São Bento 10
CARTA ENCÍCLICA
FULGENS RADIATUR
DO SUMO PONTÍFICE
PAPA PIO XII
(Continuação)
18. Isso, porém, não é tudo. A base, a diretriz, por assim dizer, suprema de toda a vida beneditina, é que todo trabalho, seja ele qual for, intelectual ou manual, seja, antes de mais, para o monge veículo que o eleve a Jesus Cristo e centelha que o inflame no seu amor perfeitíssimo. Não podem, com efeito, as coisas da terra, nem do universo, satisfazer as exigências espirituais do homem, que Deus criou para si. Possuem apenas a propriedade, que o mesmo Deus lhes infundiu ao criá-las, de nos elevarem até ele pela escala ascendente das existências. Por essa razão, é absolutamente necessário "que nada se anteponha ao amor de Cristo",(32) "que nada nos seja mais caro que o seu amor",(33) que, numa palavra, "nada absolutamente se anteponha ao amor de Cristo, que se digne conduzir-nos à posse da vida eterna".(34)
19. A este ardentíssimo amor de Jesus Cristo é necessário que corresponda o amor do próximo, porque a todos, indistintamente, devemos o ósculo fraterno da paz e o tributo solícito do nosso arrimo. Donde, enquanto a intriga e o ódio convulsionavam e lançavam os povos nos campos de batalha e, nessa confusão cósmica dos homens e das coisas, erguiam ao alto o facho sangrento da morte, do roubo, da miséria e das lágrimas, Bento legava a seus filhos este preceito santíssimo: "no recebimento dos pobres e viajantes estrangeiros, ponha-se particular cuidado e solicitude, porque é na pessoa destes que principalmente se recebe a Cristo".(35) E "todos os hóspedes que se apresentarem no mosteiro se recebam como se fossem Cristo, porque ele há de dizer: fui hóspede e recebeste-me".(36) E mais ainda: "antes de tudo, haja o maior cuidado no tratamento dos doentes, sirvam-se com tal diligência como se fossem realmente Cristo, porque ele disse: estive doente e me viestes visitar".(37) Tendo rematado, assim, a sua obra, na mais perfeita caridade de Deus e dos homens, e antevendo já com alegria e coroado de méritos a ventura suprema do Paraíso, "ordenou, seis dias antes de morrer, que lhe cavassem a sepultura. E sendo logo tomado de febre, começou a esgotar-se grandemente com o ardor do mal. Crescendo o cansaço, dia a dia, fez-se, no terceiro, conduzir pelos discípulos ao oratório e, armando-se aí da comunhão do corpo e sangue do Senhor, rendeu de pé, sustentado nos braços dos discípulos, a alma a Deus, entre murmúrios de orações".(38)
(Continua...)
Fonte: https://www.vatican.va/content/pius-xii/pt/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_21031947_fulgens-radiatur.html