POV 01
HyukO Nagai Ink começava a desacelerar depois das oito. O zumbido das máquinas ia sumindo aos poucos e o silêncio tomando conta, deixando no ar só aquele cheiro familiar de incenso, álcool e desinfetante. Eu gostava desse final de noite. Tinha algo de calmo em ver o estúdio esvaziar depois de um dia agitado, como se o espaço finalmente voltasse a ser só meu.
— Acabou por hoje — falei, me apoiando no balcão enquanto olhava a equipe guardar os últimos materiais. — Vão para casa. Já deu de ver a cara de vocês.
— Você foi o último a chegar, Hyuk — alguém brincou fazendo todos rirem e me xingar.
— E mesmo assim sou quem mais trabalhou aqui hoje.
As reclamações vieram acompanhadas de risadas. Era a nossa rotina: eu provocava, recebia uma resposta atravessada e no fim todo mundo ia embora tranquilo. Esperei a porta fechar atrás do último, girei a placa para Closed na vitrine e apaguei as luzes da frente, deixando acesa apenas a penumbra amarelada que vinha dos fundos.
Foi quando ouvi três batidas na porta. Olhei para o relógio e soltei um suspiro baixo.
— Ah, claro...
Quando destranquei, reconheci a figura parada do outro lado na hora. Kim Seungho não precisava de avisos para aparecer e muito menos de explicações. Ele tinha aquela postura rígida e o olhar atento de quem passou a vida inteira entrando pelos fundos dos lugares onde não deveria estar.
— Achei que você já estivesse dormindo — falei, dando espaço para ele entrar.
— E perder a chance de te ver trabalhando? Você me conhece melhor.
— Infelizmente. —Dei uma risada abafada enquanto o cumprimentava com um aperto de mão.
Tranquei a porta e o levei até a sala dos fundos. Servi duas doses de uísque, sem perguntar, e empurrei um copo para ele.
— O que aconteceu? Quem morreu? — Perfuntei
— Ninguém.
— Dinheiro, então. — Concluí dando um gole na bebida
Ele aceitou o copo com um sorriso contido e concordando levemente com a cabeça
— Dinheiro. Sempre é dinheiro Hyuk.
Acendi um cigarro e me encostei na mesa. Seungho fez o mesmo, soltando a fumaça devagar enquanto tirava um envelope do casaco e o colocava na minha frente.
— Park Dongmin.
Junto do nome, havia uma fotografia. Peguei o papel entre dois dedos e observei o homem. Quarenta e poucos anos, terno bem cortado, aquele tipo de postura calculada de quem faz questão de parecer mais importante do que realmente é.
— Quanto ele deve?
— 2 milhões de doláres — Seungho disse na maior tranquilidade do mundo, como se fosse trocado de bala.
— Ele é corajoso. — Soltei um assobio baixo.
— Ou desesperado.
— Para gente burra, dá no mesmo. — Dei de ombros tragando mais uma vez
Seungho deu uma risada curta antes de beber. O caso era clássico: Dongmin tinha pegado dinheiro demais, perdido uma parte no jogo e agora tentava adiar a cobrança com desculpas cada vez piores.
— Ele acha que ainda consegue negociar? — perguntei.
— Acha.
— E consegue?
— Esse valor? Não.
Deixei a foto sobre a mesa e encarei Seungho.
— Então por que me chamou?
— Porque ele não reage bem à força bruta — Seungho explicou. — Se você pressionar esse homem com ameaças, ele se fecha, chama advogados e cria problema. Se ameaçar a família, ele desaparece.
— E o que ele faz quando ninguém ameaça? — Perguntei ingenuo, mas sabia a resposta
Seungho tragou o cigarro antes de responder.
— Ele se distrai. Gosta de boa vida, de bebida... e de companhia.
Ergui uma sobrancelha.
— Companhia?
— Especialmente de homens bonitos.
Não consegui evitar um sorriso de canto.
— Entendi. — senti meu ego inflado, eu gostava disso.
