São Bento 100

São Bento 100


CARTA APOSTÓLICA

Santa Hildegarda de Bingen,

Monja Professa da Ordem de São Bento,

é proclamada Doutora da Igreja universal

BENTO PP. XVI

PARA PERPÉTUA MEMÓRIA


(Continuação...)


5. A antropologia de Hildegarda tem início na página bíblica da criação do homem (Gn 1, 26), feito à imagem e semelhança de Deus. O homem, segundo a cosmologia hildegardiana fundada na Bíblia, encerra todos os elementos do mundo, porque o universo inteiro se resume nele, que é formado da própria matéria da criação. Por isso ele pode de modo consciente entrar em relação com Deus. Isto acontece não por uma visão directa, mas, seguindo a célebre expressão paulina, «como num espelho» (1 Cor 13, 12). A imagem divina no homem consiste na sua racionalidade, estruturada em intelecto e vontade. Graças ao intelecto o homem é capaz de distinguir o bem e o mal, graças à vontade ele é estimulado à acção.

O homem é visto como unidade de corpo e alma. Observa-se na Mística alemã um apreço positivo da corporeidade e, também nos aspectos de fragilidade que o corpo manifesta, ela é capaz de captar um valor providencial: o corpo não é um peso do qual se libertar e, até quando é débil e frágil, «educa» o homem para o sentido da criaturalidade e da humanidade, protegendo-o da suberba e da arrogância. Numa visão Hildegarda contempla as almas dos bem-aventurados do paraíso, que estão à espera de se unirem aos seus corpos. De facto, como para o corpo de Cristo, também os nossos corpos estão orientados para a ressurreição gloriosa, para uma profunda transformação para a vida eterna. A mesma visão de Deus, na qual consiste a vida eterna, não se pode obter de modo definitivo sem o corpo.

O homem existe na forma masculina e feminina. Hildegarda reconhece que nesta estrutura ontológica da condição humana se radica uma relação de reciprocidade e uma substancial igualdade entre homem e mulher. Mas na humanidade habita também o mistério do pecado e ele manifesta-se pela primeira vez na história precisamente nesta relação entre Adão e Eva. Ao contrário de outros autores medievais, que viam a causa da queda na debilidade de Eva, Hildegarda vê-a sobretudo na excessiva paixão de Adão em relação a ela.

Também na sua condição de pecador, o homem continua a ser destinatário do amor de Deus, porque este amor é incondicionado e, depois da queda, assume o rosto da misericórida. Até a punição que Deus inflige ao homem e à mulher faz sobressair o amor misericordioso do Criador. Neste sentido, a descrição mais exacta da criatura humana é a de um ser a caminho, homo viator. Nesta peregrinação rumo à pátria, o homem é chamado a uma luta para poder escolher constantemente o bem e evitar o mal.

A escolha constante do bem produz uma existência virtuosa. O Filho de Deus feito homem é o sujeito de todas as virtudes, por isso a imitação de Cristo consiste precisamente numa existência virtuosa na comunhão com Cristo. A força da virtude deriva do Espírito Santo, infundido nos corações dos crentes, que torna possível um comportamento constantemente virtuoso: é esta a finalidade da existência humana. O homem, deste modo, experimenta a sua perfeição cristiforme.

6. Para poder alcançar esta finalidade, o Senhor doou os sacramentos à sua Igreja. A salvação e a perfeição do homem, de facto, não se realizam só mediante um esforço da vontade, mas através dos dons da graça que Deus concede na Igreja.

