Superconectores
Gustavo SouzaO desenvolvimento da inteligência interpessoal não dispensa o contato, mas pode se beneficiar da leitura.

Por que eu estou escrevendo esse texto? Produzir algo, após um ciclo de aprendizagem, faz parte do PARA method. No final do dia, acaba sendo uma chance de revisar minhas experiências, sistematizá-las e compartilhar o que considero relevante. Especificamente esse livro me provocou a escrever algo mais detalhado porque acredito que as interações interpessoais não costumam ser alvo de reflexão como precisamos. Caso considere o texto muito longo, sugiro ler o too long; didn't read; apenas.
TL;DR; (1) O livro propõe uma abordagem menos transacional em relações de trabalho. (2) É difícil saber até que ponto isso é verdade, porque parece que os autores se perdem na personagem. (3) A leitura pode ser útil, mas deve ser ativa e incluir uma constante atenção para separar o joio.
1 DESCOBERTA
Entre as minhas leituras, me deparei com um texto chamado Why building community is more important than networking? ou, em PT-BR, "por que construir uma comunidade é mais importante do que fazer networking?". O texto do Sujan Patel tem a intenção de divulgar um livro, enquanto compartilha parte das informações que ele considera relevantes. Para mim, o pressuposto fundamental é o grande acerto: do jeito atual não funciona. Ele compartilha o desconforto que eu tenho diante de interações em ambientes inundados de pessoas potencialmente interessantes.

Existe uma cultura corporativa desconfortável que eu só consigo lidar usando memes de The Office. Iniciar uma conversa com um desconhecido pode ser bastante difícil.
Eu gostaria de ter recebido mais sugestões sobre como interagir com as pessoas nos meus anos de vida. Adoro ouvir histórias das primeiras interações sociais de amigos, especialmente durante a infância, porque acredito que elas compõem o nosso conhecimento empírico e explicam parte das escolhas que são tomadas atualmente.
Acho que a orientação mais frequente na infância é para não falar com estranhos. Dependendo da forma como esse ensinamento se consolida, não é difícil imaginar que pode se converter em problemas na vida adulta porque falar com estranhos é uma necessidade. Enquanto somos crianças e estamos limitados às interações com a família, nossas necessidades básicas costumam ser priorizadas e atendidas sem precisar reconhecer a muitas pessoas. Imagino que a primeira ruptura dessa dinâmica ocorra, para a maioria, na escola. Ai reside a importância da socialização em um ambiente teoricamente controlado e supervisionado por adultos, o que normalmente não ocorre em home schooling.
No decorrer da vida, surgem outras oportunidades de treinar essas habilidades sociais, mas acho que, para mim, elas poderiam ter sido mais frequentes e talvez até mediadas. Recentemente tenho tido contato com textos que afirmam a importância de falar com estranhos e sinto a necessidade de tentar me jogar mais.
A memória de infância mais sólida que tenho sobre interações com estranhos é o meu pai me fazendo ir comprar um salgadinho no final de semana, depois de eu ter dito ido até a frente da venda e voltado porque estava com vergonha de falar com a pessoa que vendia. Eu ainda sinto essa imensa ansiedade em iniciar interações com estranhos. Regra geral, sinto que preciso revisar essas experiências sobre interações interpessoais vez ou outra, como se tivesse 5 anos de idade.
Fora isso, o restante das minhas interações costuma ser fundada em tentativa e erro. Mesmo quando a interações são frutíferas e se convertem em relações com um maior grau de pessoalidade, eu frequentemente guardo alguma memória embaraçosa sobre as primeiras interações com pessoas em particular. Quando as relações se aprofundam a ponto de se tornar uma amizade, eu costumo descrever a situação e me desculpar. Algumas vezes é terrível porque logo que a besteira sai da minha boca, eu ouço e me arrependo instantaneamente.

