São Bento 79
SANTA MACRINA

O período em que Santa Macrina viveu (c. 325-380) foi marcado pela disputa entre diversas correntes de pensamento no cristianismo. Religião perseguida por vários imperadores romanos, especialmente por Diocleciano (284-305), o cristianismo foi aceito a partir de 313 (Edito de Milão), durante o reinado de Constantino (306-337). As grandes questões que ocupavam as almas de então eram a Criação, a natureza de Cristo e sua relação com o Pai e o Espírito Santo. Ou seja: o alicerce do cristianismo, a Santíssima Trindade.
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Macrina era a filha mais velha de dez irmãos. Nasceu na Cesaréia, na Capadócia, outrora um reino independente e província do Império Romano a partir de 14 d.C. Situados em torno do rio Halys — fronteira natural entre a Ásia Menor romana e as regiões interioranas —, o arcebispado de Cesaréia formava, ao lado de Nissa (bispado), uma área fortemente cristianizada a partir de 325. Sua família pertencia a um segmento da aristocracia helenizada da Ásia Menor que prontamente aceitou o cristianismo (TEJA, 1989: 92).
Os avós de Macrina haviam perdido suas propriedades por professarem o cristianismo devido à perseguição do imperador Diocleciano — todo este período no Oriente foi marcado por perseguições aos cristãos.
Sua avó, Macrina, a Velha também foi posteriormente considerada santa. Seus pais, São Basílio, o Idoso e Santa Emélia, também sofreram perseguições religiosas por parte do imperador Galério Máximo (293-311). Apesar de assinar um edito pouco antes de sua morte que garantia tolerância para com a Igreja cristã, Galério foi considerado um urso pelos escritores cristãos, como Eusébio e Lactância, por sua ferocidade contra a fé cristã (BOWDER, s/d: 125-126).
A família de Macrina mudou-se para o Ponto (Pontus), província romana localizada ao norte da Capadócia. Tal como era exigido para um membro da aristocracia, a menina ficou noiva aos doze anos, mas a precoce morte do pretendente a fez recusar obstinadamente qualquer novo compromisso. Apesar de não ter consumado o casamento, Macrina considerava que já havia se casado e decidiu dedicar sua vida à virgindade e à busca da perfeição cristã. Como sinal indicativo de sua nova aliança, usava uma anel pendurado no pescoço que supostamente continha um fragmento da cruz na qual Cristo foi crucificado.
Esta passagem é relevante por delimitar a sua escolha ascética e o anel foi encontrado por Vestiana, viúva de alta reputação que vivia no retiro, no momento em que se preparavam os funerais de Macrina. Ambos, Vestiana e Gregório consideraram o gesto de Macrina em usá-lo como uma grande forma de devoção:
“Veja”, disse [Vestiana], “que tipo de ornamento está pendurado no pescoço da santa!” Enquanto falava, [Vestiana] afrouxou o fecho e depois esticou a mão dela e nos mostrou uma representação da cruz de ferro e um anel do mesmo material.
Ambos estavam fechados por um fino fio e ficavam continuamente no coração.”
“Deixe-nos dividir o tesouro”, eu disse. “Tu tens um estilete da cruz, ficarei contente em herdar o anel”— pois a cruz estava traçada no selo do anel também.
Olhando para isso, a senhora me disse outra vez “— Tu não erraste em escolher este tesouro, pois o anel é largo no aro e foi escondido num pedaço da Cruz da Vida. VM [990 D]
A aspiração pela pureza religiosa no século IV era também perseguida pelos ascetas, os “renunciadores cristãos” que afastavam-se das cidades em direção ao deserto. Lá faziam celas escavadas nas depressões das dunas até atingirem água salobra. Pretendiam assim que suas habitações fossem túmulos, onde o religioso estaria “morto” para o mundo (BROWN, 1990: 186-187).
Um dos principais objetivos destes ascetas era afastarem-se das mulheres e principalmente do desejo sexual. A vida do anacoreta era austera, centrando-se no trabalho manual, nas preces, jejuns e na meditação. A falta de comida era a maior privação enfrentada por eles, pois acreditavam que o maior erro no pecado original fora a gula, que teria levado Adão e Eva a transgredirem as ordens de Deus.
