O COMEÇO DO FIM.
Jake DewesO cheiro metálico de ferrugem e podridão impregnava o ar da antiga fábrica de processamento de carne. O lugar parecia vivo, respirando decadência — cada gotejamento de água pelos canos corroídos soava como um relógio de contagem regressiva. Jake Dewes avançava em silêncio, as botas afundando em poças de óleo e sangue seco. Ele sabia que estava perto. Sentia.
No subsolo, o horror se revelou. Celas translúcidas de energia azulada abrigavam dezenas de mutantes. Alguns adultos, marcados por cicatrizes; outros, crianças, com os olhos arregalados de medo. Era uma coleção de vidas roubadas, de sonhos quebrados.
Jake prendeu a respiração por um instante, engolindo o nó que se formava em sua garganta.
Então, uma voz gelada se ergueu das sombras:
— Que bonito. Um garoto brincando de herói.
Doutor Silas Thorne emergiu, a luz fraca revelando o sorriso venenoso que não tocava os olhos. Dois brutamontes armados o seguiam.
— Sempre os filhos pagando pelos pecados dos pais. Sua mãe arruinou anos de trabalho. Agora… o pequeno corvo vem repetir a história.
Jake não respondeu. O silêncio foi sua arma. Atacou rápido, certeiro — um chute lateral que derrubou o primeiro capanga, uma chave de braço que desmontou o segundo. Mas Thorne, com calma cirúrgica, acionou o painel de contenção. Jake foi atingido por uma onda de energia que colou seus pés ao chão e queimou cada músculo do corpo.
Ele grunhiu, cambaleando, mas não caiu. Apertou os dentes até o gosto de ferro do próprio sangue invadir sua boca. Com um esforço sobrehumano, forçou a mão contra o painel, despedaçando-o. As celas explodiram em faíscas.
— Corram! — rugiu.
Os mutantes dispararam, tropeçando uns nos outros, arrastando crianças pelos braços.
Thorne, descontrolado, bateu a mão em outro painel. Alarmes ecoaram pelo complexo. As paredes tremeram.
— Se eu perder meus espécimes, não restará nada para você também, garoto! —
O chão estremeceu, rachaduras se abrindo sob seus pés. Canos estouraram, jorrando vapor e fumaça quente. O teto começou a ceder, pedaços de concreto despencando como meteoros.
Jake correu até o centro da sala. Foi então que sentiu. O poder latente que há meses queimava em seu sangue agora rugia, selvagem, como se esperasse apenas por aquele momento. O ferro retorcido vibrava em resposta à sua presença, como se o reconhecesse.
Ele ergueu os braços.
As vigas suspensas congelaram no ar. Os destroços que despencavam pararam a centímetros dos sobreviventes. Trilhos enferrujados tremiam como se quisessem se curvar diante dele. O magnetismo pulsava no ar, eletrizando cada molécula.
Jake estava de joelhos, mas ainda assim segurava tudo. O suor escorria em rios pelo rosto, misturado ao sangue que pingava de uma ferida na testa. O nariz também começou a escorrer por causa do esforço que fazia, já que não estava acostumado ainda com a utilização de tanto poder - eles evoluíram mais rápido do que seu corpo podia se adaptar. Seus olhos brilharam com um reflexo metálico, intensos, quase inumanos.
— VÃO! — berrou, a voz ecoando pela fábrica como um trovão.
Os últimos mutantes passaram pela abertura. Crianças choravam, algumas puxadas às pressas, olhando para trás uma última vez.
Jake continuava ali, braços estendidos, o peso de toneladas sustentado apenas por sua vontade. Cada fibra do corpo gritava em agonia. O sangue escorria pelo nariz, pingando no chão rachado.
Do lado de fora, todos ouviram o rugido final da estrutura cedendo. O portão caiu, selando a saída. A poeira subiu como um manto cinzento, escondendo o que restava.
No meio do silêncio sufocante, apenas uma voz se ergueu. Uma garotinha, com os olhos ainda molhados de lágrimas, puxou o braço da mãe e sussurrou:
— Ele ficou… pra segurar tudo.
E ninguém respondeu. Não havia o que dizer. Apenas o vento que carregava a poeira e o eco distante de ferro sendo esmagado.
Jake Dewes não foi visto de novo. Eles precisavam correr dali antes que chegasse o apoio de quem conduzia aquela operação maldita, e acabassem sendo presos de novo em uma outra unidade ou até mesmo algo pior pudesse acontecer. Jake não os julgaria por essa decisão, principalmente porque esse era o objetivo dele o tempo todo: que eles saíssem dali em segurança sem correr o risco de serem pegos novamente. Principalmente as crianças, que eram maioria naquele lugar. A sua missão havia sido cumprida.