As mais recentes, eu descobri, que as pessoas não ficaram ofendidas e nem se lembravam do que eu tinha dito - enquanto eu, passei noites remoendo as besteiras que disse em 2017. Pela minha ansiedade em falar com pessoas novas e o sentimento de catástrofe do que digo nas primeiras interações, o texto do Sujan Patel ressoou comigo. Decidi ler Superconnector: Stop Networking and Start Building Business Relationships that Matter na expectativa de encontrar orientações sistematizadas sobre como interagir melhor com as pessoas.
Embora o campo das interações interpessoais não esteja consolidado como uma disciplina escolar, desenvolver redes de solidariedade exige inteligência interpessoal. Nesse sentido, o processo de aprendizagem não dispensa a prática social, mas pode perfeitamente se aproveitar de leituras, anotações e gestão de conteúdos.

2 PROCESSO DE LEITURA
Esse trecho está um pouco aquém da descrição do livro. Na realidade, compartilho como o meus processos de leitura e tomada de notas mudou nos últimos meses. Considero isso positivo. Estou optando por adicionar esse trecho aqui porque esse é o primeiro livro que termino nessa nova dinâmica.
Se esse texto fosse um artigo científico, o processo de leitura seria o equivalente à metodologia adotada na pesquisa.
2.1 Leitura no e-reader
Eu continuo defendendo a importância de livros impressos. Eu acredito que a experiência física com o livro não pode ser substituída, assim como cinema não é teatro. No entanto, livros (1) custam mais dinheiro; (2) tomam espaço; e (3) tem conveniência limitada. Desde o LabDoc, passou a ser necessário ler livros que eu não tenho disponíveis fisicamente e em situações pouco conveninentes. Nesse processo acabei descobrindo que o leitor da Amazon pode ser útil apesar das limitações em relação a bons dispositivos com e-ink - que não posso comprar como o reMarkable.
Isso tem me dispensado de gastar dinheiro que eu não tenho pagando fretes ridículos. Além disso, comecei a fazer algo que nunca achei que fosse fazer: ler vários livros simultaneamente. Essa opção de leitura me permite destacar trechos relevantes e escrever comentários no momento em que estou lendo, sem precisar digitalizá-los posteriomente. Tudo o que preciso fazer é exportar o arquivo de anotações pelo aplicativo para Android em formato .html, dai enviar para o computador.
Obviamente, todo processo toma tempo. Ele não é necessário em leituras para entretenimento.
2.2 How to read a book
Eu ia adicionar um fichamento do livro que ensina como ler livros - mas foi apagada do Shelf. Então, o que eu preciso dizer é que há formas diferentes de leitura e normalmente nós não somos ensinados a ler, para além da alfabetização em si.
Há outros fatores no processo de leitura além de somar as palavras. Um deles é entender que há leituras com objetivos diferentes: (1) entreter, (2) obter informação e (3) entender. Quando lemos algo somente para entretenimento, não é necessariamente preciso tomar notas e levar o processo com muita seriedade. Se a intenção é ler para entender um dado tema, a abordagem é outra e há níveis diferentes de leitura.

Quem já tiver sido surpreendido ao perceber que leu um livro e não consegue mais tercer comentários, sugiro How to Read a Book: The Classic Guide to Intelligent Reading, de Mortimer J. Adler e Charles Van Doren. Caso tenha interesse em um resumo bem simplificado sobre os níveis de leitura: Curious Reader.
2.3 Building a second brain
Esquecer é normal e necessário. No entanto, eu me sinto muito frustrado quando estou conhecendo alguém e sei que já tive contato com uma informação que poderia ser relevante para aquela pessoa - só que não consigo recuperar ela com facilidade.
Um segundo cérebro ajudaria, né? E um sistema de anotações e gestão de conteúdo pode fazer exatamente isso. Essa abordagem me causou certa rejeição no início porque os trabalhos do cara que a desenvolveu se confundem com coaching. Bom, PARA e CODE são coisas que me ajudaram a ter mais organização, então sugiro. Um dos princípios de organização do material coletado é manter apenas o que ressoar em um nível particular (keep only what resonates).
