Sobre a autolibertação

Sobre a autolibertação

Felipe Forte
O equilíbrio de todas as coisas


A paz interior. Seria a melhor das sensações se ela não fosse exatamente a ausência de sensações. É o estado de uma mente despreocupada com o que ocorre em seu mundo externo. Seja abraçada pelos raios solares de uma clara manhã, ou mergulhada no cinza inerte dos céus fechados de dias chuvosos, você é só fenômeno. Sua mente não pode ser afetada como se fosse a reação de um lago a ser atingido por uma pedra, de ondas tranquilizando-se. Porque não existe pedra, não existe lago, não existe mente. Aquilo que você diz ser você é apenas uma ilusão, uma associação de pensamentos que toma forma própria, e é aí que sua jornada começa.

Porque não é o externo que nos perturba. É o interno que nos engana. Perceba que você, enquanto personalidade, não existe. Tudo que existe é a consciência, e sua identidade é uma barreira para a consciência clara.

Se não acredita, então esqueça dessa conversa conceitual por um momento e imagine-se segurando uma foto de quando você era criança. Você pode não lembrar do evento retratado na foto por ser uma criança muito nova para formar memórias... Então isso quer dizer que você existe antes mesmo do que você lembra?!
Lembre-se agora de uma época da sua vida que você ache constrangedora. Você tem a mesma personalidade dessa época? Se não, quem era você antes? E quem é você hoje? São a mesma pessoa?

Talvez a única certeza que você pode sentir-se segura de carregar é que tudo e nada são transitórios. A nossa melhor previsão científica atualmente é que viemos "do nada", de uma grande explosão repentina que gerou tudo que existe e um dia deixará de existir da mesma forma. Do nada, tudo surgiu, e como tudo é transitório, um dia vira nada. Até que o nada seja transitório e tudo surja novamente.
Você, como tudo, é transitória, então quer você ame sua vida, ou a odeie, quer inclusive queira acabá-la, esteja certa de que ela acabará, de uma forma ou de outra. Por que tanta gente fica com pressa, então, de acabar com a própria vida? Porque estão sendo enganadas pelas suas experiências internas.
Aquela foto sua de criança continua a mesma, mas se você ainda estiver apegada àquela fase da sua vida, com certeza vai sentir uma certa nostalgia ao vê-la. O que mudou foram suas experiências internas. Sua memória, a forma como você interpreta a memória, sua sensação de viver, sua relação consigo e com a natureza das coisas no presente, tudo isso influencia como você reage a uma simples imagem da sua infância. A sensação da lembrança que surgiu em você é uma experiência ou fenômeno interno. A lembrança é também um fenômeno interno. Você, também, é um fenômeno.

Lembre-se, se você não conseguir compreender, liberte-se para esclarecer suas dúvidas.
Taí, você tem as chaves para abrir a porta da sua liberdade. Liberdade, falava Cecília Meireles, é a palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que a explique nem ninguém que não entenda. Nos sonhos, podemos nos sentir presos e alimentar o desejo da liberdade, mas despertos somos livres.

Então acorde.

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