São Bento 54

São Bento 54



CARTA ENCÍCLICA

FULGENS RADIATUR

DO SUMO PONTÍFICE

PAPA PIO XII


(Continuação)



28. Mas há ainda mais, que nos adverte e ensina o Patriarca santíssimo, e de que o nosso tempo anda sobremaneira indigente; e vem a ser que, além do culto de adoração e honra que devemos a Deus, o devemos amar com amor de filhos. E como o estado atual deste amor é realmente de miserável decadência e entorpecimento, não admira que os homens, mais preocupados com o que é da terra do que com o que é do céu, desavenham em contendas, donde se originam guerras e ódios implacáveis. De fato, sendo Deus o autor da nossa vida e provindo-nos dele benefícios sem-conta, é dever de todos nós retribuir-lhe com perfeito amor, e consagrar-lhe integralmente tudo o que somos e possuímos. Deste amor divino há de derivar, como de nascente, a caridade fraterna para com todos os homens, independentemente da raça, nacionalidade ou classe, como se realmente fôssemos todos irmãos em Jesus Cristo. De modo que de todos os povos e classes se forme uma única família cristã, que o egoísmo dos interesses individuais não dissolva, mas a mútua conjugação de esforços confirme e solidarize. Se os princípios de que outrora se valeu Bento para reconstituir e morigerar a sociedade caída e conturbada do seu tempo, fossem hoje largamente aplicados, não temos dúvida de que também o nosso século se havia de reerguer do pavoroso naufrágio, indenizar dos danos que sofreu nos homens e nas coisas, curar-se, enfim, dos imensos males de que está prostrado. 

29. Sabeis também, veneráveis irmãos, que o glorioso legislador nos ensina ainda - o que é hoje, afinal, geralmente aceite, mas que nem sempre na prática tem tido a aplicação conveniente - a saber: que o trabalho humano, longe de ser desprovido de dignidade, molesto e odioso, é, pelo contrário, uma fonte de alegria, de felicidade e de nobreza. Uma vida operosa, cheia, como se diz, na lide incessante do campo, da oficina ou do estudo, não deprime o espírito, nobilita-o; não escraviza, dá-nos, pelo contrário, a sensação forte da superioridade, do domínio sobre quanto nos rodeia e em que nos ocupamos. Também Jesus Cristo, adentro das paredes da casa paterna, se dignou trabalhar na oficina de seu pai, santificando, deste modo, com seu divino suor, o esforço do homem. Advirtam, pois, todos os que, para ganhar o pão de cada dia, se entregam a faina rude da oficina ou da fábrica, ao labor da pena ou da cátedra, que é nobilíssima a sua condição, que lhes faculta os cômodos duma vida honrada e contribui para o bem-estar da comunidade civil. Façam-no, todavia, como queria o santo Patriarca Bento, com a mente e o coração elevados para o céu, voluntariamente, amorosamente. Façam-no, ainda quando defendem os seus direitos legítimos, não com pesar do bem alheio, em greves e revoltas, mas com paz, com ordem. Recordem-se da sentença do Senhor: "Comerás o pão no suor do teu rosto" (Gn 3, 19) e pensem que é preceito para todos de expiação e de obediência. 

30. Não esqueçamos nunca, sobretudo, que as coisas materiais e transitórias em que nos ocupamos pelo vigor do nosso espírito ou do nosso braço, devem ser incentivo de adiantarmos, todos os dias, mais um passo na conquista das celestes e permanentes, únicas em que poderemos encontrar a paz verdadeira, a quietação imperturbável, a felicidade eterna. 


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