3 RESSOOU COMIGO
As anotações a seguir estão diretamente ligadas ao que me chamou atenção durante a leitura. Elas são o resultado dos destaques, anotações e posterior revisão do caderno de notas. Infelizmente, como a paginação nesses dispositivos é pouco eficaz, eu não vou me dar ao trabalho de fazer referências de acordo com as normas da ABNT. Para fins de propriedade intelectual, direito autoral e direito de citação, simplesmente tenha em mente que meus comentários se relacionam diretamente ao livro Superconnector: Stop Networking and Start Building Business Relationships that Matter.

Para mim, os capítulos iniciais são bem utilizáveis e expressam boas intenções. Os autores pontuam a importância da generosidade e de pensar sobre o que podemos oferecer aos outros (em detrimento do que podemos tomar). Há também a importância de cuidar das pessoas na nossa zona de influência porque em troca, as pessoas cuidam de nós e, atualmente, acredito que esse cuidado difuso é o grande definidor de uma comunidade humana funcional.

Eu editei o sumário para caber numa página e permitir que ele seja analisado. Inclusive, ler o sumário já é uma leitura inspecional. O sumário traz o título dos capítulos e, de certa forma, faz promessas acerca do conteúdo e direciona as nossas expectativas. Se as promessas são atingidas é algo que só podemos avaliar a partir da leitura analítica.

3.1 Conhecer a si próprio
Uma das dicas levantadas pelos autores é construir mais self awareness. Dá para traduzir isso como autoconsciência, mas estou optando por me referir a um comportamento: sem noção. Noção significa conhecer. Pessoas sem noção, ou melhor ainda, nó-cegas, normalmente não conhecem os próprios limites e criam situações irresolúveis. Talvez os comportamentos mais frequentes sejam (1) desconhecer totalmente a existência e importância de uma habilidade. Por exemplo, gerenciar projetos e desmembrá-los em atividades específicas de até 1h de duração para facilitar a execução; (2) Ser displicente em relação aos investimentos que aquela habilidade precisa para crescer e se manter. No meu caso, cito minhas habilidades comunicacionais que vão precisar de tempo para readaptação no período após o distanciamento físico; e (3) superestimar habilidades, como achar que sabe gerenciar dinheiro e acabar se vendo sem nada.
Para os autores, self awareness é um processo com o objetivo de saber no que você é bom e no que não é tão bom.
It means knowing what you’re good at and what you are less than good at. [...] You want to understand the real value you have to offer instead of the value you think you need to deliver. [...] By looking into yourself, you can determine what needs adjustment, what calls for just a little tweaking, and what works in your favor. [...]
Um bom exemplo citado com relevância para interações sociais inclui saber se você é uma pessoa introvertida ou extrovertida. Na minha experiência pessoal, gente extrovertida se sente energizada ao redor de muitas pessoas - eu me sinto sugado e me esforço para tentar ser legal. Me sinto melhor conhecendo poucas pessoas por vez e tendo interações em ambientes mais controlados.
Essa necessidade de maior autoconhecimento normalmente leva as pessoas ao horóscopo. Embora horóscopos possam ser importantes para introduzir pessoas menos experientes às características humanas genéricas, eles costumam não oferecer informações coerentes. Eu havia lido algo que o que nos define é com agimos diante do conflito: "o que você faria se...?". Então, estou deixando uma alternativa mais secular, baseada em resposta a formulários, que pode ser interessante: 16 personalities.
A realidade é que o teste não vai te indicar quais àreas da vida precisam de mais investimentos. Para mim, esse é um processo que só pode ser feito mais racionalmente usando um sistema de anotações, parecido com diário, para tomar nota quando notamos incapacidade de agir satisfatoriamente.
The most successful and least successful people are both givers. How is this possible? The main difference is that the ones on the top have learned to say no sometimes. The ones at the bottom try to do for everybody. They give and give and get nothing in return. That is decidedly not smart. “It’s about being thoughtful about who you help, how you help, and when you help,” says Grant.
