Em Barreiras
TANTOEu tinha 08 anos e morava em Barreiras, interior da Bahia. A cidade era calma e tranquila, lugar perfeito para uma criança crescer.

A população de Barreiras era predominantemente parda, um estranho eufemismo para quase todos pretos. Na vizinhança de casa, todos eram pretos. Em determinada época, sermos pretos virou um problema visível, pois a cidade foi invadida por sulistas que vieram investir no agronegócio do cerrado.
Geralmente eram pessoas muito brancas, de olhos claros e cabelos loiros - o que desde logo criou uma divisão na cidade.
Bem na frente de casa, em um bangalô que estava desocupado fazia muito, veio morar uma família assim.
O pai, gerente de uma fazenda, passava o dia todo fora. A mãe, dona de casa, uma mulher muito bonita, estava grávida quando chegou. E Roberto, o filho deles.
Apesar de tudo, Roberto não ligava para cor. Para ele, eu e os outros meninos éramos somente isso: amigos com quem ele brincava e se divertia a tarde toda, naquela cidade estranha para onde foi obrigado a se mudar.

Mas, mesmo assim, havia coisas estranhas...
Porque a mãe do Roberto, Dona Carla, sempre olhava para a gente com olhos de raiva, sabe?Era evidente que ela não aceitava que o filho brincasse com "aqueles pretinhos", como ela nos chamava, misto de ofensa e brincadeira.
Naquela época, a gente ainda não entendia bem racismo.
Apesar de tudo, nós brincávamos.
Era o dia todo correndo, jogando bola, indo tomar banho no rio e pegando fruta. Se não fossem aqueles olhares que pioravam, cada vez mais, nossa infância teria sido extremamente feliz.
E as coisas pioraram. Mamãe dizia que Dona Carla devia estar ruim pela gravidez, que isso de ter filho e parir mexia muito com a mulher, e que a gente tinha que entender aquilo e relevar olhar feio e as "brincadeiras".
Até que os ataques começaram a ser gerais. Teve um dia, nunca esqueço disso, que a gente estava brincando e, sem querer, o Roberto se machucou.
Dona Carla saiu correndo da casa dela, a barriga gigantesca apontando para a gente, e ela gritava e xingava:
- SEUS PRETOS MALDITOS
- SEUS MACACOS MALDITOS
Foi um horror.
Lembro bem das nossas mães, também saindo de casa, as caras cheias de ódio, todas elas recolhendo seus filhos nos braços e trazendo para casa, para evitar brigar com aquela mulher grávida, que cada vez mais ia se deteriorando em humor.
Entramos, mas ela não...
Dona Carla ainda ficou na rua uns longos minutos xingando a todos, especialmente a mim, que era o amigo mais próximo do Roberto.
Foi na frente de casa que ela falou tanta coisa ruim, tanta coisa horrível... e lembro também da minha mãe chorando muito, tampando meus ouvidos.
Não sei se um dia eu ainda poderia me magoar mais do que naquele dia, sabe?
Ver minha mãe chorar, humilhada, sem poder fazer nada... ouvir que foi dito de mim... Me senti um lixo completo naquele dia. Meu pai, quando chegou em casa, quis ir lá brigar, mas, do que adiantava?
E, por mais que ela tenha feito coisas tão horríveis para mim... que tivesse me ofendido daquela forma... nada justificou o que fiz depois...
Bem... passado esse dia, Roberto nunca mais brincou conosco. Os únicos amigos que ele tinha eram outros meninos brancos, com quem ele brincava no clube da cidade, reservado só aos sulistas.
E Dona Carla também sumiu, porque deu a luz.
Nasceu a Bianca.
Quando a menina nasceu, parece que ela nos olhava com mais raiva ainda, sabe?
Como se nós fôssemos monstros que pudéssemos devorar a criança viva.
Só que, com o tempo, todos ficaram nos seus cantos. Ela lá, com seus preconceitos, a gente aqui, com nossas mágoas.
Até que...
Lembro bem do ano.
Foi em 1990...
Minha tia resolveu levar todas as crianças para tomar banho de rio. Era um sábado quente de verão.
Depois de a gente se divertir muito, já quase de noite, voltamos para casa.
E, de longe, a gente viu aquele clarão assustador.
A casa do Roberto pegava fogo.