Diminuindo a ingestão de comida, esses homens acreditavam estar purificando seus corpos das paixões e de sua contaminação, pois o cristão perfeito era aquele que podia estar totalmente exposto à toda a comunidade, não tendo vergonha de seus pensamentos ou sonhos. Daí ser tão importante para eles educar o corpo até que os desejos sexuais inconscientes — como a polução noturna — fossem eliminados (BROWN, 1990: 196-197).
Algumas mulheres também experimentaram a religiosidade do deserto, como Alexandra, Maria, a Egípcia, Thaís, Sinclética e as irmãs Menodora e Metrodona. O principal traço das “mães do deserto” era a adoção de trajes masculinos. Na maior parte dos casos sua motivação para a fuga do mundo ocorrera devido a um impedimento no casamento ou por terem tido uma vida que considerassem pecaminosa. Após a morte dessas mulheres sua santidade foi muitas vezes reconhecida e testemunhada em vitae escritas por homens (KING, s/d: Internet).
O caminho de Macrina, porém, é distinto dos ascetas femininos e masculinos do deserto. Ela está ligada à fundação do monasticismo no Oriente, apesar de ter ficado obscurecida pela figura de seus irmãos. Este é o período das origens do monacato primitivo (TEJA, 1989: 82). Três deles são considerados pais da Igreja, por terem agido como defensores do cristianismo niceno contra o arianismo: Basílio de Cesaréia (c. 330-379), Gregório de Nissa e Pedro de Sebasta. Todos se tornaram bispos, sendo também conhecidos como os pais da Capadócia.
Além deles, Naucratius, outro irmão de Macrina, tornou-se ermitão, dedicando sua vida a auxiliar os pobres. Acabou morrendo tragicamente numa expedição de caça ainda bem jovem.
A ela, Gregório dedicou a obra Vida de Macrina, escrita em grego pouco depois da morte da irmã, entre 380 e 383. Nela explicou o papel preponderante que a irmã teve na vida dos irmãos e relatou a trajetória de Macrina rumo à santidade. Foi redigida em forma de carta e dedicada ao monge Olímpio, que o acompanhou no Concílio de Constantinopla em 381.
Após a morte do pai em 340, ano também do nascimento do caçula Pedro, Macrina, com apenas quinze anos, decidiu nunca afastar-se da mãe. Mais tarde, em 352 ambas retiraram-se para uma propriedade da família em Anési, próximo ao rio Íris, no Ponto, e lá formaram um convento com antigas servas, próximo do convento de seu irmão Basílio. Outras propriedades foram vendidas para auxiliar os pobres, e mãe e filha passaram a viver sem luxos, realizando trabalhos manuais e domésticos, seguindo o exemplo do desprezo das riquezas tão característico dos valores ascéticos de então (BLAZQUEZ, 1989: 108): "Macrina persuadiu sua mãe a desistir da vida comum e todo o estilo de vida ostentoso e os serviços domésticos aos quais ela estava acostumada antes, (...) e partilhou a vida das servas, tratando todas as suas escravas e criados como se eles fossem irmãos e pertencessem à mesma condição social que ela". VM [966D]
Levavam uma vida de estrito ascetismo, dedicando-se à meditação sobre as verdades do cristianismo e às orações. Era uma organização de tipo familiar que se prestava costumeiramente a auxiliar os pobres. Este claustro feminino deveria ser um espaço inviolável, longe do espaço profano público, associado ao paganismo (BROWN, 1990: 232).
O convento era considerado essencial para as virgens absorverem a cultura sagrada: através dele as mulheres poderiam ser alfabetizadas. Não só os irmãos de Macrina, mas também amigos da família como Gregório Nazianzeno e Eustáquio de Sebasta estiveram ligados a esta comunidade e foram estimulados a fazer maiores avanços em direção à perfeição cristã.