— Não estou brincando, Hyuk. É uma informação prática.
— Eu sei. Só estou apreciando o seu método de abordagem.
— Estou dizendo para não chegar cobrando logo de cara.
— Eu jamais faria isso — provoquei. — Sou contra a violência.
Ele me olhou em silêncio por um segundo, levantando a sobrancelha e rindo em seguida enquanto dava um gole no whisk caro
— Tá. Talvez fizesse. Mas continue. —Peguei a foto de novo, passando o polegar pela borda. — E o que exatamente vocês querem que eu faça?
— Vá até o clube dele amanhã. Sozinho.
— E depois?
— Converse. Faça ele gostar de você.
Soltei um riso fraco. Ser desejado era a minha melhor arma.
— Essa parte é fácil.
— Eu sei.
Seungho apagou o cigarro no cinzeiro e se inclinou um pouco sobre a mesa.
— Não mencione a dívida no começo. Deixe ele acreditar que você está ali porque se interessou por ele. Deixe que ele pague um drink, te chame para sentar. Quanto mais confortável ele estiver, menos vai perceber o momento em que a situação muda.
— E para onde eu levo a conversa?
— Para a mesa de poker. A sua mesa.
O plano fazia sentido. Eu já conseguia ver a cena inteira antes mesmo de acontecer: apareceria bem-vestido, sem pressa e sem ameaças. Deixaria Dongmin achar que estava no comando da situação, faria algumas perguntas, ouviria as histórias dele e alimentaria o ego do sujeito o suficiente para ele relaxar. Se ele quisesse impressionar, eu deixaria. Se quisesse se exibir, eu daria espaço.
— Ele joga bem? — perguntei.
— Ele acha que joga.
— Melhor ainda. — Meu sorriso aumentou.
— A mesa já está esquematizada — Seungho continuou. — Tenho alguns nomes que já estão de sobreaviso para se reunirem quando você marcar o jogo.
— Quero que deixem ele ganhar no começo.
— Sabia que você diria isso. — Seungho nem se surpreendeu.
— Se ele perder logo de cara, desiste e vai embora. Quero que ele acredite que está em uma noite de sorte. — Falei tragando o cigarro devagar
— E quando ele estiver confiante?
Girei o copo na mão, pensando no rosto da foto e soltando a fumaça lentamente
— Aí a gente muda o ritmo. Uma perda pequena para instigar o orgulho, depois outra para criar a urgência. Quando ele perceber, já apostou mais do que devia. E quando o dinheiro dele acabar eu me ofereço para cobrir a aposta.
— E a garantia?
— A assinatura dele. Sem alarde. Ele mesmo vai querer assinar para continuar jogando.
Seungho sabia o que aquilo significava. Não haveria necessidade de erguer a voz ou causar confusão. Dongmin faria todo o trabalho sozinho, levado pelo próprio orgulho e pela ilusão de que conseguiria recuperar o que tinha perdido.
Essa era a parte interessante do poker. As pessoas entravam achando que estavam apostando fichas, sem perceber que a vaidade já estava na mesa há muito tempo.
— Chairman Kwan quer o dinheiro integral — Seungho lembrou, se levantando.
— E vai ter. E a minha parte sei que vem bem generosa também.
— Sem exageros, Hyuk.
Inclinei a cabeça.
— Você me conhece. — Dei o meu melhor sorriso para ele
— Esse é o problema.
Dei uma risada fraca e levantei o copo em um brinde rápido.
— Relaxa. Não vou estragar nada.
— Eu sei, podemos sempre contar com você.
Terminamos as bebidas conversando amenidades sobre o Beco e o Nexus, rindo um pouco. Quando o copo estava vazio e os cigarros aapagados no cinzeiro eu o acompanhei até a porta.
— Amanhã — ele disse.
— Amanhã.
