lançando com solidez os alicerces sobre os quais havia de erguer, mais tarde, o grandioso edifício da perfeição cristã. E, como sabeis perfeitamente, veneráveis irmãos, toda a obra de apostolado religioso e empresa santa há-de gorar, infalivelmente, se não provier de ânimo dotado daqueles predicados cristãos, únicos que possuem o condão de, com o auxílio da graça, encaminhar os empreendimentos humanos à glória de Deus e à salvação das almas. Dessa verdade estava Bento inteiramente certo e convencido. Pelo que, antes de acometer a realização do grandioso plano a que a divina providência o destinava, todo se empenhou em reproduzir primorosamente em si aquele ideal de vida evangélica de que desejava imbuir os outros, e que perfeitamente alcançou, com aturada oração. 


(Continua...)


Fonte: https://www.vatican.va/content/pius-xii/pt/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_21031947_fulgens-radiatur.html


Report Page