"Somos suficientemente bons?" por Kropotkin

"Somos suficientemente bons?" por Kropotkin

Felipe Forte
Trechos de uma carta aberta de 1888 escrita pelo filósofo e revolucionário russo Piotr Kropotkin (1842 – 1921) como resposta aos argumentos liberais de sua época


Uma das objeções mais comuns ao Comunismo é que os Homens não são bons o suficiente para viver sob um sistema Comunista. Eles não se submeteriam a um "Comunismo compulsório", mas não estão ainda maduros para um Comunismo livre e Anarquístico. Séculos de educação individualista os tornou muito egoísta. A escravidão, submissão ao mais "forte", e trabalho sob o chicote da necessidade os tornou ineptos para uma sociedade onde todos seriam livres e conheceriam nenhuma compulsão e exceto o que resulta de um engajamento tomado livremente com outros, e suas desaprovações se eles não cumprisse seu papel no engajamento. Portanto, somos ditos, que uma sociedade intermediária é necessária como um passo em direção ao Comunismo.

Velhas palavras em novas formas; palavras ditas e repetidas desde a primeira tentativa em direção a qualquer reforma política ou social, em qualquer sociedade humana. Palavras que escutamos antes da abolição da escravatura; palavras que ditas vinte e quatro séculos atrás por aqueles que gostam demais da sua própria quietude do que mudanças rápidas, cuja audácia do pensamento assusta, e que não sofreram suficiente pelas iniquidades da sociedade presente para sentir a necessidade profunda de novos problemas!

Os Homens não são bons o suficiente para o Comunismo, mas eles são bons o suficiente para o Capitalismo? Se todos os Homens fôssem bem-aventurados, amáveis, e justos, eles jamais explorariam um ao outro, mesmo possuindo os meios para fazê-lo. Com tais Homens, a propriedade privada do Capital não seria um perigo. O capitalista apressaria-se para compartilhar seus lucros com os trabalhadores, e os trabalhadores mais bem-remunerados compartilhariam com aqueles que mais sofrem com causas ocasionais. Se os Homens fôssem providentes, eles não produziriam veludo e artigos de luxo enquanto comida estivesse necessária nas casas: eles não construiríam palácios enquanto tivessem favelas.

Se os Homens tivessem um sentimento profundamente desenvolvido de equidade, eles não oprimiriam outros Homens. Políticos não enganaríam seus eleitores; o Parlamento não seria uma caixa de fofoca e mentira (...). E se os Homens fossem cavalheiros, auto-respeitantes, e menos egoístas, até mesmo um capitalista ruim não seria um perigo; os trabalhadores reduziriam seu papel a um simples camarada-gerente. Até um Rei não seria um perigo, porque as pessoas o considerariam apenas um colega incapaz de fazer um trabalho melhor, e seria portanto confiados a assinar uns papeis estúpidos para mandar para outros pés-no-saco que se chamam Reis.

Mas os Homens não são esses colegas independentes, mentes-abertas, providentes, afetuosos, e compassivos que gostaríamos de vê-los. E precisamente, portanto, eles não deveriam continuar vivendo sob o sistema atual que os permite oprimir e explorar um ao outro. (...)

Somos ditos que somos servis e esnobes demais para ser colocados sob instituições livres; mas dizemos que como somos de fato tão servis que não deveríamos permanecer sob as instituições presentes, que favorecem o desenvolvimento da servidão. (...) E concluímos que numa humanidade já dotada com instintos servis é muito ruim ter as massas forçadamente deprivadas de alta educação e obrigadas a viver sob a atual desigualdade de riqueza, educação e conhecimento. Alta educação e igualdade de condições e tratamento seria o único meio para destruir os instintos servis herdados, e não conseguimos entender como os instintos servis podem ser feitos de argumento para manter, mesmo que para um só dia a mais, a desigualdade de condições; para recusar a igualdade de instrução para todos os membros da comunidade.

Nosso espaço é limitado, mas submeta à mesma análise qualquer aspecto da nossa vida social, e você verá que o atual sistema capitalista autoritário é inapropriado para uma sociedade de Homens tão improvidentes, tão predatório, tão egoísta, e tão servil como eles estão agora. Portanto, quando escutamos os mesmos Homens dizendo que os Anarquistas imaginam os Homens muito melhor do que eles são, nós simplesmente imaginamos como pessoas inteligentes podem repetir essa asneira. Não falamos continuamente que o único meio de tornar o Homem menos predatório e egoísta, menos ganancioso e menos servil ao mesmo tempo, é de eliminar essas condições que favorecem o desenvolvimento do egoísmo, da rapacidade, da servidão e ganância? A única diferença entre nós e aqueles que nos fazem essa objeção é essa: Nós, diferente deles, não exageramos os instintos inferiores das massas, e não fechamos nossos olhos complacentemente para os mesmos instintos inferiores na classe alta. Nós entendemos que ambos os governantes e governados são mimados pela autoridade, ambos exploradores e explorados são arruinados pela exploração; enquanto nossos opositores parecem admitir que tem uma certa "nata" na sociedade – os dirigentes, os empregadores, os "líderes" – que, feliz da vidas, previnem esses Homens "maus" – os dirigidos, os explorados, os liderados – de tornarem-se piores do que eles já estão.

Existe uma diferença, e uma muito importante. Nós admitimos as imperfeições da "natureza humana", mas não fazemos exceções para nossos governantes. Eles fazem, mesmo inconscientemente, e como não fazemos tal exceção, eles nos dizem que somos "utópicos", que não somos "práticos".

