Ressaca
Ryu TaerimVoltar de Bali deveria ter deixado um brilho bom na pele, uma lembrança quente pra enfrentar o inverno de Seul… mas já faz uma semana e eu só sinto a temperatura despencando por dentro e por fora. Lá em Bali era sol, sal no cabelo, risada fácil com a Minju, dias que pareciam durar mais do que vinte e quatro horas. Aqui, a realidade caiu como neve molhada na nuca: fria, pesada, insistente.
Desde que voltei, tudo parece vir em ondas que não me dão tempo de respirar. Apostadores sumindo, gente devendo quantias absurdas, mensagens que começam com “precisamos conversar” e nunca terminam bem. O Kang enfiado no meu cangote dizendo que a boate precisa faturar mais, como se eu tivesse guardado um milagre no bolso. E no meio disso tudo, a pior parte: descobrir que o ex-marido da minha irmã voltou a encher o saco. Perceber que não tô lá pra proteger ela do jeito que eu gostaria dói num lugar que eu nunca senti dor antes.
A conversa com a minha mãe também não ajudou. Ela tentando manter a voz firme enquanto falava das pendências que o meu pai deixou, dos problemas das minhas irmãs. Eu só ficava ouvindo, sentindo uma mistura de culpa e impotência subir pelo peito.
E essa cidade… nevando sem piedade. Eu sempre odiei o inverno. Me deixa mais lento, mais ranzinza, mais vulnerável. É como se cada floco caísse só pra me lembrar que não tem sol pra me salvar dessa vez.
Talvez por isso eu esteja bebendo mais do que deveria. Fumando mais também. Parece que é a única válvula de escape que não me cobra nada. Em outros tempos, antes de Minju, quando eu vivia por minha própria conta e risco, eu teria resolvido tudo da forma mais irresponsável possível: me enfiando em corpos desconhecidos, me perdendo em curvas que não significavam nada, usando gente como anestesia. Mas agora não. Eu namoro a Minju, e eu respeito o tempo dela, o espaço dela. Mesmo quando isso me deixa sozinho demais com meus pensamentos.
E eu sinto o estresse se alojando no meu corpo de um jeito que não dava quando eu era mais novo. Não é só a mente cansada é o corpo reagindo, como se eu estivesse andando com uma mochila cheia de pedras que eu não lembro de ter colocado lá. Ombros tensos. Mandíbula travada. Respiração curta. Como se eu estivesse sempre a um passo de explodir ou desabar.
Às vezes eu fecho os olhos e tento lembrar do sol batendo na pele em Bali, da Minju sorrindo com aquele jeito que faz o mundo inteiro desacelerar. Mas aqui… aqui tudo tá acelerado demais. Frio demais. Cinzento demais.
E eu tô tentando não congelar junto.