Jugo Desigual

Jugo Desigual

Jean_Paolo


TEXTO-BASE: GÊNESIS 24: 3 e 4


INTRODUÇÃO

Dentro do meio cristão é normal se referir a questão de casamento/relacionamento íntimo entre pessoas de crenças religiosas diferentes sob o termo "jugo desigual", que seria basicamente (man)ter um relacionamento íntimo com uma pessoa que não corresponde aos mesmos valores e cosmovisão da sua identidade religiosa enquanto cristão, ou seja, ter um relacionamento de "comunhão íntima" com aquilo que nós, cristãos evangélicos, chamamos de "incrédulo". Inclusive, existe algum grau de consenso entre os Pentecostais de que isso seria pecado embora não se possa universalizar essa resposta a todas as denominações cristãs.


NO PRINCÍPIO...

O texto mais antigo na linha do tempo bíblica (não exatamente na linha cronológica dos livros escritos) a respeito da questão de jugo desigual talvez seja o apresentado no nosso texto-base em Gênesis, capítulo 24, versículos 3 e 4 quando Abraão orienta seu servo Eliézer a procurar uma mulher para Isaque não entre as mulheres da região de Canaã, onde estavam, mas em meio a sua própria parentela de sangue. Discorrer por todos os textos bíblicos que abordem a legitimidade ou não de casamentos mistos (étnicos, culturalmente ou a partir do viés religioso, como costumamos fazer hoje) seria exaustivo, então resolvi selecionar algumas passagens que creio serem mais esclarecedoras a respeito do tema. Iniciando pela própria história da busca de uma esposa para Isaque:


1-Abraão não instruiu seu servo a buscar para Isaque mulher da mesma fé (Gênesis 24: 4), mas de sua PARENTELA;


2-O "princípio ético" se repete na história de Jacó, pois Rebeca também não aparece em nenhum momento instruindo o filho Jacó a buscar uma esposa, mas ordenando sua fuga até Labão para evitar que Esaú o matasse (Gênesis 27: 43).



3-PORTANTO, a história dos patriarcas (assim como a passagem de 2Coríntios 6: 14-16 sobre jugo desigual) não é lugar pra basear argumento contra o casamento entre pessoas de FÉS diferentes. Usar esse trecho para isso é criar conjecturas que não se baseiam no texto.


Rebeca aparentemente se sujeitou à fé do marido, assim como, POSTERIORMENTE parecem ter feito Léia, Raquel, as concubinas e servos de Jacó (quando Jacó pede para que todos se livrem dos ídolos em Gênesis 35: 2 ao 4), mesmo porque, apenas pra usar o exemplo de Jacó: Labão, pai de Léia e Raquel era tio de Jacó (Labão era irmão de Rebeca, mãe de Jacó cf. Gênesis 29: 10) MAS NÃO SEGUIA AO DEUS de Abraão (lembrem-se da passagem em que ele vai atrás de Jacó na tentativa de recuperar os ídolos do lar que Raquel roubara de seu pai em segredo cf. Gênesis 31: 19 ao 55). Logo, supôr que a família de Rebeca, a princípio, também seguisse ao Deus de Abraão é fugir da evidência do texto e, portanto, "criar um pretexto".


A LÓGICA DA QUESTÃO

Ainda no tema do "jugo desigual", é comum entendermos nas igrejas pentecostais que se o cristão está casado com um descrente e o descrente consente em conviver com o cristão, o casamento deve permanecer ainda que em situações como um desafio a ser vencido pela fé de modo a levar o cônjuge a conversão ou, ao menos, prover um lar estável suficiente para a criação de filhos ou ainda como "penitência" ou forma de castigo pela má escolha de cônjuge.

