Merecimento.

Merecimento.

W/Zhen Yan • February 1st, 2026.

TW: Bulimia, distorção de imagem, ansiedade, automutilação, transtorno alimentar, vômito, sangue, dissociação, autoaversão, violência contra si mesmo.

Yan encarava o próprio reflexo no espelho. A imagem devolvida parecia errada, torta, quase deslocada da realidade, como se o vidro estivesse mentindo ou ele estivesse. O corpo franzino parecia menor do que lembrava, inadequado demais para ocupar aquele espaço. As mãos, sempre elas, tremiam sem controle enquanto se agarravam à barra do uniforme da base. O tecido grosso amassava entre seus dedos, mas não oferecia conforto algum. Só denunciava o quanto ele estava ali por engano.

Desviou o olhar bruscamente. Os olhos arderam, marejados, cheios demais. Era como se algo estivesse prestes a explodir dentro de seu peito: pressão demais, ar de menos. Respirar doía. Existir doía. Mesmo assim, forçou-se a encarar o espelho outra vez, como quem procura uma resposta que já sabe que não virá.

De repente, nada fazia sentido. As roupas, o uniforme, o símbolo que carregava... Tudo parecia grande demais para ele. Não lhe pertencia. Nunca pertenceu. Uma onda de raiva quente e desesperada subiu pelo corpo, misturada a uma certeza cruel: ele estava enganando todo mundo. As mãos trêmulas se tornaram violentas. Com força bruta, quase inconsciente, Yan rasgou o uniforme resistente, o som do tecido se partindo ecoando alto demais no silêncio do quarto. Às vezes, ele esquecia da própria força. Às vezes, só a usava para se destruir.

Aquilo não era dele. Ele não merecia vestir aquilo.

Os pedaços de roupa espalhados pelo chão refletiam exatamente como se sentia: Um erro ambulante, um impostor. Indigno de cada conquista, de cada olhar de confiança que já lhe lançaram. Nada se encaixava. Nada ficava. Um nó violento se formou em seu estômago, apertando, queimando, exigindo punição.

Yan correu para o banheiro. O espelho de lá foi ainda mais cruel. O rosto molhado pelas lágrimas, os olhos vermelhos, vazios. As mãos, sempre trêmulas, subiram lentamente até a garganta, hesitantes por um segundo que pareceu eterno. Então o corpo se curvou sobre o vaso sanitário. Tudo veio à tona: a comida daquela manhã, do dia anterior, talvez mais. Só não era mais amargo que os espasmos, engasgos, dor. O som era feio e humilhante. Cada contração reforçava o pensamento obsessivo: ele não merecia nem isso. Nem comida, nem sustento, nem cuidado.

Quando terminou, a tontura veio rápida e castigadora, acabeça girou, o mundo perdeu foco. Yan escorregou até o chão frio do banheiro, deitando-se de lado antes que desmaiasse. O silêncio durou pouco. A raiva voltou. Ele socou o chão com toda a força que tinha, até os nós dos dedos se abrirem, até a dor gritar mais alto que os pensamentos. As mãos, agora machucadas, continuavam tremendo... Mas talvez agora fosse suficiente. Talvez agora a punição combinasse com a culpa.

Yan fechou os olhos, respirando com dificuldade. Ele não merecia. Nunca mereceu. Alguém precisava deixá-lo saber disso, lembrá-lo constantemente.

E ninguém faria isso melhor do que ele mesmo.

Quando toda a dor parecia fazer sentido, ele usou o resto de força para ir até a escrivaninha, pegou um papel e começou seu relatório:

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Domingo, 01 de fevereiro de 2026.

Mãe,

Aqui retorno com mais um relatório. Tenho me esforçado para não perder o controle emocional durante os exercícios.

A terra responde melhor quando estou… centrado.

Não houve nenhuma missão extraordinária essa semana. Tudo correu bem.

Reconheço que ainda há muito a corrigir. Sei que resultados não vêm sem sacrifício. Estou fazendo o meu melhor para não decepcionar.

Zhen Yan. ________________________________________

Ele assinou o nome, trêmulo, fraco. Mas o relatório estava do jeito que a coronel exigia: Frio, simples e direto ao ponto. Talvez Yan parasse para pensar um pouco mais sobre, mas tudo que conseguiu sentir foi a satisfação de sentir seus pensamentos sumirem aos poucos, a fraqueza falando mais alto enquanto perdia, lentamente, sua consciência.

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