São Bento 60

São Bento 60



CARTA APOSTÓLICA

SANCTORUM ALTRIX

DO SUMO PONTÍFICE

JOÃO PAULO II

NO XV CENTENÁRIO

DO NASCIMENTO DE SÃO BENTO

PATRONO DA EUROPA,

MENSAGEIRO DA PAZ


(continuação...)


V

A face do homem é muitas vezes regada de lágrimas que, não provindo sempre da sincera compunção ou da alegria excessiva, brotam e chegam a levar a alma a orar; muitas vezes, de facto, as lágrimas são derramadas por causa da dor e da perturbação daqueles cuja dignidade humana é desprezada, pois não conseguem obter aquilo que justamente ambicionam nem levar a termo uma obra adequada às próprias necessidades e à própria inteligência.

Também S. Bento vivia numa sociedade civil deformada por injustiças, valendo pouco muitas vezes a pessoa e sendo considerada como coisa: segundo essa organização social, estruturada em várias obras, os miseráveis e os segregados eram tidos no número dos escravos; os pobres tornavam-se mais necessitados; e os ricos cada vez mais ricos. Todavia, aquele homem insigne desejou a comunidade monástica estruturada segundo as prescrições do Evangelho. Restitui o homem à sua integridade, qualquer que fosse a ordem social de que viesse; provê às necessidades particulares segundo as normas da justiça distributiva; marca a cada um ofícios que se completam e entre si se dispõem com nexo apropriado; toma cuidado da enfermidade dos outros, não deixando porém Lugar às tentações da preguiça: concede, pelo contrário, facilidades à diligente acção dos mais dotados, para que não se sintam restringidos, mas antes estimulados a exercitarem as suas melhores forças. Assim tira o pretexto mesmo à leve e às vezes justa murmuração, estabelecendo as condições da verdadeira paz.

O homem para S. Bento não é máquina sem nome, da qual uma pessoa se pode servir com a intenção de tirar dela o maior proveito, mas recusando qualquer aprovação moral ao operário e negando-lhe a justa paga. Deve notar-se que nesse tempo o trabalho costumava ser feito por escravos, que não eram tidos como homens. Mas S. Bento considera o trabalho, quaisquer que sejam os motivos que levem a fazê-lo, como parte essencial da vida, e obriga a ele cada monge para que ao mesmo se aplique por dever de consciência. Este trabalho deve ser tomado como "causa de obediência e de expiação" [29], embora com o esforço verdadeiramente eficaz se juntem a dor e o suor. Esta fadiga alcança porém força redentora purificando o homem do pecado e, além disso, nobilitando quer as coisas que são tratadas com diligência, quer o próprio meio dentro do qual se exerce a actividade.

S. Bento, passando a vida terrena, na qual o trabalho e a oração se harmonizam convenientemente, e inserindo deste modo com felicidade o trabalho na mesma vida que deve ser considerada à luz sobrenatural, ajuda o homem a reconhecer-se cooperador de Deus e a tal se tornar, ao mesmo tempo que a sua pessoa, apoiando-se em certa actividade criadora, é promovida na totalidade. Até a acção humana se torna contemplativa, e a contemplação adquire certo valor dinâmico, tendo a sua importância para a mesma obra e a esta esclarecendo as finalidades propostas.

Não se faz isto, só para evitar a ociosidade, que embota os espíritos, mas também e especialmente para que o homem idóneo, como pessoa recordada dos seus deveres e diligente, se desenvolva com as várias actividades, a fim de que no íntimo da sua alma se venham a descobrir forças, talvez ainda ocultas, que possam dar frutos para o bem comum, "para que em tudo seja Deus glorificado" [30].

O trabalho, portanto, longe de se ver aligeirado com a áspera luta, recebe novo impulso interior. Na verdade, o monge, não apesar de fazer um trabalho, mas precisamente porque o faz, une-se a Deus, porque, "enquanto trabalha com as mãos ou com a mente, ergue-se continuamente para Cristo" [31].

Assim acontece que o trabalho embora vil e insignificante, enriquecido todavia com certa dignidade — seja empreendido e se torne parte vital "daquele sumo desejo, mediante o qual só Deus é buscado, na solidão e no silêncio, para à vida mesma ser atribuída força de oração perene, de sacrifício de louvor, ao mesmo tempo celebrado e consumado, sob a inspiração de uma alegre e fraterna caridade" [32].

A Europa fez-se cristã, porque especialmente os filhos de S. Bento comunicaram aos nossos antepassados uma instrução que abraçava tudo, ensinando-lhes não só as artes e as obras materiais, mas também, especialmente, por terem infundido neles o espírito evangélico, necessário para proteger os tesouros espirituais da pessoa humana. O paganismo, que naquele tempo foi trazido ao Evangelho por numerosos esquadrões de monges missionários, e hoje se propaga cada vez mais no Ocidente, já é causa e efeito daquela perdida maneira de considerar o trabalho e a sua dignidade.

Se Cristo não dá à acção humana alto e perpétuo significado, aquele que trabalha torna-se escravo — precisamente nos nossos tempos do insano esforço que só procura o ganho. Ao contrário, S. Bento afirma a necessidade urgente de manifestar a índole espiritual do trabalho, alargando os limites da operosidade humana, de modo que esta saia daquele intenso exercício das artes técnicas e da busca excessiva da utilidade própria.


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