Eu já vi isso acontecer
3.2 Participar em comunidades
Acho difícil pensar em "comunidade" sem lembrar do orkut porque foi talvez a primeira vez que tive contato com a palavra. As comunidades do orkut tinham fóruns de discussão e "por que a Hello Kitty não tem boca?" era uma questão nos anos 2000. Mencionar em quais comunidades do orkut se participava era um lubrificante social para conversas, mas eu tive contato com poucas construções relevantes a partir dessa rede. Eu só tinha acesso à internet através de lan house ou na casa de alguém. Não me lembro de ter contato com discussões sobre usos mais responsáveis da internet, letramento digital ou instrumentalização das redes.

Construir comunidades talvez passe por algo similar ao que existia no orkut. No entanto, quero pensar em algo parecido com o que vemos no ensino fundamental ao estudar ecologia: a comunidade sendo algo maior que a mera soma das partes. Nos anos 2000, o mais próximo de construir comunidades com propósitos definidos que tive contato foi a associação de moradores que existia no bairro. Ela se organizava para fechar o tráfego da rua onde moro, pintar o asfalto, pendurar bandeiras nos postes e os moradores assistiam os jogos do Brasil juntos. Isso era divertido. Esse era um engajamento pontual e para ser honesto eu não via outras ações da associação de moradores.
Para os autores, ao construir comunidades, se houver a intenção de aprofundar o engajamento, é importante criar estruturas em torno da comunidade para realizar atividades formais como grupos, eventos e estabelecer canais de comunicação (newsletters e fóruns, por exemplo). Além das estruturas em torno de atividades e comunicação, ao tratar de comunidades definidas por localização física, os autores pontuam que:
Let’s take physical location as an example. Even if you don’t share the same political views with the people in your town, you all pay taxes and live in the same place. This makes you a community, because you all want to live in a stable and happy environment. You have a shared interest: the desire to see your town become the best it can possibly be. If you’re not happy with your town, you can move (or do something to improve it). If you love it, you stay and maybe even double down on your commitment, actions, and effort.
Esse trecho é interessante, mas também problemático. Definitivamente é importante focar na relevância da nossa localidade e realidade material na qual estamos inseridos. Mas presumir que todo mundo que vive na minha comunidade tem um interesse em comum é um pouco demais. A realidade é as pessoas têm interesses frequentemente divergentes e incompatíveis. Há quase sempre a alternativa de se mudar e começar do zero, ou ficar e tentar implementar mudanças.
De maneira similar, ao que ocorria em relação ao orkut, as comunidades das quais participamos podem servir como lubrificante social e uma oportunidade de não precisar falar de si apenas.
Uma análise do sumário e posterior leitura pode demonstrar que os autores têm a intenção de promover uma espécie de protagonismo, como se sugere em The community of you bem como em Staying on top of your network. No entanto, gosto de uma passagem que aponta a possibilidade de entrar em uma comunidade que já existe. Isso me parece positivo porque sugerir (1) menos trabalho em construir uma comunidade do zero; (2) não haver a necessidade de ser o centro das atenções; (3) a possibilidade de construir projetos a partir do que já foi anteriormente feito pela comunidade.
[...]communities provide a foundation for sharing knowledge with people who deeply care about the same topics and issues that you care about. They provide a way to get— and give— feedback, support, introductions, and referrals.[...]But building community is about more than simply gathering people together for a party. It’s about carefully curating the right people to bring together. It’s about— here’s that word again— being selective. [...]No matter what your skill level, you need to work within preestablished groups or communities or through those that are associated with or that run such formal or informal groups in order to eventually build your own. Being a part of other people’s groups— preestablished groups, meet-ups, professional organizations— before creating your own is smart, because you draw your anchors from them. [...] In everything you do, you want to determine the best way to convey your humanity, not de-emphasize it. To show care and value and not to turn communication into a quick one-off, self-promotion, or thoughtless emoji spew.
