São Bento 65
VISITA PASTORAL DO SANTO PADRE
A MONTECASSINO E CASSINO (ITÁLIA)
CONCELEBRAÇÃO LITÚRGICA POR OCASIÃO
DO XV CENTENÁRIO DE SÃO BENTO
HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II
Montecassino, 20 de Setembro de 1980
(Continuação...)
Uma longuíssima e ininterrupta tradição, a mais longa que pode aproximar-se daquela mesma que é a da Igreja, comprovou a nobreza, a beleza e a fecundidade da espiritualidade beneditina. Gloriai-vos dela santamente e continuai, embora com as devidas e cautas adaptações às mudadas circunstâncias actuais, seguindo o sulco traçado pelo Pai antigo e pelos pais da vossa tradição, sem vos deixardes surpreender ou aliciar por tendências para o secularismo, por não razoáveis e não necessárias inovações, por exageradas teorias de pluralismo, que terminam com fazer que vos desvieis da linha do vosso Legislador. Tem sido notado que uma das principais qualidades da Regra é a clareza: todos podem facilmente aprender e saber o que prescreve e recomenda o grande Mestre; só falta, humilde, dócil e alegremente, segui-lo.
Com a bênção de Deus, com o sorriso materno de Maria rainha dos monges, com o patrocínio do vosso Legislador, e com a mensagem da sua palavra interpretada pela sã tradição e traduzida no vosso fiel exemplo, continuai a dizer ainda, hoje e amanhã, a força da fé, o doce dever da oração, o apaixonado amor à liturgia, o benefício da autoridade e da obediência, o culto da leitura divina e de todos os estudos sagrados, a doçura do vosso canto gregoriano, a pronta dedicação ao trabalho da mente e das mãos, a dignidade mesmo na compostura externa das atitudes e no hábito religioso, a alegria da vida em comum e sobretudo a busca sincera da paz e da caridade.
Mes neste singular e consolador encontro com todos os Abades e os Superiores beneditinos, é-me agradável ( parece-me necessário apontar para tudo quanto na mencionada Carta Apostólica já recordei sobre a característica atitude paterna que o vosso Legislador imprime ao governo abacial. Sede superiores, administradores, mestres, mas sobretudo sede pais. Neste "mundo sem pais", como então recordava, deveis oferecer o testemunho em que São Bento pensou ao constituir o seu mosteiro como sociedade familiar, onde há um pai que provê, ensina e principalmente ama os seus monges, os respeita, lhes estima a dignidade pessoal, os faz co-responsáveis das decisões e os segue com afecto que abrange também a ternura do coração materno.
Para vós é norma mais ser amado do que temido (64, 15); e os dois capítulos da Regra que encerram como que o vosso directório (2 e 64), especialmente o admirável capítulo 64, realmente brotado de um peito rico de sabedoria e de amor, são a magna charta que deve reger e inspirar o vosso comportamento. Mas é toda a Regra que fala de vós, para vos inculcar sabedoria, prudência, inflexibilidade contra os vícios, promoção das virtudes, compaixão para com os fracos, e sobretudo aquela discrição romana e cristã que distingue o insigne código e constitui porventura a principal razão da sua difusão e validez. O equilíbrio do abade gera e alimenta o amor recíproco entre o abade e os filhos, e entre irmãos e irmãos. No nosso mundo, onde a falta do amor esvazia os ânimos de valor e alegria, saiba-se e veja-se, pelo vosso generoso sacrifício, que o mosteiro é sociedade de autêntico amor humano e sobrenatural.
Por fim, uma particular saudação desejo dirigir a todos os ramos femininos, alguns dos quais estão aqui também oficialmente representados. À luz e ao odor de virtude de Escolástica, que precisamente aqui repousa junto ao irmão, a vossa puríssima e virginal presença, ó filhas todas de São Bento, alegra e edifica o Povo de Deus. No silêncio do vosso escondimento ou na humildade das vossas obras, vós em particular reproduzis, e deveis aplicar-vos a isso convictamente, a atitude espiritual da virgem Maria, contente com ser escrava do Senhor, totalmente disponível unicamente para a vontade do Pai celeste. Dai flores como o lírio, exalai perfume, lançai preciosos ramos, e para alegria e benefício de todos os irmãos da terra cantai ao Senhor os mais castos louvores, e a Cristo vosso Esposo a exultação da vossa intimidade de amor.
Padres e irmãos, e irmãs todas, alegremo-nos pois com alegria imensa, celebrando a festa em honra de São Bento, de cuja glória exultam os Anjos e os Santos, de cuja doutrina e formação beneficiam nesta terra muitos milhares de almas dentro e fora dos claustros, e a cujo exemplo e patrocínio recorrem a Igreja e o mundo inteiro. Ressoa ainda a sua voz: "A Cristo nada absolutamente antepor". E a mensagem fundamental, e se o seu belo sonho é que todos os membros da família monástica estejam em paz, este sonho será feliz realidade para toda a família humana se no conjunto dela finalmente vier a inserir-se Cristo.