Nietzsche, filósofo da cultura

Nietzsche, filósofo da cultura

Ivo da Silva Júnior


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“A todo o sistema de educação superior na Alemanha falta hoje o principal: o fim e os meios para o fim”, assevera Nietzsche no Crepúsculo dos Ídolos. E acrescenta: “Esqueceu-se que a educação, a cultura, é o fim – e não o Império –, e que para tal fim é necessário o educador – e não o professor ginasial e os eruditos da universidade”. Esse fim – a cultura – é a questão central da filosofia de Nietzsche. 

Mas o que é cultura para o filósofo? Por cultura ele entende a busca por uma fusão harmoniosa do físico, do psíquico e do intelectual no conjunto da vida, pela plenitude num mesmo homem da elevação espiritual, do refinamento emocional e da perfeição mental e moral. Considera que essa totalidade harmoniosa é para poucos, não podendo ser universalizada. Posição, sem sombra de dúvida, aristocrática. 

Somente o educador, e não o “professor ginasial” ou o “erudito da universidade”, pode formar este homem pleno. Mas na Alemanha falta esse educador (“os meios”) e falta a percepção da necessidade da cultura (“o fim”). Falta essa que é preenchida por uma “falsa” cultura, a filisteia, cujo fim é o Estado. 

E o que é a cultura filisteia? Nietzsche a entende como sendo o ensino geral e profissionalizante para todos, a cultura jornalística e a opinião pública, todo modo de vida que se coloca a serviço do Estado, em detrimento de uma plena formação pessoal. Posições estas, grosso modo, dos capitalistas e dos socialistas, desses modernos que defendem o progresso econômico ou o social. 

Todo empreendimento filosófico de Nietzsche tem por alvo reverter este quadro cultural imperante na Alemanha. A partir de uma posição claramente aristocrática, visa a atacar a cultura filisteia que então domina. 

Em defesa da autêntica cultura alemã, surge o primeiro livro do filósofo, O Nascimento da Tragédia (1872). Longe de ser uma obra de cunho estético, este escrito tem por objetivo trazer à luz, por meio do drama wagneriano, que atualizaria a tragédia grega, meios de deter a destruição da cultura que vinha sendo patrocinada por aqueles que têm o Estado como fim. Aposta assim no reencontro da “alma alemã” para salvar a cultura. 

E qual é a importância da tragédia grega para essa renovação cultural? Contra a degradação de uma cultura aristocrática numa moderna, da autêntica cultura alemã numa cultura filisteia, Nietzsche ressalta o supremo valor da estética grega antiga. Aliás, os alemães havia tempos acreditavam que, ao apreciar a grandiosa arte grega, poderiam ter seus valores morais e políticos melhorados. E isso graças à interpretação neoclássica dada aos gregos, que neles viam uma serenidade imperturbada e imperturbável. 

Nietzsche considera equivocada essa posição, pois, em vez de contribuir para uma cultura aristocrática, colabora para fortalecer a cultura moderna. Considera que essa interpretação dos gregos concerne apenas a um aspecto da realidade, o apolíneo – que tem por modelo a escultura. Desse aspecto viriam as bases da cultura filisteia. Nietzsche vai então ressaltar outro aspecto grego da realidade, mais profundo e nada extático, o dionisíaco – que tem por modelo a música e a tragédia. Esse outro aspecto contrapor-se-ia ao status quo cultural. 

É nessa mesma direção que Nietzsche escreve suas quatro Considerações Extemporâneas (1873-1876). Nelas, critica David Strauss, um filisteu da cultura de primeira grandeza; ataca a filosofia da história, que, involuntariamente, justifica a cultura filisteia; no entanto, faz elogios a Wagner, um novo Ésquilo, que por meio de seus dramas reintroduzirá o dionisíaco; elogia Schopenhauer, um novo educador, que trouxe de volta a Antiguidade mais vigorosa. 

Contudo, esse embate de Nietzsche com seu tempo sofre uma inflexão. A partir de Humano, Demasiado Humano (1878), os pressupostos mesmos de sua crítica à cultura filisteia vão começar a ser colocados sob suspeita. Qual a razão para Nietzsche considerar que não é mais eficiente opor o pessimismo dionisíaco ao otimismo socrático? Os motivos são simples: as condições históricas mudaram. 

Se antes o pano de fundo era, de um lado, a Comuna de Paris, que trazia os perigos das “ideias modernas” (liberdade, igualdade, justiça etc.) e os riscos da revolução socialista, e, de outro, a guerra franco-prussiana, que colocava em xeque a “alma alemã”, e, por extensão, a cultura, agora, com a vitória alemã na guerra franco-prussiana, o cenário se altera. 