3.3 Fazer curadoria
Ultimamente eu tenho gostado da ideia de curadoria. Building a second brain, mencionado no item 2.3, é uma forma de curadoria de conhecimento. Normalmente essa palavra é associada ao acervo de museus porque as instituições costumam ter muito patrimônio, mas precisam escolher como e quais itens específicos serão exibidos. Há alguns meses assisti um vídeo (Todo streaming deveria ter curadoria humana, do Max Valarezo, canal Entre Plano) apontando argumentos a favor da curadoria feita por humanos em serviços de streaming e fiquei convencido do quão melhor a experiência poderia ser, em detrimento das sugestões oferecidas pelos algoritmos. Ao falar em curadoria, os autores propõem algo similar ao que já fazemos: selecionar.
“It’s important to consider the five people who are in your inner circle, because they are going to deeply and profoundly influence you [...] Admittedly, the idea of “curating” people the way you would some artifact in the Louvre sounds kind of obnoxious. On the other hand, you have to think about the sorts of people you want to surround yourself with. There is power in association. [...] Are you going to create a life where you eat fast food and work later hours and your family comes second, where you have characters in your life who are not a good influence? Or are you going to surround yourself where health and wellness happen every day and the people around you care about the world and planet?"
Confesso que sinto um desconforto com a ideia de selecionar pessoas e gostaria de explorar mais detalhamente essa ideia de um limite de amigos, que soa meio deprimente, mas, na realidade, faz algum sentido porque recursos, como tempo e atenção, são limitados. Na BBC há uma publicação sobre a Teoria de Dunbar (no InternetArchive) que os autores mencionam precariamente no livro. Essa ideia das 5 pessoas mais íntimas se agrega às camadas sucessivas (5, 15 bons amigos, 50 amigos, 150 contatos, 500 conhecidos e 1500 reconhecíveis). Eu não tenho instrumentos para validar ou questionar a teoria, mas acredito que a BBC foi capaz de oferecer um bom panorama sobre a discussão.
Em 2016 eu tive contato com a ideia de exclusivismo. Basicamente, é um sinônimo para bairrismo. Se você já cruzou com um edital de instituição pública, que teoricamente deveria ser inclusivo, mas estabelece critérios que previlegiam pessoas vindo de um grupo muito específico, você já deve conhecer aquela sensação de rejeição sumária. Na superfície, eu nem estou falando de desigualdades regional, de raça, gênero e classe.
Devido à permanente confusão entre público e privado que existe na sociedade brasileira, acho que ao criar uma comunidade talvez devessemos nos perguntar se aquela comunidade se pretende ao bem público ou ao bem dos membros. Essa reflexão não existe de maneira expressa no livro - cabe salientar que o título do livro se propõem a promover relações de negócio relevantes (business relationships that matter). Negócio é uma atividade voltada ao lucro, à acumulação privada de bens - mas comunidade não. De alguma maneira, o livro se propõem em tirar a culpa de utilizar a comunidade para o lucro.
A curadoria que é proposta tem muito a ver com o que a pessoa enuncia sobre si, mas eu gostaria de chamar atenção a uma outra publicação da BBC que costumo sugerir aos meus amigos. Embora o termo na apareça no texto original, eu gosto de falar em "função social da fofoca" (Internet Archive).
Além disso, o elemento confiança precisa ser bastante endereçado. Embora seja algo fora do nosso controle, eu me deparei com esse jogo que se propõem a entreter, euquanto simulamos ambientes com atores que podemos ou não confiar. Evolução da confiança.
3.4 Promover conexões
Vivendo numa capital com menos de 500.000 habitantes, eu frequetemente sinto que esbarro com os mesmas pessoas e não tem mais gente para conhecer. Nas raras oportunidades em que conheço alguém interessante, fico me perguntando como não havíamos nos esbarrado antes. Isso me faz questionar se o problema realmente seria a cidade e/ou as oportunidades de interação. Mais de 400.000 habitantes ainda é bastante gente considerando a Teoria de Dunbar e que teoricamente não somos capazes de reconhecer nem 4000 pessoas.
