Morte não essencial

Morte não essencial

Rodrigo Martins Barbosa

A porta de lata corrugada está baixada. Três pancadas fortes fazem correr o frio na espinha e uma ardência imediata nos braços do Pedrão.

“Me pegaram” –pensa, enquanto as mãos devolvem a corda em cima do balcão.

Três pancadas mais fortes.

— Patrulha Covid. Levante a porta. Sabemos que está aí.

Pedrão dá um longo suspiro.

Olha comprido em direção à corda.

Então caminha.

Devagar.

Levanta a porta.

—Bom d...

O guarda de bigode empurra a máscara de pano sobre a boca e nariz do Pedrão, enquanto um braço forte lhe aplica uma gravata no pescoço.

Ele não luta. Mas o aperto é forte. O ar falta. Os joelhos dobram. Senta-se no chão ainda de máscara e gravata.

O de bigode abaixa sobre um joelho, bem próximo e sério:

— Nós recebemos uma denúncia de que o senhor estava trabalhando. Não está ciente do lockdown pela vida, senhor?

— h... s... h... rr...

Um sinal do bigode e o fortão alivia a gravata.

O Pedrão:

— Eu não estava, cof, cof,  trabalhando, eu...

— O senhor está violando o decreto municipal e ameaçando vidas – o de bigode escreve na prancheta, cara de autoridade.

—Eu não estava...

—Decretos devem ser cumpridos, para o bem de todos, incluindo o senhor. Infelizmente vou ter que autuar. – o bigode do guarda segura máscara abaixo do nariz. Mas o vírus não deve ser bobo de se meter com a autoridade.

— Seu guarda, eu não...

— E interditar o estabelecimento. Custa ficar em casa? O decreto foi claro: o atendimento interno também está suspenso.

— Eu não estava trabalhando, caramba! – Pedrão gritou. O fortão ajustou a gravata.

—Desacatando a autoridade, rapaz? Quer ir preso também? Fazendo o quê aí se não estava trabalhando? – Bigode falou grosso.

—Eu só queria, cof, me suicidar, cof, cof.

O fortão soltou a gravata. O de bigode baixou a máscara para o queixo:

—Como é que é?

—Eu não estava trabalhando – disse Pedrão – só queria me matar. Faz quase um ano que não trabalho, já parei de somar as dívidas, já entreguei o carro pro banco, não posso pagar o aluguel e partir de hoje já nem posso ir no mercado. Não qualifico pro auxílio do governo, os parentes estão tão ruins das pernas quanto eu, não vai vir ajuda e não existe previsão pra voltar a trabalhar. Viver pra quê?

Silêncio.

Fortão teve um estalo:

—O senhor higienizou a corda com álcool?

—Hã? Álcool na corda pra me enforcar? Há, há, há. Tirando o absurdo, nem pra pegar coronga eu sirvo.

Bigode recuperou a linha:

—O senhor não está com covid?

— Não. – disse Pedrão.

—Então não pode suicidar. O decreto é claro: mortes que não sejam decorrência de covid não são essenciais. Vamos levar, Alceu. Esse é caso de gaiola mesmo. – o de bigode encerrou o assunto.

E o Pedrão embarcou na gaiolinha da viatura.

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