Sobre a dicotomia das classes econômicas
Felipe Forte
Todo dia é sempre um bom dia para a gente rever nossa práxis revolucionária e entender a causa e consequência das nossas crenças, nossas virtudes e nosso comportamento.
Por questões de transparência, vou falar um pouco de mim. Sou Marxista-Leninista por ideologia e comunista por identidade. Por enquanto me chamo apenas de comunista porque pretendo primeiro ter um domínio satisfatório da obra de Marx e Lênin antes de pular para outros camaradas como Stalin, Mao, Che, Fidel, etc. Minha origem econômica é pequeno-burguesa, ou seja, sou considerado como "classe média" pela terminologia comum, contudo, renuncio a manutenção de um sistema que privilegia uns em cima de outros, mesmo que eu seja um dos privilegiados. Religiosamente, creio em nada que seja fácil definir em palavras, mas sou um estudante e praticante diário da filosofia Zen Budista desde a segunda metade do ano passado.
Por que estou falando isso? Porque como estudante e praticante de todos esses questionamentos filosóficos, era inevitável que eu questionaria inclusive a mim mesmo. Quando eu era mais jovem, eu reproduzia o discurso pequeno-burguês que aprendi com minha família, até me deparar com um professor de História que em vez de me dizer que eu estava errado, ele fez questão de mostrar. Desde então começou uma série de perguntas e buscas que invariavelmente chegaria aos dias de hoje, onde eu produzo esse texto.
Eu não sou importante, mas o que eu vou falar aqui acredito ser de imenso valor para os camaradas, independente da linha teórica. Muitos discursos atualmente reproduzem bastante frases puramente de efeito como "burguês/liberal tem é que se fuder!". É importante ser dito aqui duas coisas: uma, classe média não é burguesia. Burguês de fato é aquele que não trabalha, mas explora o trabalhador para lucro e auto-interesse. Classe média é pequeno-burguesia, aquela que, dentro do sistema, conseguiu condições materiais mais confortáveis que boa parte da classe trabalhadora, mas ainda assim é vítima da escravidão assalariada. E segundo, acredito que os que se intitulam "revolucionários" e insistem em reproduzir esse tipo de discurso precisam ou rever seu título, ou rever seus conceitos. Marx jamais falou em agredir violentamente a pequena-burguesia ou mesmo a burguesia em nome da revolução. Todo trabalho, seja filosófico, político ou econômico eternizado de Marx teve a intenção de libertar a classe trabalhadora da escravidão assalariada. E quando você fala em reproduzir violência contra indivíduos específicos da burguesia, em vez de (contra-)atacar o Sistema que os privilegia, você não está só matando Marx, como o enterrando em uma cova quilométrica.
Se você se educar tanto do trabalho quanto da história de Karl Marx, o grande emancipador da classe trabalhadora, verá por que ele não tinha motivos para incentivar o ataque à membros específicos do sistema, o Sistema em si sempre foi seu alvo. Marx trabalhou durante muito tempo como jornalista, até conhecer um burguês que sustentou o desenvolvimento de sua filosofia e de seu repertório intelectual antes e depois de sua morte, sendo crucial para que a mensagem dele chegasse até a telinha dos nossos celulares nos dias de hoje. Esse burguês era Friedrich Engels, e foi parceiro e camarada político até o fim da vida de ambos.
Levemos em consideração algumas questões, a partir disso:
1. A "classe média" é um mito. A função da divisão da classe trabalhadora entre "classe média" e "classe baixa" é concentrar todas as disputas de classe entre essas duas, alienando-os de sua verdadeira antípoda: a burguesia. Ambas as "classes baixas" e as "classes médias" são escravas assalariadas, a única diferença é que uma tem salários mais altos, muitas vezes por ser mão-de-obra qualificada. A mídia corporativa explora essa divisão para manter a classe trabalhadora desunida.
2. Não existe capitalismo sem sofrimento. Marx não explora muito esse tema, mas cada vez mais fica claro para mim: a maior produção industrial em larga escala de sofrimento do mundo é o capitalismo. Nem digo apenas pelas péssimas condições materiais que vivem a maior parte da população, mas por um sofrimento mais profundo, que desvirtua a consciência humana. A burguesia também sofre, por negar a condição humana de cooperação e empatia em nome do auto-interesse egoísta, o ego, uma fonte de sofrimento.
O sistema em que vivemos aliena o trabalhador de sua humanidade ao negar sua liberdade ao impor a escravidão assalariada. Ao mesmo tempo aliena a classe exploradora de sua própria humanidade também, ao torná-la escrava de sua própria ganância. Devemos ter compaixão com ambos escravos, na tentativa de visualizar uma sociedade mais justa.
Por incrível que pareça o Zen Budismo se assemelha bastante ao Marxismo. Ambas investigações filosóficas preocupam-se com a emancipação dos povos. Os mestres Zen preocupam-se com a libertação da mente e do espírito, enquanto que Marx buscava a libertação material da classe trabalhadora, então, pra mim, são filosofias bastante complementares e dialéticas.
A revolução é, absolutamente, interna. A revolução externa é apenas consequência dessa primeira.
Bons estudos!