Esperei os passos dele sumirem pela rua antes de fechar a porta. Quando voltei para o salão, a fotografia de Dongmin ainda estava lá. Guardei o envelope no bolso e suspirei, pensando na conversa. Eu não precisava odiar o cara para fazer o que precisava ser feito; ele devia dinheiro, eu tinha sido encarregado da cobrança e escolhi o caminho que me parecia mais inteligente.
Foi quando ouvi três batidas leves na porta.
Olhei para o relógio e um sorriso involuntário apareceu.
— Que noite movimentada.
Abri a porta e encontrei o rapaz parado no degrau de entrada. Eu o reconheci pela foto do aplicativo de encontros. Ele trazia uma bolsa no ombro e tinha aquele olhar de quem tentava parecer calmo, mas não estava nem um pouco.
— Veio terminar o projeto? — perguntei, escorando o ombro no batente.
Ele assentiu, engolindo em seco.
— Se não for atrapalhar...
— Chegou na hora certa.
Dei passagem para ele entrar e tranquei a porta. A conversa com Seungho ainda martelava um pouco na minha cabeça, mas bastou olhar para o rapaz para o assunto perder o peso. Ele estava me observando, meio incerto sobre o que fazer.
— Nervoso? — brinquei, me aproximando devagar.
— Não.
— Mentira.
Ele deu um sorriso fraco, e eu parei bem na frente dele. Passei a mão pela sua cintura, sentindo o calor do corpo dele através da roupa, e usei a outra para erguer o queixo dele com o polegar.
— Olha para mim.
Ele obedeceu, e a respiração dele ficou um pouco mais pesada.
Inclinei o rosto e o beijei. O beijo começou calmo, quase provocativo, mas ganhou força conforme puxei seu corpo para mais perto. Ele hesitou por um segundo antes de corresponder, segurando na minha cintura com uma firmeza que me agradou.
Sem quebrar o ritmo, segurei suas coxas e o ergui, sentando-o direto no balcão da recepção. Alguns papéis e canetas se moveram com o impacto, mas nenhum de nós se importou.
— Hyuk... — ele murmurou contra a minha boca, surpreso pela mudança súbita.
Não respondi. Apenas voltei a beijá-lo com mais vontade, sentindo suas mãos subirem para os meus ombros e depois para a minha nuca, me puxando para junto dele. Puxei minha camiseta pela cabeça de uma vez e a joguei sobre o balcão. Ele desceu as mãos pelo meu peito nu, tateando a pele com curiosidade, enquanto eu me encaixava entre suas pernas.
Aproximei meu rosto do pescoço dele, deixando um beijo demorado ali antes de morder de leve a pele macia do seu maxilar. Ele soltou um suspiro baixo, enterrando os dedos no meu cabelo enquanto nossos corpos se pressionavam com uma urgência que não precisava de pressa para ser intensa.
Afastei-me apenas o suficiente para olhar para ele. Ele estava com a respiração curta, os lábios vermelhos e o olhar inteiramente entregue ao momento.
— Melhor? — perguntei baixo, com a voz um pouco mais rouca.
Ele assentiu, e eu sorri antes de colar nossas bocas de novo. Ficamos ali por mais alguns minutos, aproveitando a proximidade, o toque e a sensação boa daquele espaço silencioso.
Quando finalmente nos separamos, apoiei a testa na dele para recuperar o fôlego.
— Vamos subir — disse, dando um último selinho demorado. — A gente fica mais confortável lá em cima.
ele concordou com a cabeça, ajeitou a roupa desalinhada e desceu do balcão, me seguindo até as escadas nos fundos.
Enquanto subíamos, a imagem de Dongmin passou pela minha mente uma última vez. Amanhã eu usaria meu charme como uma ferramenta, medindo palavras e gestos para conseguir exatamente o que queria de outro homem. Seria um jogo calculado.
Mas ali, subindo os degraus com aquele rapaz logo atrás de mim, não havia nada de calculado. E saber a diferença entre o que eu fazia por trabalho e o que eu fazia porque realmente queria era o que tornava tudo tão simples.