São Bento 57

São Bento 57


CARTA APOSTÓLICA

SANCTORUM ALTRIX

DO SUMO PONTÍFICE

JOÃO PAULO II

NO XV CENTENÁRIO

DO NASCIMENTO DE SÃO BENTO

PATRONO DA EUROPA,

MENSAGEIRO DA PAZ


(continuação...)


II

Temos hoje o propósito de chamar a vossa atenção para três coisas fundamentais na vida beneditina: a oração, o trabalho e o exercício paterno da autoridade. Estas três coisas apraz-Nos abraçá-las numa mais ampla perspectiva teológica e humanista — como derivantes da vida e do magistério de Bento, sobretudo da sua Regra —, a fim de poderem considerar-se mais profundamente.

Esta lei de vida é sem dúvida, segundo as palavras deste Santo, "uma Regra mínima de iniciação", mas mais propriamente um compêndio, coerente e abundante, do Evangelho posto em prática com um género de vida não comum. De facto, observando o homem e a sua sorte associada à Redenção, ele propõe alguns capítulos de doutrina, mas especialmente uma forma de vida. E embora tal método seja reservado aos monges — e, para mais, aos monges do século VI —, todavia nele estão contidos e dele tomam brilho os preceitos que dizem também respeito ao nosso tempo e são úteis a todos quantos renasceram no baptismo e são adultos na fé; a todos quantos pela inércia da desobediência se afastaram de Deus e agora pela obediência da fé, nem sempre com facilidade, se esforçam por voltar a Ele [12].

A vida beneditina na Igreja aparece, a maior parte das vezes, como busca plena de Deus, da qual é necessário que de algum modo se distinga o decurso da vida de todo o cristão que tende às "alturas da doutrina e das virtudes" [13], até chegar à pátria celeste. Caminho que S. Bento com ânimo solícito e comovido percorre e respeita, mostrando os não poucos impedimentos que o tornam difícil, e os perigos que parecem fechá-lo e tornar vãos todos os esforços; por conseguinte, o homem é escravo das paixões desenfreadas que o levam, ora a inchar-se com vã presunção e soberba, ora a atemorizar-se com o pavor que enfraquece as forças [14].

Mas este "caminho de vida" [15] pode ser percorrido unicamente sob determinadas condições: na medida em que é amado Cristo sem restrição e é conservada a genuína humildade. Então o cristão, consciente da sua enfermidade e indigência, entra, pela graça de Deus, na vida espiritual; liberta-se das coisas perigosas que o entorpecem, contempla mais claramente a sua natureza autêntica como pessoa e, nas profundidades mais íntimas da alma, descobre Deus presente. Portanto o amor e a humildade unem-se, movendo o homem a que desça, para depois subir mais alto. A nossa vida, de facto, é uma escada, "que pelo coração humilhado o Senhor eleve ao céu" [16].

O modo exterior da vida monástica poderia contudo criar a opinião de a vida beneditina garantir só a utilidade própria do monge que a professa e, por outro lado, de ela facilmente gerar a negligência quanta aos outros; portanto de alhear o espírito da convivência social e dos verdadeiros cuidados a respeito do próximo. Infelizmente a vida, que é vivida dentro das paredes do mosteiro na solidão e no silêncio, é considerada desse modo até por alguns que pertencem à comunidade eclesial.

Pelo contrário, quando o monge recolhe o seu espírito, ou, como disse S. Gregório referindo-se a S. Bento de Núrsia, habita consigo mesmo, e se considera a si diligentemente através da purificação da ascese penitencial, precisamente por isto acontece libertar-se da vontade própria. Mas esta intenção da mente, que uma pessoa dirige para si mesma, é só condição, de todo necessária, para o seu ânimo, com desejo mais verdadeiro, de se abrir para Deus e para os irmãos. Por esta força impulsiva da convivência beneditina acontece que os monges vivam em comunidade e esta se torne sede de hospitalidade.

São Bento percorre este caminho principal, pelo qual dentro dos limites da família monástica se vai para Deus. Mas a vida comum do mosteiro — segundo o seu parecer, lugar singular, em que se dilatam os corações dos habitantes obedientes mas entre si independentes — é movida e incitada por intenso amor do próximo, por meio do qual cada um é levado, esquecendo a própria comodidade, a servir a utilidade do irmão.

O homem, quando se esforça diariamente por que a exigência, que nunca deve ser abandonada, do espírito recolhido e modesto, como também a participação na vida, também esta não sujeita a abandono, sejam em pé de igualdade equilibradas, revigora-se por aquela faculdade em virtude da qual ele é uma pessoa autêntica, tendo relações com os outros, de maneira especial com Deus, que é totalmente diverso.

Deste modo, porém, de avaliar os homens e as coisas sociais, que é próprio de S. Bento e de toda a tradição que dele provém, as relações não são circunscritas só à comunidade monástica. A clausura separa verdadeiramente o homem e o século, e deve constituir, contra toda a dissipação fátua, uma espécie de barreira que não é lícito ultrapassar; mas esta não divide e não separa do amor. Pelo contrário, este limite quase abre o espaço, necessário para uma mais ampla liberdade, onde o monge — e em certo modo todo o homem, preocupado com a sua "pequena clausura" — viva e cresça no amor; onde abra o seu coração aos irmãos, que desejam participar de todas aquelas coisas que ele experimenta na sua união com Deus, e onde felizmente acontece que, como disse sagazmente Paulo VI, a sua sede "seja sempre mais frequentada como casa de paz e de oração, onde os homens se encontrem a si mesmos e Deus dentro deles" [17]; por outras palavras, para que lá se constitua "a escola do serviço do Senhor", isto é "a escola... de virtude e da contemplação que nasce abundantemente das claras e sólidas explicações do Evangelho, da doutrina tradicional e do magistério da Igreja" [18]; ele, quer dizer o monge, estabelece uma relação com todos e cada um, ultrapassando com a oração todo o confim de espaço e termo de tempo. Por todas estas condições, o monge de S. Bento torna-se irmão universal, evangelizador, mensageiro de paz e de amor.



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