A própria Igreja é o primeiro sacramento que Deus coloca no mundo para que comunique aos homens a salvação. Ela, que é a «construção das almas viventes», pode ser justamente considerada como virgem, esposa e mãe e, por conseguinte, é estreitamente assimilada à figura histórica e mística da Mãe de Deus. A Igreja comunica a salvação antes de tudo conservando e anunciando os dois grandes mistérios da Trindade e da Encarnação, que são como os dois «sacramentos primários», depois mediante a administração dos outros sacramentos. O ápice da sacramentalidade da Igreja é a eucaristia. Os sacramentos produzem a santificação dos crentes, a salvação e a purificação dos pecados, a redenção, a caridade e todas as outras virtudes. Mas, mais uma vez, a Igreja vive porque Deus nela manifesta o seu amor intratrinitário, que se revelou em Cristo. O Senhor Jesus é o mediador por excelência. Do seio trinitário ele vem ao encontro do homem e do seio de Maria ele vai ao encontro de Deus: como Filho de Deus é o amor encarnado, como Filho de Maria é o representante da humanidade diante do trono de Deus.

O homem pode chegar até a experimentar Deus. De facto, a relação com ele não se consome unicamente na esfera da racionalidade, mas envolve de modo total a pessoa. Todos os sentidos externos e internos do homem estão interessados na experiência de Deus: «De facto, o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus para que aja mediante os cinco sentidos do seu corpo; graças a eles não se sente separado e é capaz de conhecer, entender e realizar o que deve fazer (...) e exactamente por isso, pelo facto de que o homem é inteligente, conhece as criaturas, e assim através das criaturas e das grandes obras, que com dificuldade consegue entender com os seus cinco sentidos, conhece Deus, aquele Deus que só pode ser visto com os olhos da fé» (Explanatio Symboli Sancti AthanasiiPL 197, 1073). Este caminho experiencial, mais uma vez, encontra a sua plenitude na participação dos sacramentos.

Hildegarda vê também as contradições presentes na vida de cada um dos fiéis e denuncia as situações mais deploráveis. De modo especial, ela ressalta como o individualismo na doutrina e na prática por parte dos leigos assim como dos ministros ordenados seja uma expressão de soberba e constitua o obstáculo principal à missão evangelizadora da Igreja em relação aos não cristãos.

Um dos ápices do magistério de Hildegarda é a exortação urgente a uma vida virtuosa que ela dirige a quem se compromete num estado de consagração. A sua compreensão da vida consagrada é uma verdadeira «metafísica teológica», porque firmemente radicada na virtude teologal da fé, que é a fonte e a constante motivação para se comprometer profundamente na obediência, na pobreza e na castidade. Ao realizar os conselhos evangélicos a pessoa consagrada partilha a experiência de Cristo pobre, casto e obediente e segue os seus passos na existência diária. Isto é o essencial da vida consagrada.

7. A eminente doutrina de Hildegarda faz ressoar o ensinamento dos apóstolos, a literatura patrística e os autores contemporâneos, enquanto encontra na Regola de São Bento de Núrcia um ponto de referência constante. A liturgia monástica e a interiorização da Sagrada Escritura constituem as linhas-guia do seu pensamento, que, concentrando-se no mistério da Encarnação, expressa-se numa profunda unidade de estilo e conteúdo que percorre intimamente todos os seus escritos.

O ensinamento da santa monja beneditina coloca-se como uma guia para o Homo viator. A sua mensagem é extraordinariamente actual no mundo contemporâneo, de modo especial sensível ao conjunto dos valores propostos e vividos por ela. Pensamos, por exemplo, na capacidade carismática e especulativa de Hildegarda, que se apresenta como um incentivo vivaz à pesquisa teológica; na sua reflexão sobre o mistério de Cristo, considerado na sua beleza; no diálogo da Igreja e da teologia com a cultura, a ciência e a arte contemporânea; no ideal de vida consagrada, como possibilidade de realização humana, na valorização da liturgia, como celebração da vida; na ideia de reforma da Igreja, não como estéril mudança das estruturas, mas como conversão do coração; na sua sensibilidade pela natureza, cujas leis devem ser tuteladas e não violadas.

Por isso a atribuição do título de Doutor da Igreja universal a Hildegarda de Bingen tem um grande significado para o mundo de hoje e uma extraordinária importância para as mulheres. Em Hildegarda resultam expressos os valores mais nobres da feminilidade: por isso também a presença da mulher na Igreja e na sociedade é iluminada pela sua figura, tanto na óptica da pesquisa científica como na da acção pastoral. A sua capacidade de falar a quantos estão distantes da fé e da Igreja fazem de Hildegarda uma testemunha credível da nova evangelização.