Nietzsche se vê decepcionado com os desdobramentos dessa vitória. Em vez de a “alma alemã” ter sido reencontrada na nova nação, em vez de a verdadeira cultura reencontrar o seu lugar, a Alemanha demonstra ter pedido sua “alma” em favor dos tempos modernos. O nacionalismo, que proporcionaria o advento de uma cultura alemã vigorosa, reforça tudo aquilo que o filósofo mais rechaça: o progresso, uma nova educação para formar técnicos capazes para trabalhar nas indústrias, uma educação para todos, o movimento feminista, o partido do trabalhador etc., em suma, um mundo em que o povo é protagonista e a cultura, dele decorrente, expressão da mediocridade. Mais ainda: o nacionalismo alemão traz a ameaça de outros conflitos no seio da Europa, podendo com isso erradicar de vez a aristocracia que ainda resta. Da busca por uma “alma alemã” não decorreu, como esperava, a verdadeira cultura. Muito pelo contrário: foi a cultura filisteia que venceu. 

Essa nova realidade passa a exigir novas posições filosóficas; as antinomias regeneração “trágica” e modernidade, verdadeira cultura e cultura filisteia, que davam o tom do conflito franco-alemão, necessitam de outros posicionamentos. 

Se a visão trágica do mundo, na perspectiva dionisíaca, traria de volta a autêntica cultura alemã, agora esse papel será entregue às Luzes, em particular àquela vertente de Voltaire. Contra toda superstição e fanatismo moral, contra o nacionalismo e a favor de uma Europa una, Nietzsche escreve Humano, Demasiado Humano, Aurora(1881) e as quatro primeiras partes da Gaia Ciência (1882). Começa assim a investigar os sentimentos morais, mostrando que eles são efêmeros e não eternos, que não há bondade original no homem como querem os socialistas ou Rousseau, isto é, quer investigar esta moral que está na base da modernidade e que atenta contra a verdadeira cultura. 

No entanto, esta via não rende os frutos desejados. As armas iluministas são insuficientes, o que fica evidente com a publicação da quinta parte da Gaia Ciência (1886). A ciência, a razão e a história trazem de volta a mesma tríade socrático-cristão-socialista de que o filósofo procura se desvencilhar. 

Há, então, um novo influxo nas posições filosóficas de Nietzsche. Com o rompimento radical que vem com o anúncio da morte de Deus, o filósofo consegue se apartar definitivamente do modo de operar daquela tríade. 

Encontrada a melhor via para realizar uma crítica radical do mundo moderno, Nietzsche elabora todas as suas teses filosóficas em Assim Falava Zaratustra (1883-1885): anuncia o além do homem, aquele que trará um novo sentido para a Terra ao ultrapassar o velho conceito de “homem” e “humanidade”; descreve o mundo como vontade de potência, como luta permanente em que se visa sempre mais, em que se procura dominar, resultando daí todas as configurações existentes, das naturais às sociais; formula o eterno retorno do mesmo, em que traz os meios para ir para além do niilismo introduzido pela modernidade; propõe a transvaloração dos valores, como meio de alterar pela base os valores que fomentaram a tríade socrático-cristão-socialista. Com essas teses, ele pode aprofundar sua crítica, pois encontra um solo onde assentá-la. E é exatamente o que ocorre em seus escritos posteriores. 

A partir de Para Além de Bem e Mal (1886) e da Genealogia da Moral (1887), Nietzsche instaura o procedimento genealógico. A investigação da moral se radicaliza com a pergunta pelo valor dos valores morais. Justiça, igualdade, liberdade etc.: qual o valor desses valores reivindicados por Sócrates, pelo cristianismo e pelos revolucionários? Estes não se colocariam numa posição de ressentidos perante o segmento que os domina? O caráter mutante e horripilante do mundo – já entrevisto no dionisíaco – ganha nova formulação com a vontade de potência. Não existe, portanto, um mundo de permanência e harmonia expresso pelos valores que os modernos (isto é, aquela tríade) defendem. 

Em sua investigação, Nietzsche estabelece apenas duas morais: uma moral do senhor (que está em consonância com os valores da Terra, nada dóceis, mas terríveis) e uma moral do escravo (que quer também dominar). Não sendo capaz de agir afirmativamente, o escravo reage. Ressentido, ele quer vingar-se do senhor, dando início a uma revolta na moral. E quanto a este ponto o movimento socialista é exemplar. 

No passado houve uma revolução socrático-platônica e outra judaico-cristã; mais recentemente, ocorreu a Revolução Francesa. A genealogia nos mostra que, faces da mesma moeda, elas se assentam sobre os mesmos valores. A partir do Crepúsculo dos Ídolos (1888) e do Anticristo (1888), Nietzsche estabelecerá um estreito vínculo entre a epistemologia, a teologia e a política. Vínculo esse que teve início com a Antiguidade clássica e hoje tem sua face mais proeminente no movimento socialista e no avanço capitalista alemão. Tudo isso indica que a tríade socrático-cristão-socialista até agora está em vantagem. 

Se a cultura floresceu num momento em que a aristocracia predominou, seja em tempos imemoriais, seja com Goethe e Schiller na história recente alemã, é preciso que surjam condições para que ela volte a florescer. Não é possível escamotear o mundo tal como efetivamente ele é. Tanto que o projeto nietzschiano de transvaloração dos valores (e não de uma revolução) está para o filósofo na ordem do dia. Afinal, esta é a sua última cartada – brilhante, digamos – para reverter o jogo em favor da verdadeira cultura, mesmo que o preço a pagar seja o de apostar num projeto reacionário.