São Bento 56
CARTA APOSTÓLICA
SANCTORUM ALTRIX
DO SUMO PONTÍFICE
JOÃO PAULO II
NO XV CENTENÁRIO
DO NASCIMENTO DE SÃO BENTO
PATRONO DA EUROPA,
MENSAGEIRO DA PAZ
Aos dilectos filhos
Vitor Dammertz, Abade Primaz da Ordem de S. Bento;
Tiago Del Rio, Maior da Congregação dos Eremitas Camaldolenses do Monte Corona;
Paulo Anania, Abade-Geral da Congregação Mequitarista de Veneza;
Sigardo Kleiner, Abade-Geral da Ordem Cisterciense;
Ambrósio Southey, Abade-Geral da Ordem dos Cistercienses Reformados (Trapistas):
no XV centenário de S. Bento, Abade.
Dilectos filhos
saúde e Bênção apostólica
Geradora de santos, a Igreja mãe apresenta aos seus filhos, como mestres de vida, aqueles que, por esplêndido exercício de virtudes, seguiram fielmente a Cristo, seu Esposo. Pretende que eles, seguindo-lhes as pegadas, possam chegar à perfeita união com Deus, apesar das variadas distracções do mundo, e possam atingir deste modo o próprio fim. São aqueles homens e aquelas mulheres excelentes que, embora submetidos durante a vida terrena aos especiais condicionalismos do próprio tempo — culturais especialmente — fizeram todavia resplandecer com o modo de viver e a doutrina um aspecto particular do mistério de Cristo, aspecto que, ultrapassando os limites apertados do tempo, ainda hoje conserva a sua força e o seu vigor.
Por isso, celebrando-se agora o XV aniversário do nascimento de S. Bento, apresenta-se a ocasião de escutar de novo a sua mensagem espiritual e social.
I
Em qualquer religião sempre houve quem, "esperando resposta para os enigmas da condição humana" [1], fosse atraído de maneira singular para o Absoluto e para o Eterno. Entre estes, no que diz respeito ao Cristianismo, sobressaem os monges, que já nos séculos III e IV, tinham instituído, nalgumas zonas do Oriente, uma própria forma de vida, tendente a realizar, por inspiração divina e a exemplo de Cristo "orando sobre o monte" [2], ou uma vida solitária e segregada, ou a dar-se ao serviço de Deus na convivência da caridade fraterna.
Do Oriente, por conseguinte, penetrou a disciplina monástica em toda a Igreja e alimentou o salutar propósito de outros que, mantendo as normas da vida religiosa, imitavam o Salvador, "que anunciava às multidões o reino de Deus e trazia os pecadores à conversão" [3].
Quando, devido a este espiritual fermento, a Igreja se tinha já desenvolvido, mas simultaneamente se arruinava a cultura, e o mundo romano envelhecia — pouco antes, de facto, tinha caído o império ocidental —, pelo ano de 480 nascia em Núrsia S. Bento.
"Bendito pela graça e pelo nome, desde o tempo da infância tendo um coração de homem idoso" e "desejando agradar só a Deus" [4], pôs-se à escuta do Senhor, que procurava, o Seu operário [5], e vencendo as hesitações do espírito, nascidas no princípio, percorreu caminhos "duros e ásperos" [6], isto é, enveredou "pelo caminho estreito que conduz à vida" [7].
Levando vida solitária nalguns lugares e purificando-se com a prova da tentação, conseguiu que o seu coração ficasse aberto só para Deus; movido unicamente pelo Seu amor, reuniu outros homens, com quem, como pai, entrasse "na escola do serviço do Senhor" [8]. E assim, unindo ao sentimento do próprio dever a prática esclarecida "dos instrumentos das boas obras" [9], ele e os seus companheiros constituíram uma cidadezinha cristã, "onde finalmente — como disse Paulo VI, Predecessor nosso de recente memória — reinassem o amor, a obediência, a inocência, o ânimo desapegado das coisas do mundo e a arte de usar delas rectamente, o primado do espírito, a paz — numa palavra, o Evangelho" [10].
Praticando assim o que havia de bom na tradição eclesial do Oriente e do Ocidente, o Santo de Núrsia chegou a considerar globalmente o homem, cuja dignidade, como pessoa, inculcou como sem igual.
Quando morreu no ano de 547, já estavam lançados sólidos fundamentos para a disciplina monástica, que, particularmente depois dos sinodos da idade carolingia, se tornou o monaquismo ocidental. Este, por meio das abadias e outras casas beneditinas, difundidas por toda a parte, constituiu a união primitiva e originária da nova Europa: dizemos da Europa, a cujas "gentes, que vivem desde o Mar Mediterrâneo até à Escandinávia, da Irlanda até aos territórios abertos da Polónia, os filhos deste Santo — com a cruz, com o livro e com o arado — levaram a civilização cristã" [11].
(continua...)