O motorista idoso

O motorista idoso

Emanuel Lopes

Dirigir é uma atividade prazerosa para muitas pessoas e para outras se torna até mesmo um Hobbie, porém para o idoso pode ter um significado maior ainda. 

Esse ato é, muitas vezes, uma afirmação para ele mesmo de sua independência, autonomia, habilidade e pode ter grande importância social. Muitos idosos que são forçados a parar de dirigir diminuem sua atividade social e frequentemente tornam-se deprimidos. Mas afinal, qual é a hora de parar? Vamos entender juntos!


No Brasil em 1950, a população de indivíduos com idade igual ou superior a 60 anos era 4,7%, elevando-se para 7,8% em 2000 e com estimativa para 23,6% em 2050. Nesse cenário a grande missão da gerontologia e áreas relacionadas a ela é o envelhecimento bem-sucedido, que procura impactar o indivíduo tornando mais baixa a probabilidade de doenças e incapacidade funcional, estimulando a alta capacidade física e cognitiva, e engajamento na vida ativa, conceito ao qual o ato de dirigir está diretamente relacionado.

Ocorre que, com o envelhecimento, uma série de fatores fisiológicos e patológicos surgirão e influenciarão diversas habilidades que antes eram facilmente acessadas.

A resposta não é tão simples nem definitiva, visto o envolvimento de vários elementos nessa decisão. Um ponto importante aqui é: A idade, simplesmente, não é um parâmetro válido, e sim as deficiências que o idoso pode apresentar e que comprometem as competências necessárias para uma direção defensiva & segura por exemplo.

Podemos considerar 3 pontos importantíssimos para uma condução segura: a visão, a motricidade e a cognição.

Os aspectos da visão que são importantes para uma direção segura são a acuidade visual e o campo visual, mas também podem ter influência a sensibilidade do contraste, a acomodação visual e a reação ao ofuscamento. Idosos necessitam de três vezes mais contraste para diferenciar um objeto de um plano de fundo, têm lentificação na adaptação do ambiente claro para o escuro e vice-versa, e também apresentam uma reação exacerbada ao ofuscamento. 

Além das alterações próprias do envelhecimento, o prejuízo dessas funções pode ser agravado por doenças, como a catarata, a degeneração macular senil, o glaucoma e o diabetes melito. Enquanto o comprometimento visual para longe prejudica muitas tarefas ao dirigir, para perto pode dificultar a visão de instrumentos internos do veículo.

O ato de dirigir é uma atividade física que requer habilidades motoras como força muscular e resistência. Especialmente doenças reumatológicas (que restringem a mobilidade do pescoço, dos joelhos e dos punhos) e neurológicas (que geram fraqueza, espasticidade e rigidez), prejudicam o campo visual e a funcionalidade motora, determinando assim uma direção insegura.

Entre as diversas habilidades necessárias para dirigir encontram-se as funções cognitivas, como a memória, a percepção, a habilidade visuoespacial, a atenção e a habilidade executiva, que estão prejudicadas por exemplo nas demências, comprometendo diretamente a segurança.

Como o ato de dirigir tem um significado especial para o idoso, muitos ainda o fazem; portanto em uma consulta de rotina, sempre deve ser perguntado na anamnese: o(a) senhor(a) ainda dirige? Se a resposta for afirmativa, fatores essenciais devem ser avaliados, como: condições de visão; motricidade; cognição; doenças sistêmicas; alcoolismo; e uso de medicamentos. 

São necessárias tanto a avaliação oftalmológica periódica quanto a revisão detalhada de enfermidades que potencialmente podem comprometer a segurança ao dirigir, como doenças neurológicas, musculoesqueléticas, cardiovasculares, endócrinas, entre outras.

Após avaliação abrangente, algumas deficiências podem ser compensadas com medidas alternativas como: tratar a doença de base, levando à cura ou à melhora parcial; dirigir em curtas distâncias; parar mais frequentemente em viagens longas; dirigir menos à noite; evitar horários de maior trânsito; evitar dirigir em condições de tempo ruim; adaptar os veículos; e treinar os motoristas.

Um outro tópico importante é o questionamento da permissão para dirigir em idosos já demenciados, assunto que será tratado de forma exclusiva em um futuro post.

Vimos, portanto, que a idade cronológica não é fator determinante para impedir o idoso de dirigir mas que sim a redução ou perda de habilidades necessárias para tal são fatores determinantes.

Gerontólogo Emanuel Lopes / ABG6602020

O Conteúdo foi inspirado e partes foram extraídas do livro Neuropsiquiatria Geriatrica 📚


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