Em virtude da sua fama de santidade e da sua eminente doutrina, a 6 de Março de 1979 o Senhor Cardeal Joseph Höffner, Arcebispo de Colónia e Presidente da Conferência Episcopal Alemã, juntamente com os Cardeais, Arcebispos e Bispos da mesma Conferência, entre os quais estávamos também Nós como Cardeal Arcebispo de Munique e Frisinga, submeteu ao Beato João Paulo II a Súplica, para que Hildegarda de Bingen fosse declarada Doutora da Igreja universal. Na Súplica, o Em.mo Purpurado ressaltava a ortodoxia da doutrina de Hildegarda, reconhecida no século XII pelo Papa Eugénio III, a sua santidade constantemente sentida e celebrada pelo povo, a importância dos seus tratados. A esta Súplica da Conferência Episcopal Alemã, com os anos juntaram-se outras, primeira de todas a das Monjas do mosteiro de Eibingen, a ela intitulado. Portanto, ao desejo comum do Povo de Deus que Hildegarda fosse oficialmente proclamada santa acrescentou-se o pedido que seja também declarada «Doutora da Igreja universal».

Com o nosso assentimento, portanto, a Congregação para as Causas dos Santos diligentemente preparou uma Positio super Canonizatione et Concessione tituli Doctoris Ecclesiae universalis para a Mística de Bingen. Tratando-se de famosa mestra de teologia, que foi objecto de muitos estudos influentes, concedemos a dispensa de quanto disposto no art. 73 da Constituição Apostólica Pastor bonus. Por conseguinte o caso foi examinado com êxito unanimemente positivo pelos Padres Cardeais e Bispos reunidos na Sessão Plenária de 20 de Março de 2012, sendo Ponente da Causa o Em.mo Card. Angelo Amato, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos. Na Audiência de 10 de Maio de 2012 o mesmo Cardeal Amato informou-Nos pormenorizadamente sobre o status quaestionis e sobre os votos concordes dos Padres da mencionada Sessão Plenária da Congregação para as Causas dos Santos. A 27 de Maio de 2012, Domingo de Pentecostes, tivemos a alegria de comunicar na Praça de São Pedro à multidão dos peregrinos que vieram de todo o mundo a notícia do conferimento do título de Doutora da Igreja universal a Santa Hildegarda de Bingen e a São João de Ávila no início da Assembleia do Sínodo dos Bispos e na vigília do Ano da fé.

Portanto, hoje com a ajuda de Deus e a aprovação de toda a Igreja, isto é realizado. Na praça de São Pedro, na presença de muitos cardeais e prelados da Cúria Romana e da Igreja católica, confirmando o que foi realizado e satisfazendo de boa vontade os desejos dos suplicantes, durante o sacrifício eucarístico pronunciámos estas palavras:

«Nós, acolhendo o desejo de muitos Irmãos no Episcopado e de inúmeros fiéis do mundo inteiro, depois de ter recebido o parecer da Congregação para as Causas dos Santos, depois de ter reflectido longamente e ter alcançado uma plena e segura convicção, com a plenitude da autoridade apostólica declaramos São João de Ávila, sacerdote diocesano, e Santa Hildegarda de Bingen, monja professa da Ordem de São Bento, Doutores da Igreja universal, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo».

Isto decretamos e ordenamos, estabelecendo que esta carta seja e permaneça sempre certa, válida e eficaz, e que produza e obtenha os seus efeitos plenos e íntegros; e assim convenientemente se julgue e se defina; e seja vão e sem fundamento quanto diversamente sobre isto possa ser tentado seja por quem for com qualquer autoridade, cientemente ou por ignorância.

Dado em Roma junto de São Pedro com o selo do Pescador a 7 de Outubro de 2012 oitavo ano do nosso Pontificado.

 

PAPA BENTO XVI


Fonte: https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/apost_letters/documents/hf_ben-xvi_apl_20121007_ildegarda-bingen.html


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