São Bento 59

São Bento 59



CARTA APOSTÓLICA

SANCTORUM ALTRIX

DO SUMO PONTÍFICE

JOÃO PAULO II

NO XV CENTENÁRIO

DO NASCIMENTO DE SÃO BENTO

PATRONO DA EUROPA,

MENSAGEIRO DA PAZ


(continuação...)


IV

O amor verdadeiro e absoluto a Cristo manifesta-se de modo significativo na oração; que é por assim dizer o eixo à volta do qual rodam a convivência quotidiana e toda a vida beneditina.

Mas o fundamento da oração, em conformidade com uma sentença de S. Bento, está em que alguém ouça a palavra; porque o Verbo encarnado — aqui, hoje, a cada homem na condição presente que não se repete — fala através das Escrituras e do ministério eclesial; coisa que no mosteiro se realiza também por meio das palavras do pai e dos irmãos da comunidade.

Em tal obediência de fé, a palavra de Deus é recebida com humildade e alegria, derivando esta de se reconhecer uma perene novidade, que o tempo não diminui, pelo contrário torna mais viva e de dia para dia mais atraente. E esta palavra torna-se fonte inexausta de oração, porque "o próprio Deus fala à alma, sugerindo-lhe as respostas, que o Seu coração espera. Esta oração é dividida pelos vários períodos do dia e, como veia de água subterrânea, alimenta o trabalho quotidiano" [22].

E pela meditação tranquila e saborosa — que é verdadeira ruminação espiritual — a palavra de Deus excita nas almas dadas à oração aqueles agudos raios de luz, que iluminam o decurso do dia inteiro. Na verdade, esta é a "oração do coração", aquela "breve e pura oração" [23], por meio da qual aos divinos impulsos respondemos, e ao mesmo tempo pedimos ao Senhor que nos conceda o inexaurível dom da sua misericórdia.

Portanto a palavra de Deus, que encerra o profundo mistério da salvação, todos os dias é ouvida amorosamente pela alma e é meditada com solicitude; isto faz-se por certo empenho vital, que se explicita não por ciência humana mas pela sabedoria, que traz em si alguma coisa de divino; isto é, não para que saibamos mais, mas para que, se é lícito assim falar, para que sejamos mais: para falarmos com Deus, para a Ele dirigirmos a Sua mesma palavra, para pensarmos o que Ele pensa, numa palavra, para vivermos a Sua mesma vida.

O fiel, ouvindo a palavra de Deus, é levado a entender o curso das coisas múltiplas e várias como também dos tempos, que o Senhor providente decidiu acontecessem na família humana, de maneira que à alma crente fosse apresentado mais amplo espectáculo da munificência salvífica. Por isso do mesmo modo acontece que as maravilhas de Deus sejam captadas pela fé de olhos abertos e com os ouvidos atentos [24]. A luz deífica da contemplação acende a centelha e quer o silêncio, junto à admiração; e o cântico de exultação e a pronta acção de graças dão àquela oração índole particular, mediante a qual os monges celebram cantando os louvores do Senhor cada dia. Então a oração torna-se quase a voz da criação inteira e toma o lugar do excelso canto da Jerusalém celeste. A palavra de Deus nesta peregrinação terrena faz que toda a vida seja sentida como aberta a Deus que olha, e na oração ao Pai vem a ser dada voz àqueles que agora já não a têm: as alegrias e as ansiedades, os êxitos favoráveis e as esperanças desiludidas, e as expectativas de acontecimento propício ressoam nela de algum modo.

S. Bento é principalmente levado por esta palavra de Deus na sagrada liturgia, não procurando contudo que se torne a comunidade somente uma reunião para celebrar os mistérios divinos com ardor, mas que declare harmoniosamente a comum experiência recebida no Espírito com o canto coral; de facto, tem muito a peito que as disposições íntimas correspondam à palavra de Deus pronunciada e cantada: "a mente esteja de acordo com a palavra" [25]. A Sagrada Escritura, conhecida e apreciada deste modo vital, é lida com gosto, quando ao mesmo tempo há aplicação intensa à oração. Por impulso de amor, a alma recolhe-se muitas vezes diante de Deus; nada é preferido à Obra de Deus [26]; a oração, feita na liturgia, transfere-se para a vida, e a vida mesma torna-se oração. A oração, logo que termina a liturgia, levada como de círculos pequenos a outros maiores, amplifica-se e propaga-se no estado de alma recolhido e silencioso, e por isso acontece que alguém de modo especial ore consigo mesmo e que o hábito da oração penetre as acções e os momentos do dia.

S. Bento, amante da palavra de Deus, lê-a não só na Bíblia sagrada mas também no grande livro que é a natureza. O homem, contemplando a beleza da criatura, comove-se nos recessos mais íntimos do espírito, e é levado a recordar Aquele que é sua fonte e origem; ao mesmo tempo é levado a comportar-se com reverência para com a natureza, a pôr-lhe em evidência a beleza, respeitando-lhe a verdade.

"Onde sopra o silêncio, fala a oração" [27]: na solidão, de facto, a oração aumenta por certa riqueza pessoal; o que deve referir-se não só ao vale inculto do Aniene, onde S. Bento na solidão falava a sós com Deus, mas também à cidade repleta de progressos técnicos mas distractiva para os espíritos, onde o homem da nossa época se vê muitas vezes segregado e entregue a si mesmo. Mas é necessário que a alma se exercite nalgum deserto, a fim de poder levar vida autenticamente espiritual; porque ele previne contra as palavras vazias e torna mais fácil o trato que é necessário ter com Deus, com os homens e com as coisas. No silêncio do deserto, os motivos que se interpõem entre uns e outros, ficam reduzidos àquilo que é principal e primário, acrescentando-se-lhe certa austeridade, enquanto se purifica o coração, enquanto se descobre de novo o hábito da oração quotidiana, que do íntimo do coração se eleva a Deus. Oração que verdadeiramente não é feita com Ele na abundância das palavras mas na pureza do coração inflamado e na compunção das lágrimas [28].


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