No contexto da espiritualidade cristã do século IV, Macrina teve papel preponderante. As virgens eram vistas como “único ser humano que permanecido tal como originalmente criado (...) como um deserto em si.” (BROWN, 1990: 226).
O fato de realizar uma vida inteira sem contato com o outro sexo e basear seu conhecimento unicamente nas Escrituras fazia Macrina e outras virgens serem consideradas verdadeiros esteios do cristianismo. Ao contrário dos homens, como os próprios irmãos de Macrina, ligados ainda à cultura pagã e às disputas pelo poder nas cidades (contra os arianos, por exemplo), as virgens, para os bispos, mantinham a pureza original do pensamento cristão.
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Pelo fato de não se casarem e não se tornarem mães, as virgens ascetas eram consideradas próximas de Deus e de Adão, semelhantes à humanidade antes do pecado original e vistas como noivas de Cristo, tendo assim acesso irrestrito ao conhecimento — daí a possibilidade de, através do ascetismo, terem acesso à alfabetização. Por exemplo, Macrina possuía uma excelente bagagem intelectual: sua mãe a ensinara a ler usando as Escrituras e ela conhecia autores cristãos, como Orígenes, além de ler as obras dos irmãos (CORRIGAN, s/d: Internet).
Seu apelido era Tecla, a companheira imaginária de São Paulo e ligada a Sócrates, o que associava Macrina à figura da mulher sábia (ALEXANDRE, s/d: 535), porque asceta, porque virgem. De acordo com Gregório, o apelido secreto da irmã veio durante um sonho da mãe, Emélia, antes do parto:
E alguém com forma e brilho mais esplêndido que um ser humano apareceu (a Emélia) e dirigiu-se à criança que ela estava carregando pelo nome de Thecla, aquela Thecla, eu quero dizer, que é tão famosa entre as virgens. Depois de fazer isto e testemunhar isso três vezes, ele partiu da sua vista e deu a ela um parto fácil, de maneira que, naquele momento, acordou do sono e viu seu sonho realizado. Agora, esse nome era usado apenas em segredo. Mas parece-me que a aparição não fala tanto para guiar a mãe para a escolha certa do nome, mas para prever a vida da jovem criança e para indicar pelo nome que ela deveria seguir o modo de vida do nome. VM [962 C]
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Macrina pôde realizar as aspirações que sua mãe tivera quando jovem. Emélia teria preferido ficar solteira. Ambas tiveram um relacionamento de muita afetuosidade. De acordo com Gregório, a sensação da mãe foi como se sempre tivesse carregado a filha em seu ventre: o tempo estaria imóvel, sinal indicador da santidade vindoura, onde o passado, presente e futuro estavam juntos e pareciam coexistir no útero da mãe (GUREVITCH, 1990: 122).
Um dos desejos de Macrina era que após sua morte ela fosse colocada na tumba ao lado da mãe para que seus corpos ficassem mesclados um com o outro (...) e que seu companheirismo em vida não fosse quebrado na morte” (VM [996 B]).
É importante ressaltar o papel de Macrina e de outras virgens na elaboração de retiros para onde afluíam moças pobres e também viúvas abastadas que decidiam ingressar na vida religiosa. É por exemplo o caso de Vestiana: "uma senhora de nascimento nobre, que tinha sido famosa na juventude pela riqueza, boa família, beleza física e todas as outras distinções. Ela havia se casado com um homem de alta posição e vivido com ele um curto período". VM [988C]
De acordo com Peter Brown, as organizações femininas como as de Macrina baseavam-se em laços de amizade e contavam com grandes grupos de virgens, de cinqüenta a cem, e seu alto contingente era ocasionado também por manterem no convento senhoras ricas que dedicavam seus recursos ao convento e também viviam ali (BROWN: 1990, p. 222).
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Esse texto é um trecho do artigo escrito por Adriana ZIERER e Ricardo da COSTA.
Para ler o artigo completo, acesse: https://www.ricardocosta.com/artigo/vida-de-macrina-santidade-virgindade-e-ascetismo-feminino-cristao-na-asia-menor-do-seculo-iv