Um bate-boca antigo, esse bate-boca entre os "Homens práticos" e os "não práticos", os tão chamados "Utópicos": um bate-boca renovado a cada proposta de mudança, e sempre acabando com a derrota absoluta daqueles que se dizem pessoas "práticas".

Muitos de nós lembramos do bate-boca quando se enfureceu pela América antes da abolição da escravatura. Quando a total emancipação dos Negros foi defendida, as pessoas "práticas" costumavam falar que se os Negros não forem mais obrigados a trabalhar pelos chicotes de seus "donos", eles não trabalhariam nem mais um pouco, e rapidamente se tornariam um "fardo" para a comunidade. Chicotes grossos poderiam ser proibidos, eles disseram, e a grossura do chicote poderia ser progressivamente reduzida pela lei para metade de uma polegada primeiro, depois para uma bagatela de alguns décimos de uma polegada; mas algum tipo de chicote seria mantido. E os abolicionistas diziam – assim como dizemos agora – que o usufruto da produção do próprio trabalho seria uma motivação muito mais poderosa para trabalhar que o chicote mais grosso, 'Nada a ver, meu amigo,' eles foram ditos – assim como somos ditos agora. 'Você não conhece a natureza humana! Anos de escravidão os tornaram improvidentes, preguiçosos e servis, e a natureza humana não pode ser mudada em um dia. Você está cheio de boas intenções, claro, com as melhores intenções, mas vocês são um pouco "impráticos".'

Bem, por um tempo os Homens "práticos" tínham seu próprio jeito de elaborar esquemas para a gradual emancipação dos Negros. Mas, veja só!, os esquemas se mostraram bem impráticos, e a guerra civil – a mais sangrenta registrada – tomou de conta. Mas a guerra resultou na abolição da escravatura, sem nenhum período transitório; – e veja, nenhuma das terríveis consequências previstas pelas pessoas "práticas" aconteceu. Os Negros trabalham, eles são diligentes e esforçados, eles são providentes – providentes até demais, de fato – e o único arrependimento que pode ser expresso é, que o esquema defendido pela "esquerda imprática" – igualdade absoluta e divisão de terras – não foi executada: teria nos salvado muita dor de cabeça.

Mais ou menos na mesma época um bate-boca semelhante surgiu na Rússia, e a causa foi essa. Tínham 20 milhões de servos na Rússia. Por gerações eles estiveram sob o comando, ou melhor sob o chicote, de seus "donos". Eles foram flagelados por arar a terra errado, flagelados pelo desejo de higiene em suas casas, flagelados pela péssima tecelagem de suas roupas, flagelados por casarem mais cedo seus garotos e suas garotas – flagelados por tudo. Servidão, improvidência, eram suas características principais.

Aí vieram os "Utópicos" e pediram nada menos que o seguinte: A completa liberação dos servos; a abolição imediata de qualquer obrigação do servo diante de seu senhor. Mais que isso: abolição imediata da jurisdição do senhor e o abandono de todo o aparato que ele usava para julgar para os tribunais dos camponeses, eleito pelos camponeses e julgando, não de acordo com uma lei que eles não conhecem, mas através de seus costumes não-escritos. Esse era o esquema "imprático" do "campo imprático". Foi tratado como loucura pelas pessoas pessoas "práticas".

Mas felizmente teve um grande lance de "impraticidade" nos ares da Rússia, e foi mantida pela "impraticidade" dos camponeses, que se revoltaram com pedaços de pau contra armas, e se recusaram a se submeter, a despeito dos massacres, e praticaram o estado da mente "imprático" a tal ponto até permitir o "campo imprático" forçar o Tsar a assinar seus esquemas – ainda mutilado até certo ponto. As pessoas mais "práticas" se apressaram a fugir da Rússia, com medo de poucos dias depois eles terem suas gargantas cortadas pela promulgação desse esquema "imprático".

Mas tudo correu bem, apesar das atrocidades cometidas pelas pessoas "práticas". Esses escravos que eram considerados improvidentes e brutos egoístas, mostraram um bom-senso tão grande, uma capacidade de organização tão grande que superaram as expectativas até dos mais "impráticos Utópicos"; e três anos mais tarde após a Emancipação, a fisiognomia dos vilarejos tínham completamente mudado. Os escravos estavam tornando-se Homens!

Os "Utópicos" ganharam a batalha. Eles provaram que eles eram realmente os mais práticos, e que todos aqueles que fingiam ser práticos eram imbecis. E o único arrependimento expresso pelos camponeses é que muitas concessões foram feitas para esses imbecis e egoístas de mente pequena: que o aviso da Esquerda do campo imprático não foi seguida completamente.

Não podemos dar mais exemplos. Mas convidamos aqueles que gostam de pensar por si para estudar a história de qualquer uma das grandes mudanças sociais que ocorreram na humanidade, desde o alçamento das Comunas, até as Reformas do nosso tempo moderno. Eles verão que a história não é nada menos que a luta entre os governantes e governados, os oprimidos e opressores, na qual o campo "prático" sempre se junta aos governantes e opressores, enquanto o campo "imprático" junta-se aos oprimidos; e que eles verão que a luta no final sempre termina na derrota do campo "prático" depois de muito sangue e sofrimento, devido ao que eles chamam de "bom senso prático".

Se, ao dizer que somos impráticos, nossos opositores querem dizer que nós conseguimos enxergar a marcha de eventos muito melhor que os práticos covardes e míopes, então eles estão certos. Mas se eles querem dizer que eles, as pessoas práticas, têm uma melhor visão dos eventos, então os enviamos para a história e perguntamos se eles estão de acordo com seus ensinamentos antes de fazer essa asserção pretensiosa.

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