O texto do Sujan Patel que me estimulou a ler o livro todo menciona a principal ideia que me interessou: jantar com pessoas novas.
[...]And in New York City, where he lived, that meant… cooking. Yes, he would invite a group of strangers over to his house and have them whip up a meal together. He would buy the ingredients; they would each be paired on a cooking task with someone they never met before. They would then eat together, and the conversation would flow.
Além disso, o livro sugere manter contato com pessoas de quem nos distaciamos.
“dormant tie,”[...]to reconnect with at least one dormant tie each month.[...]
Existe a tese de que conexões fracas são importantes - a ideia parece verossímil. Isso tem sido chamado de "força das ligações fracas".
3.5 Entrar em contato
Os autores se referem a reaching out como a atividade de buscar contato ou alcançar pessoas fora da nossa comunidade. Acredito que eles oferecem informações relevantes e tentei estruturá-las para permitir que seja utilizadas. Pelo menos, se oferece algo mais instrumental sobre como entrar em contato com alguém.
What happens when you, the connector, want to reach out to someone you’ve never met? Is it kosher to reach out of the blue? Yes. But again, there is protocol. There is very much a right way— and a wrong way— to do this. The wrong way is what we all have seen and can’t stand: promotional, self-serving messaging or messages poorly masked as nonpromotional messaging. [...] Start with a catchy subject line. [...] Keep the message short. [...] Your first line should be something about how you can provide value to them. “You should have done your research ahead of time to know what they have going on that you can be of help with,” he says. “The worst thing you could do is ask how I can help because then it forces the other person to think of something that you can help with, and they have no idea who you are.[...]Be transparent with your goals and motives.[...]Give “social proof.”[...]Offer a very specific call to action.[...]
Primeiramente, é importante reconhecer que é legitimo entrar em contato com um estranho, mas para isso, existe um protocolo. Eu diria que existe mais de um protocolo e que a abordagem pode variar de acordo com o contexto cultural.
De início, (1) defina o assunto do e-mail. Mesmo que a pessoa não abra o e-mail, ela definitivamente verá essa informação ao verificar a caixa de entrada. Então, contanto que não vá parar na caixa de spam, o endereçado vai decidir entre abrir ou não a mensagem de e-mail. (2) Mantenha a mensagem pequena. Se tratando de um primeiro contato, a pessoa pode protelar te responder ao imaginar que precisa escrever algo igualmente elaborado. (3) Seja transparente com seus objetivos e metas. (4) Ofereça social proof, algo como validação social. Basicamente, referenciar uma pessoa que conhece esse desconhecido e que tenha te referenciado a ele. (5) Ofereça uma chamada para ação específica o suficiente. Significa dizer exatamente o que a pessoa pode fazer a partir daquele e-mail.
4 DESCONEXOS
Acho que boa parte das sugestões são bastante aplicáveis para a maioria das pessoas. No entanto, não dá para esquecer que o livro foi escrito por dois homens brancos estadunidenses.
Eu comentei anteriormente como falar com estranhos pode ser difícil dependendo da nossa educação. No entanto, falar com estranhos pode passar por vários recortes. Imagina você descobrir que trabalha numa empresa e aceitou um salário que é menor que o do estagiário? Em uma publicação, intitulada Poor in Tech, Meg Elison fala sobre sua experiência trabalhando em uma start up, mas vindo de um posição socialmente menos privilegiada.
I knew I was the only poor person at my tech startup because I was afraid to seek mentorship from anyone above me, convinced that even asking would seem like bothersome begging. I watched the people around me network effortlessly, assured of favors and good words put in. I could only think in terms of what I could offer and how I could survive; they were thinking on the next level where they never had to wonder if they were good enough. They were to the business-class manner born, at least.
