NEM NELSON RODRIGUES SALVARIA

NEM NELSON RODRIGUES SALVARIA

Lucas Luiz
Foto: Olavo Guerra/ Agência Corinthians

O empate entre Botafogo-SP e Corinthians foi um desses momentos com qual se sai com sabor agridoce à boca. Um sorriso amarelado e idiota de quem tenta encontrar justificativas para si mesmo dos motivos de perder minutos valiosos de vida.

Era anunciado o jogo modorrento, Corinthians poupou - com razão - seus tenores e o adversário de Ribeirão Preto passa longe de ser uma orquestra. Mas como bons sofredores, motivados por qualquer esperança ingênua de algo vir a acontecer, lá fomos nós, corinthianos quais somos, encarar o enredo manjado.

Do embate nada a dizer, pouquíssimo rebusco técnico e nenhuma inspiração. Gol de bola parada cá, resposta pela bola área acolá. E fim.

Aqui, porém, como na vida, mesmo quando o marasmo nos embebeda, é possível, se atento e paciente, pescar um estímulo ou outro para desenvolver assuntos pertinentes. Veja bem, nem Nelson Rodrigues com sua genialidade literária, humor refinado, salvaria esse completo desmantelo com o futebol. A bola tão bem tratada em tempos áureos por Sócrates, ídolo de ambos os combatentes do início dessa noite de sábado, de elegância ímpar, trotes com a cabeça erguida e cuja postura caberia em ternos; sofreu.

Eis o bom exemplo de quem atua pela meia, a corrida com a pelota necessita ser ritmada, como quem marca os pés da poesia, e compreende os movimentos sonoros para marcá-los entre átonas e tônicas. Os passes têm de ter a precisão do verso, para sabê-los manejar, ora com a força de um soco, ora com a leveza da mão de um bebê. Esquecemo-nos do lado lúdico desse esporte, àquilo a arrebatar-nos o brilho dos olhos.

É bem verdade, também, estar a oito do Corinthians sobre quem honra e, por vezes, faz-nos viajar no tempo e testemunhar a glória da beleza de outrem. Renato Augusto desfila pelos gramados ao garbo. Infelizmente, poupado, adentrou apenas nos minutos finais e nada pode fazer para livrar-nos da frustração de todos os minutos anteriores em que Luan demonstrava sua inércia habitual.

Cito sua plena letargia, sem nenhum prazer, pois fui um daqueles esperançosos (de novo, para entrar de vez em minha cabeça: a esperança é um traço incauto) na recuperação do seu alto nível do passado de Grêmio. Agora, acuso o golpe, a visão parece tornar-se cada vez mais clara, e cada instante escondido do jogo, evidencia a necessidade do rompimento iminente.

Um meia gosta da bola assim como um literato ama as palavras e, busca as suas deslocações e os seus encaixes ideais, destemido do erro, tenta e corrige, tenta e corrige, até fluir uma frase sem entraves, o passe entre os zagueiros. Antes de tudo há de se ter coragem. Coragem como a de Sócrates líder da democracia corinthiana. E isso, infelizmente, Luan já demostrou ser desprovido.

E nem Nelson Rodrigues engradecendo o mais trivial dos acontecimentos, tornando o mais estúpido pormenor digno da eternidade, salvaria à nós desse gosto agridoce. O do jogo e o de Luan dentro das quatro linhas.

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