Serviço de segunda

Serviço de segunda

Ryu Taerim

Saí de casa antes da Minju chegar. Mandei uma mensagem rápida dizendo que tinha um compromisso de trabalho, nada demais. Ela ia ler, reclamar mentalmente e vir do mesmo jeito. Eu sabia. Ela sempre vem.


O metrô pro centro tava lotado, todo mundo voltando pra casa e eu indo resolver mais uma merda. Era pra ser rápido — ajustar uma pendência da luta da semana passada. O problema é que o cara achou que podia me enrolar, e eu já tava sem paciência e isso me deixa de mau humor.

A conversa durou menos do que um gole de soju. Um empurra aqui, outro ali, e o babaca achou que podia me acertar. O soco pegou bem no lábio, doeu pra caralho. E aí acabou a boa vontade. Tentei resolver na calma, juro, mas tem gente que só entende quando apanha.

A faca veio do nada, um corte de raspão na cintura. Só o suficiente pra me lembrar que essa vida não tem glamour nenhum, só dor de cabeça e manchas de sangue na roupa. No fim, o cara ficou no chão e eu fui embora com o gosto metálico de raiva e ferrugem na boca.

O metrô de volta tava vazio, e por um momento achei engraçado. Todo mundo dormindo, e eu ali, sangrando e pensando se ainda dava tempo de ser alguém decente. Quando cheguei em casa, a casa estava escura, com um cheiro leve de perfume, comida caseira e paz. Minju tinha chegado. Dormia encolhida, com o cabelo bagunçado e a respiração mansa.

Fui direto pro banheiro. Lavei o rosto, limpei o sangue, passei um curativo rápido e xinguei baixinho o idiota que me fez sair de casa pra isso. Coloquei uma camiseta limpa e fiquei olhando pra mim no espelho. Tinha algo de cômico em tentar parecer normal quando o mundo inteiro parecia podre.

Fui até o quarto e fiquei um tempo parado na porta, só observando. Ela dormia como se o universo inteiro tivesse dado um jeito de se calar pra ela não acordar. Me aproximei devagar, deitei do lado e o colchão afundou sob o peso da minha culpa e da ressaca moral.

O corpo ainda vibrava de adrenalina. Peguei o cigarro que tava no criado-mudo — o mesmo que prometi jogar fora por ela. Fui pra varanda e acendi, traguei devagar, e fiquei observando a fumaça subir enquanto pensava no quanto eu era um idiota. “Desculpa, Minju”, pensei, soltando o ar.

Reparei no carrão estacionado no portão da vila e balancei a cabeça rindo, Jaejoon teria que me explicar aquilo depois.

Meu pensamento voltou direto para Minju, ela não fazia ideia do tipo de noite que eu tinha. E talvez fosse melhor assim

Fiquei acordado até o céu clarear. O cigarro apagou no cinzeiro e ela ainda dormia, serena, como se o mundo não tivesse nenhum problema. E eu ali, sentado na varanda, sentindo o gosto amargo da madrugada e me perguntando quanto tempo mais eu conseguiria viver entre dois mundos sem destruir o único que me fazia querer ficar.

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