Não havendo brecha para divórcio, exceto em caso de infidelidade (o que não diz muito a respeito de violência psicológica/opressão/gaslightning, agressão ou abandono do lar). Ao mesmo tempo é visto como os olhos o casamento de um cristão com uma pessoa de crença religiosa diferente sendo que tal prática é desincentivada, ainda que o resultado da mesma seja por vezes um estado de "celibato involuntário".

Creio que a forma lógica de apresentar esta questão, com embasamento nas escrituras, seja a seguinte:


Premissa 1 - Se o cristão se arrepende de ter se casado com um incrédulo (afinal, isso é risco de se desviar cf 1Reis 11: 1 ao 13 ¹) mesmo assim não deve se divorciar, pois o descrente não contaminaria espiritualmente o crente (cf. 1 Coríntios 7: 10 ao 17 ², onde lê-se que é o cristão que santifica o descrente e as condições para convivência ou não entre ambos)...




Premissa 2 - Mas se você estabelece um relacionamento que o leve a se casar com um descrente ele te contamina espiritualmente e você pecou na decisão!
Conclusão - Portanto, casar com incrédulo é pecado, mas permanecer casado com ele pode ser... Ou não!


Só eu acho que tem algo esquisito aqui? Ademais, falta a devida comprovação textual da premissa 2 na Bíblia. Como Este estudo não é exaustivo vamos deixar o problema para ser melhor avaliado em outra ocasião.


Analisando mais uma vez, dessa vez em analogia a outros pecados:


*Se você se arrepende de se drogar, tem que parar;
*Se você se arrepende de se prostituir, tem que parar;
*Se você se arrepende de ser desobediente, tem que parar;
*Mas se você se arrepende de ter casado com um descrente... AGORA AGUENTA?!


Se alguém puder me ajudar, eu agradeço. Não entendi... Não mesmo.


Outro problema: se a questão aqui é que o casamento deve ajudar ambos os cônjuges a se santificar, que garantia de permanência ou de afastamento do evangelho as pessoas podem realmente oferecer? Assim como há quem se desvie, há quem se converta.

Como nós não sabemos quem são os eleitos de Deus nós pregamos a todos os homens." Portanto, o descrente pode se converter na mesma medida que um crente pode se desviar (1Coríntios 7: 16)! O que está em jogo aqui não é a procedência de fé da pessoa, mas a submissão do descrente à cosmovisão da fé cristã NO casamento (Amós 3:3) e, consequentemente ao Deus verdadeiro, COMO SEMPRE FOI (compare: Josué 23: 11 ao 13, Esdras 9: 1, Malaquias 2: 11 com o livro de Rute e a história de Raabe, por exemplo).


O argumento pentecostal comum só tem validade como avaliação de risco: a probabilidade de x acontecer contra a probabilidade de y, e isso é específico de cada caso.


O TERCEIRO PROBLEMA: A Parábola do Joio e do Trigo

Mateus 13: 24 ao 30


Existe uma abordagem comum a respeito da "parábola do joio e de trigo" de que o joio e o trigo estão também dentro da igreja, não se tratando de uma simples analogia entre os que estão dentro da instituição igreja e os que estão fora, mas daqueles que de fato pertence a Deus e os que não pertencem.



Normalmente, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento "incrédulo" é sinônimo de "sem fé" ou "adorador de outros deuses" (ou seja não-cristão em absoluto e /ou anti-cristão), mas há um problema tão grande quanto o relacionamento íntimo entre um cristão e alguém que não se submete aos valores cristãos: o cristão falso, nominal, sem obras! Eis aqui, a meu ver, uma "chave de interpretação" para o problema do "jugo desigual": ser "CRENTE" e "SER DE JESUS" podem nem sempre ser a mesma coisa no mundo real.



Se admitirmos esta análise como sucinta, teremos de admitir também, como Lutero (no filme de sua biografia) e C.S. Lewis (na última edição das Crônicas de Nárnia), que seja ao menos POSSÍVEL haver pessoas "de Jesus" fora da igreja cristã, embora NUNCA fora de Cristo.

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