Resgatando o "dialético"

Resgatando o "dialético"

Felipe Forte
Infraestrutura e superestrutura. As duas se complementam, mas a infraestrutura, que já foi dominante, hoje perde cada vez mais força com a Internet. A práxis revolucionária nunca foi tão acessível.


Um conceito chave em Marx, apesar de nunca ter sido dele a expressão, é o materialismo dialético. Marx trouxe luz para a "concepção material do mundo", mas o termo "materialismo dialético" não foi criado por ele, mas foi a forma que seus eventuais estudiosos se apropriaram de sua filosofia.

A minha intenção ao escrever este texto é de esclarecer os ânimos de alguns camaradas, e acredito que essa expressão é a maior culpada da confusão que é o entendimento do Marxismo.

Para entender o método dialético e a concepção materialista do mundo, voltemos rapidinho para Hegel, filósofo que Marx estudou profundamente na sua juventude. Hegel deixou-nos a dialética, que é uma forma de conceber as mudanças do mundo. Essa mudança se dá pela contradição de forças opostas presentes no mundo. Hegel, contudo, era puramente idealista, então ele via o mundo como sendo resultado exclusivo das ideias, e a contradição dessas ideias geravam novas ideias, num ciclo de "tese, antítese e síntese" que perpassa gerações e gerações.

Marx vai abandonar o idealismo (junto com a linguagem de tese, antítese e síntese) e vai compreender os acontecimentos físicos — materiais — como sendo também dialéticos. Marx dá uma importância maior para o mundo material, porque ele enxerga o mundo material como sendo dialético, e a mente humana é dialética como consequência da matéria.

Contudo, e este é o motivo de estar escrevendo isso, as ideias também moldam o mundo. Para Marx, tudo que existe encontra-se em dois domínios: o ideal e o material, e estes também estão sujeitos à dialética. O material modifica o ideal, e o ideal molda o material.

O livro "Princípios Fundamentais de Filosofia" de Georges Politzer ilustra isso muito bem:

Cada um sabe, com efeito, que há na realidade, coisa que podemos ver, tocar, medir, e que são chamadas materiais. Por outro lado, há coisas que não podemos ver, nem tocar, nem medir, mas que, nem por isso, deixam de existir, como nossas ideias, nossos sentimentos, nossos desejos, nossas lembranças, etc.; para exprimir que não são materiais, diz-se que são ideais. Dividimos, assim, tudo o que existe, em dois domínios: o mateiral e o ideal. Pode-se, também, dizer, de maneira mais dialética, que o real apresenta um aspecto material e um aspecto ideal. Qualquer um compreende a diferença entre a ideia que o escultor tem da estátua que vai modelar e a própria estátua depois de acabada. Qualquer um compreende também que ninguém espera ter a ideia dessa estátua enquanto não tiver a visto com seus próprios olhos. Contudo as ideias sao transmissíveis por meio da linguagem: assim, alguém poderá ter uma ideia da estátua se o escultor lhe explicar o que pretende fazer. (pg.108)

É por isso que reforço tanto que não devemos separar a Esquerda por meio da linguagem. Não existe esquerda liberal, esquerda cirandeira, esquerda burguesa, esquerda colonizada, etc. É importante que nós, camaradas, delimitemos nosso espaço e redefinamos o conceito de Esquerda: ser de Esquerda implica que você é contra os interesses da burguesia e contra o imperialismo. Se você discorda, vem aqui com a gente, vamos estudar um pouquinho de Lênin, vamos ver aqui o que Marx escreveu.

Insisto para que nós camaradas tenhamos essa definição de Esquerda em mente para que ela se dissemine, se multiplique e redefina o discurso da Esquerda em todos os espaços, físicos, redes sociais e afins.

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