Don't Fear (The Reaper) - LAURA'S POV 001

Don't Fear (The Reaper) - LAURA'S POV 001


trigger warnings: não recomendo a leitura caso você seja sensível a temas como stalking, relacionamentos abusivos e vazamento de fotos. 

A notificação na tela do celular acendeu, inesparadamente, exatamente às 11:30 da manhã. Laura franziu o cenho, o quarto no seu apartamento em Hongdae mergulhado no silêncio de um dia de trabalho naquela véspera de aniversário. Ela estava concentrada num key visual de publicidade qualquer, tentando acalmar a mente antes do dia seguinte. A vibração repentina da tela fez seus olhos arderem. Ela não esperava mensagens tão cedo, afinal, seu aniversário de trinta anos era só no dia seguinte. Seus amigos na Coreia certamente esperariam a meia-noite, e sua família e conhecidos no Brasil ainda estavam no meio da noite do dia anterior devido ao fuso horário.

Ainda que estivesse concentrada, aquela notificação surpresa pareceu consumir sua mente mais do que ela gostaria. Esticou o braço para alcançar o celular na escrivaninha e, quando desbloqueou o aparelho, o estômago deu um nó instantâneo. O remetente era um endereço de e-mail alternativo, uma sequência de letras aleatórias, mas o assunto fez seu sangue congelar: "minha Laurie". Ninguém a chamava assim. Não desde que ela tinha cruzado o mundo para fugir dele. Com os dedos levemente trêmulos, ela desbloqueou a tela.


De: x72_k9@mail.com
Para: rora.kim@naver.kr
Assunto: Eu não ia conseguir esperar até amanhã, minha Laurie.
Querida Laurie,
Eu sei que aí em Seul ainda falta um dia para o seu aniversário. Aqui no Brasil o já é tarde da noite, mas você sabe como eu sou. Eu não conseguia esperar o meu fuso horário e muito menos o seu. Eu sempre precisei ser o primeiro. O primeiro a te ver acordar, o primeiro a ouvir sua voz rouca de manhã... e o primeiro a comemorar a sua existência. Eu não podia deixar que mais ninguém roubasse esse momento de nós dois.
Trinta anos... Parece que foi ontem que comemoramos os seus vinte e quatro naquele apartamento minúsculo em São Paulo, com aquele bolo de morango barato que acabou caindo no tapete. Lembra como nós rimos? Você estava tão linda com aquela blusa azul. Você trouxe ela na mala com você, não trouxe? Sei que está guardada no fundo do armário. É difícil desapegar de coisas que importam.
Eu queria tanto estar aí para ver o seu rosto hoje. Para ver se o tempo mudou a linha do seu maxilar ou o jeito que você morde o lábio inferior quando está pensando em algo sério. Mas eu respeito o seu espaço. Eu sempre respeitei a sua necessidade de voar para longe, mesmo quando você achava que a distância significava um fim.
Fico tão orgulhoso de ver onde você chegou. Os trinta anos combinam com você. Trazem uma maturidade que exalta a sua beleza única. Aquela mesma beleza pura, sem filtros, que só eu sabia registrar tão bem nas nossas quatro paredes.


Laura sentiu o ar faltar. As lembranças daquele ano terrível no Brasil, de quando sua vida desmoronou e sua privacidade foi exposta na internet por pura vingança dele, piscaram em sua mente como um farol quebrado. Ela achou que cruzar o planeta e mudar de idioma a manteria segura. Então, continuou a descer a tela, os dedos trêmulos começaram a suar contra o vidro.


Eu sei que você guardou mágoa por causa daquela nossa... pequena turbulência antes de você fugir. Mas espero que, com a maturidade que chega amanhã, você consiga entender. As pessoas julgam sem saber. Elas chamam de crime, mas a verdade é que arte e amor de verdade assustam os ignorantes. O que eu fiz foi apenas libertar a sua forma mais perfeita. O mundo merecia ver o que eu via, Laurie. Eu só dividi com eles na rede um vislumbre da deusa que você é quando está entregue a mim. Foi o meu jeito de imortalizar o nosso amor. Aquelas fotos continuam por aí, sabe? Em algum lugar da nuvem. Onde quer que você vá, o que eu criei vai te acompanhar.
É engraçado como as pessoas mudam de país, mudam de rotina, achando que a internet tem fronteiras e que podem simplesmente apagar o passado. Mas o que nós tivemos não se desfaz com um oceano de distância ou uma medida protetiva.
Eu sei exatamente como deve ser o seu apartamento novo. Consigo imaginar você agora, sentada de frente para o computador, nesse quarto escuro, olhando para a tela do celular com o coração acelerado. Você provavelmente está olhando para os lados agora, se perguntando se eu mudei para Seul, se estou na sua rua, ou se comprei um daqueles softwares que conseguem acessar a câmera do seu celular ou do seu computador para te ver ler isso.
Dá um frio no estômago pensar que eu posso estar te olhando agora mesmo, não dá? Sentir que, não importa onde você se esconda, eu posso estar em um clique de distância, sabendo o que você comeu no jantar ou a cor do lençol que te cobre.
Mas não precisa revirar o quarto procurando câmeras escondidas, meu amor. E pode cobrir a webcam se isso te fizer dormir melhor. Eu não preciso cruzar o oceano para estar aí dentro com você. A sua mente faz todo o trabalho por mim. Eu sei que, toda vez que uma notificação piscar no seu visor à meia-noite, ou toda vez que você andar por uma rua escura de Seul e ouvir passos atrás de você, você vai pensar em mim. Eu sou o seu primeiro pensamento nos seus trinta anos. Eu sou o dono do seu medo.
Parabéns antecipado, minha linda. Fique bem, se conseguir.
Com todo o amor que o mundo não consegue entender,
Para sempre seu.


O celular escapou dos dedos de Laura, caindo pesado no chão. A tela trincou, mas Laura não conseguiu nem esboçar reação. Ela apenas olhou para a webcam fechada em cima do monitor, depois para os cantos escuros do teto. Racionalmente, ela sabia que ele estava no Brasil. Sabia que era um e-mail, uma provocação barata de quem só tinha uma conexão de internet e muito rancor. Ele não estava ali. Ele não tinha como saber o que ela estava fazendo.

Mas o blefe tinha funcionado. O silêncio do quarto parecia sufocante e, mesmo sabendo que era uma mentira, ela não conseguiu evitar o impulso de virar a tela do celular para baixo, para que ele não pudesse, nem em seus melhores sonhos, a olhar de volta.

Report Page