﷽ ──Immortalitas
𝒴our 𝒟elirium, 𝗲mmanuel a.O mar Egeu permanecia silencioso na noite em que nasceram, mas não era um silêncio de paz. Havia algo contido nas águas escuras daquela ilha isolada, como se o próprio mundo observasse em expectativa. A lua, atravessada por um eclipse fino e espectral, espalhava uma luz incompleta sobre a antiga casa de pedra da família Athanasi, uma construção muito mais velha do que os próprios reinos que dominavam a Europa naquele século.
Os Athanasi existiam longe dos olhos comuns. Seus conhecimentos antecediam igrejas, impérios e até mesmo algumas línguas mortas preservadas em manuscritos esquecidos. Entre aquelas paredes de pedra circulavam símbolos antigos, estudos alquímicos e tradições que jamais poderiam sobreviver sob o julgamento humano.
Emmanuel Athanasi nasceu primeiro. Não chorou ao abrir os olhos. Permaneceu em silêncio, observando o ambiente com uma serenidade impossível para um recém-nascido. Havia foco em seu olhar, uma consciência inquietante que Theron Athanasi percebeu imediatamente. Minutos depois nasceu Domic Athanasi, envolto na mesma quietude anormal. Seus olhos também estavam abertos. Não havia fragilidade em nenhum dos dois.
Theron não demonstrou surpresa. Como herdeiro de uma linhagem muito mais antiga do que os registros escritos e estudioso das artes alquímicas, compreendia que seus filhos jamais pertenceriam inteiramente às limitações humanas. Myrrine, cuja ligação com forças invisíveis era temida até mesmo por aqueles que conviviam próximos da família, segurou os gêmeos contra o peito e sentiu aquilo que já sabia antes da concepção: o tempo jamais os consumiria.
A imortalidade dos Athanasi nunca significou invulnerabilidade, tampouco juventude eterna da maneira superficial como os homens costumavam imaginar. Seus corpos cresciam normalmente até atingirem a maturidade plena e então simplesmente permaneciam. As doenças raramente os tocavam, o envelhecimento cessava e os ferimentos curavam-se rápido demais para parecer natural. Ainda podiam morrer, mas jamais pelo desgaste do tempo.
Emmanuel cresceu com a introspecção silenciosa de quem observa o mundo como um mecanismo complexo. Desde cedo demonstrava uma percepção estratégica e quase matemática das pessoas ao seu redor, analisando situações antes mesmo que acontecessem. Domic carregava uma presença muito mais intensa e imprevisível. Enquanto Emmanuel permanecia contido e racional, Domic aproximava-se do mundo de maneira mais impulsiva, movido por instinto, curiosidade e emoções que muitas vezes pareciam perigosamente humanas para alguém que atravessaria séculos.
Ainda assim, existia entre os dois uma ligação impossível de romper. Emmanuel era o silêncio antes da tempestade; Domic, o movimento que vinha depois dela. Eram extremos diferentes sustentados pela mesma eternidade.
Aprenderam cedo que sua condição precisava permanecer escondida. A Europa medieval destruía tudo aquilo que não compreendia. Conhecimento transformava-se em heresia com facilidade, e qualquer diferença tornava-se motivo suficiente para perseguição. Por isso a família mudava constantemente de território antes que suspeitas amadurecessem demais. Décadas passavam, vizinhos começavam a notar a ausência do envelhecimento, e então os Athanasi desapareciam novamente sob novos nomes e novas identidades.
Os séculos atravessaram a família como estações intermináveis. Emmanuel dedicou-se ao estudo da ciência, política, economia e estruturas de poder, entendendo cedo que o futuro seria dominado menos pela força física e mais pelo controle invisível das sociedades humanas. Domic, por outro lado, aprofundou-se nos conhecimentos ancestrais preservados pela família, tornando-se tão perigoso quanto enigmático. Seu interesse pelas forças ocultas nunca nasceu de ambição, mas da necessidade de compreender aquilo que corria em seu próprio sangue.
No final do século XVII, o mundo tornou-se particularmente perigoso para pessoas como eles. A histeria coletiva transformou a bruxaria em ameaça institucionalizada, e o medo começou a organizar homens dispostos a caçar aquilo que consideravam antinatural. Salem tornou-se apenas o reflexo mais conhecido de algo muito maior que já acontecia silenciosamente entre a Europa e as colônias.
Os verdadeiros caçadores não eram aldeões ignorantes carregando tochas. Eram estudiosos, militares, religiosos radicais e homens que haviam passado décadas reunindo informações sobre linhagens que atravessavam séculos sem envelhecer.
Foi assim que encontraram Theron e Myrrine.
A execução jamais foi registrada de maneira verdadeira. Restaram apenas fragmentos escondidos sob acusações de heresia e purificação religiosa. Métodos antigos foram utilizados naquela noite, técnicas desenvolvidas especificamente para destruir seres difíceis de matar. Emmanuel e Domic chegaram tarde demais.
Pela primeira vez em quase cinco séculos de existência, compreenderam que a imortalidade não impedia a perda. Apenas a tornava rara.
Depois da morte dos pais, desapareceram durante décadas. Apagaram rastros, abandonaram identidades e passaram a estudar os grupos responsáveis pela perseguição de sua linhagem. Foi nesse período que descobriram não serem únicos. Outras famílias semelhantes haviam existido ao longo da história, embora muitas já estivessem extintas. A humanidade sempre teme aquilo que permanece enquanto ela envelhece.
Agora, oito séculos após a noite do eclipse sobre o mar Egeu, Emmanuel e Domic atravessam o mundo moderno carregando rostos jovens e memórias antigas demais para pertencerem a uma única vida humana. Mudam de identidades com precisão cirúrgica, dominam a tecnologia como antes dominaram pergaminhos antigos, e seguem existindo entre os homens como ecos silenciosos de uma era que jamais desapareceu completamente.