Mas era um fogo tão enorme, que só restava torcer para não ter ninguém dentro.
Na frente, muita gente tentava apagar o fogo, os bombeiros ainda lutavam para salvar algo... foi quando uns homens saíram das chamas carregando alguém. Era a baba da Bianca...
A filhinha loira de olhos azuis da Dona Carla. A irmão mais branca do que nuvem, do Roberto.
Roberto, pai e mãe, tinham saído rapidinho para resolver algo. A baba ficou sozinha com Bianca. O incêndio começou e a baba foi retirada das chamas...
Já a Bianca, o choro dela foi engolido rapidamente pelo barulho da madeira que crepitava à medida que virava cinza...
A morte chegou de forma terrível para aquela família.
Só no final do outro dia os bombeiros encontraram o corpo completamente carbonizado da menina. Não havia nada para ser reconhecido, numa época em que DNA ainda era coisa de filme de Roliudi...
Mas era ela. Eu nunca vi ninguém sofrer mais do que vi Dona Carla, diante da morte da filha.

Dona Carla não chorava, uivava, e durante anos eu ainda guardei aquele barulho nos ouvidos, que sempre me aparecia nas noites mais silenciosas e terríveis, ainda mais depois do que eu fiz...
O velório da Bianca foi no estádio municipal de Barreiras.
Vieram pessoas de todos os lugares para nem ver o corpo completamente carbonizado da criança, o caixão lacrado que escondia o horror daquela morte.
E eu estava lá, na multidão, e nem tinha ideia de fazer nada... Achei estranho irmos, mesmo depois de tudo que Dona Carla nos fez... depois de todo o preconceito...
Mas minha mãe disse:
- Filho, não há nada mais importante do que um filho. Essa mulher está devastada e, apesar de tudo, nós vamos.
Acho que foi aqui que a ideia surgiu...
Na fila dos cumprimentos, uma fila gigantesca, estavam o pai, o filho e Dona Carla.
Ao lado deles, a idealização da menina perfeita, agora morta...
A nossa vez foi chegando e eu observava aquela mulher apática, que cumprimentava a todos sem nem entender aquilo.
E fui chegando. Minha mãe foi a primeira a falar, depois meu pai... um a um... primeiro com o pai da Bianca, depois com o Roberto, depois Dona Carla.
Até que fiquei bem defronte dela, apertei sua mão e, sem nem raciocinar, puxei ela de leve, como se querendo contar um segredo.
Então, falei:
Com todo o peso do meu ódio, falei baixinho:
- Dona Carla, qual a sensação de ter uma filha preta, torrada, igual a mim?
Eu matei aquela mulher.
Naquele dia, naquela hora, eu soube que tinha matado Dona Carla, que ela estava morta, mesmo que vivesse ainda uns cem anos.
Ninguém entendeu quando ela desabou no chão, de joelhos, chorando.
Minha mãe, me olhando feio, só fez me puxar dali.
Nunca contei a ela o que falei naquele dia do velório, estou contando aqui, pela primeira vez, porque já não sei mais o que fazer, sabe?
Não sou uma pessoa ruim, muito pelo contrário. Eu sei que errei, sei que fiz uma grande besteira, que destruí aquela mulher...
Tanto é que depois do velório eles sumiram da cidade e nunca mais se teve notícias deles.
E eu viveria com minha culpa, com meu arrependimento... viveria de boa me martirizando sem fim, querendo morrer pelo que disse naquele dia, mas, faz dois anos, nasceu minha sobrinha.
Desde que minha sobrinha nasceu ela tem um medo absurdo do escuro...
Desde bebezinha, a gente nunca entendeu o pavor dela pela escuridão, nem o estranho fascínio que ela tem por velas.
Ela adora velas, adora o derretimento das velas. E, faz pouco tempo, minha sobrinha aprendeu a falar e inventou que tem uma amiga invisível, uma criança chamada Bibi, que é muito feia, que só aparece de noite e mete medo.
Levamos minha sobrinha em um psicólogo, que disse ser somente imaginação fértil, hehehe
Acontece que, semana passada, minha sobrinha começou a conversar com sua amiga invisível e, depois de um papo observado por nós, ela levantou a falou:
- Bibi disse que não quer mais brincar comigo.
- Ah é, que bom - dissemos todos.
- Ela agora quer brincar com titio...
E não sei mais o que fazer...
Porque agora, todas as noites, quando fecho meus olhos, eu vejo a Bianca queimada, a pele toda derretida, ao lado da minha cama, dizendo que quer brincar comigo...

E eu já chorei, já me desesperei, já tentei não dormir e não sei mais o que fazer... E to aqui, agora, contando essa história, e nem sei se consigo chegar a amanhã, porque a Bianca está me assombrando e não me deixa em paz...
Ela só pede para brincar...
Fim
Essa história me foi contada por DM, por uma pessoa desesperada, que não sabe mais o que fazer...
Ele pediu anonimato, porque tem muita vergonha do que fez no velório.
Tentei ajudar a ele, dei dicas do que pode fazer, e espero que ele consiga se livrar desse pesadelo.