Logo no início, os autores mencionam uma iniciativa deles, chamada Young Entrepreneur Council. Eu parei a leitura e fui procurar imediatamente. Esse projeto é referenciado diversas vezes e aparentemente a maior credencial deles para escrever o livro. A iniciativa parecia interessante para a juventude - e eu ainda sou jovem, né? A realidade é que se trata de um clube de empreendedores com negócios que valham mais de US$1.000.000,00 no último ano em que se entra através de convite. Essa é a comunidade de sucesso deles. A curadoria, proposta como uma maneira de evitar mau uso do tempo, nesse caso, se traduz em grande parte à conta bancária.

Boa parte das histórias ilustrativas de interações parecem chacota.
As histórias são absurdas e envolvem ganhar um iPhone novo, ganhar hospedagem melhor num hotel e ganhar um passeio de Porsche com a esposa, no valor de US$950, porque alguém queria ser gentil. A minha empatia morreu em vários trechos do livro.

Essas histórias são frequentes em alguns capítulos e honestamente eu me sentia vendo um episódio de The Office.
Os autores mencionam a importância de escolher as pessoas com quem optamos nos associar. No decorrer dos capítulos, eles mencionam vários autores e empreendedores. Bom, eles associam a imagem deles ao Tim Ferriss.
Sabe quando mencionei a tal função social da fofoca? Semanas antes eu tinha lido um texto chamado 5 time management tricks I learned from years of hating Tim Ferriss. Por um lado, eu particularmente não escreveria uma declaração de ódio tão explicitamente no meu blog contra ninguém. Até porque hoje em dia eu vejo como uma forma de propaganda. Por outro lado, eu entendo que esse cara deva ser bastante irritante e na hora que olhei o nome na página, liguei o Tim a esse post de 2009.
No decorrer do livro, frequentemente o autores falam "oferecer aos outros" e diversas variações dessa ideia. A realidade é que essa reflexão não se mantém. Há uma carga de julgamento que não se fundamenta em uma análise mais consistente. Esse problema gera algumas inconsistências. Basicamente, alimenta a ideia de moral desert.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Embora o texto do Sujan Patel se proponha a falar sobre a construção de comunidades, estou convencido que tive contato com propaganda falsa. O livro Superconnector: Stop Networking and Start Building Business Relationships that Matter, de Ryan Paugh e Scott Gerber não é sobre construir comunidades, mas sobre converter capital social em lucro com menos culpa. A realidade é que eu me deixei enganar e talvez as minhas expectativas tenham sido injustas porque o título, definido pelos autores, fala em "relações de negócio que importam".
Para mim, os primeiros 6 capítulos foram bastante estimulantes. Depois desse ponto, eu vejo que os autores fazem promessas, mas não são capazes de entregar o que se propunham. O capítulo 8, sobre como fazer boas perguntas, foi particularmente decepcionante. Confesso que fiquei um pouco surpreso em notar que havia uma percepção similar nos comentários da loja (link original e internet archive).

Nem sempre a experiência de entrar em contato com estranhos é positiva. Recentemente, eu precisei falar com uma pesquisadora que admiro e pedi para uma colega que tinha trabalhado na mesma instituição para mediar esse contato. Infelizmente, mesmo depois de entrar em contato e a mensagem ser visualizada, quase dois meses depois eu não recebi uma resposta. Eu estou revisitando essa experiência agora e confesso que não estou tão chateado, quando eu ficaria a dois anos atrás, embora tenha sido decepcionante.
Eu adoraria acreditar que iniciar uma interação é algo simples, mas normalmente eu evito fazer isso despretensiosamente para reduzir o risco de ser inconveniente. Quando finalmente busco alguém é porque foi preciso. Esse estado de necessidade é sensível porque significa vulnerabilidade, abertura e uma forma de rejeição através de um possível não concreto.
Tenho sido lembrado frequentemente que não consigo enxergar nem alcançar algumas regiões das minhas costas. Nem o meu próprio corpo eu sou capaz de controle e tomar conta totalmente sozinho. A realidade é que isoladamente não somos capazes de construir muito e durante o processo de escrita a pergunta "você já se coletivizou?" se repetiu várias vezes na minha cabeça porque o modelo de comunidades oferecida pelo livro dificilmente atende às necessidades do nosso mundo.