Das palavras e as coisas

Das palavras e as coisas

@skyliam.bsky.social

A rotina começava com o café da manhã – em uma mesa no refeitório, próxima a entrada e que era tão certa, que já sentia como minha. Sentado à essa mesa, o café esfriava em duas xícaras. Minha companhia já se fora: ouvia o barulho da porta, depois os passos que se afastavam e, então, o ruído branco. A vida continuava, deixando para trás apenas o gesto interrompido – a paisagem vazia, a mão que ainda repousava por onde a outra estivera, ainda que sem o calor, sem a presença.

A conversa antes da partida havia derivado para os astros. Uma dessas digressões que nascem do acaso e, apesar de tolas, reverberam. A voz suave perguntou e as ondas continuaram a se propagar, como num eco:

— Se você pudesse ser uma estrela… – dissera a companhia.

As hipóteses surgiram, definindo-me bem. Quando devolveu-me a pergunta, porém… não respondi. Apenas inclinei a cabeça como quem recebe uma informação cujo sentido só se revelará mais tarde. E agora, sozinho, mal via obrigação de formular uma resposta que seguisse suas regras.

Que estrela seria? Que planeta, que astro?

Talvez Marte, com seus enigmas antigos? Ou Vênus, com seu brilho místico. Talvez sequer fosse um corpo celeste, mas sim algo para o qual a astronomia ainda não inventara nome.

A pergunta ainda ecoava. Tanto que a mão continuava imóvel, parada no tempo, de tal forma que o fantasma do toque vibrava.

Tentei novamente. Não pela seriedade da pergunta – céus, sabia que provavelmente já a teria esquecido –, mas pelo desafio de definir-te. Pensar, naquele dia mesmo, o que já havias sido?

Pela manhã, fora o Sol: em seus primeiros raios, invadindo e tocando sutilmente meu rosto para o despertar. Era isso, então? O Sol que mantinha as órbitas alinhadas, iluminando com a verdade absoluta e ofuscante?

Não havia de ser, já que, como a Lua, quando revelavas um lado, outro seu se encobria. No Sol não há enigma, não há mistério. Não há teu sorriso minguante como o de Cheshire, que guia às cegas, pois sem lugar para estar, qualquer caminho basta.

Era, talvez, Roma. Independente dos caminhos que tomava, eventualmente chegaria em ti – talvez, por isso, não me importasse qual caminho tomar.

Ou quem sabe, o chão. Esse que sustenta o movimento, que ao desaparecer deixa pura vertigem. Mas se é preciso atentar à astrologia… que seria?

Uma singularidade?

Às vezes me remetia, sim, ao absoluto vazio. Ao espaço cósmico, ou ao arrasto de referenciais. Não poderia estar próximo sem ser arrastado, sem enfiar-me num paradoxo onde estou eternamente girando e, ao mesmo tempo, já fui engolido, instantaneamente arrastado.

Uma tarde inteira era condensada num segundo. Um segundo durava a eternidade. Da vibração de sua mão ao fantasma de sua presença, diante de ti Cronos é destronado. O tempo perde a confiança em si mesmo.

Mas o dia continuava e a reflexão tomava pausas. De quando em quando, era lembrada, e então as demais funções, fossem as aulas ou as provas, se tornavam secundárias.

Havia essa incerteza na voz que guiava meus pensamentos. Palavras que não ousava proferir, mesmo que na privacidade da mente. Era estranho, afinal, o que se pensava não era comprometedor. No máximo se tratava de uma constatação, um ensaio sobre a natureza das coisas.

Perguntava-me: por que havia ali, então, um tom que me desconcertava? Como se o inconsciente soubesse algo que ainda não se revelou, algo que não se autoriza saber?

Olhei pela janela, visão da mesma mesa e do mesmo refeitório. De repente a luz da tarde findava. Lá fora, os primeiros sinais da noite começavam a apagar os contornos das palavras e das coisas.

Ocorreu-me que talvez você fosse a tragédia e eu, o herói trágico. Que como Édipo cruzando as estradas em sua tranquilidade arrogante, meu coração também se isentasse de culpa. O destino já estava em curso, e eu, caminhando em direção ao que me destruiria com a placidez de um encontro trivial.

O Sol movimentava-se em direção à Lua; talvez um eclipse também lhe definisse bem – ao menos quando penso no mistério e no quão sublime deveria soar aos antigos. Essa mistura da profunda admiração com o temor cósmico que a ciência de nossa própria finitude traz.

Lá estava você, pela janela. Caminhando em direção àquela mesma mesa, após seu dia. Os passos já iam aproximar-se e preencher meus ouvidos… E eu, mesmo diante das xícaras, numa recriação da cena onde me deixara, ainda não tinha uma resposta.

Há tantas coisas para ser, eu e você.

Tantas que, de repente, o astro que me deste não fazia mais sentido. A descrição soava genérica e imprecisa, o apelido tolo. Não me sentia grandioso o suficiente para sê-lo, nem era mais que mero homem. Um astrônomo, no melhor dos casos, observando atordoado, após descartar todas suas hipóteses.

Dar-lhe um planeta também seria igualmente genérico e impreciso. Então, de repente, desprendi-me da ideia de lhe dar um. Não quando és mais que constelação, ou o próprio Universo ao qual estou inevitavelmente submetido.

Ao fim dessa tarde, encarando-me pela janela estava lá, o sorriso minguante. A imagem, dessa vez minha, refletida no vidro, lembrava-me também da reflexão. Desse pensamento que estava suspenso, interrompido, recuado diante de si próprio. Eu não pensara sobre planetas, mas outra coisa. Ou quem sabe pensara sobre planetas e outra coisa se infiltrara, como a erva que rompe o asfalto ou como o sonho que afronta a consciência.

O que há de relação entre os raios de sol e as faces da lua? O que resta quando se adiciona o chão e a singularidade? A cidade de Roma e o eclipse?

O prédio estava escuro. Os astros lá fora giravam. Vênus estava em algum lugar do céu cumprindo seu papel, atraindo e repelindo sem jamais precisar se declarar. Pensei nisso – em como é possível orbitar, durante anos, sem nunca nomear o centro da órbita. Em como os corpos celestes não precisam de palavras para cumprir seus destinos.

Mas como homem, e não como astro, estava fadado à linguagem. Era tudo que tinha e tudo que me limitava; eu, apenas sentado sob a mesa, diante de duas xícaras vazias, com ideias que agora repousam em papel: agora o papel diz o que eu não dissera. E o que eu não dissera é a única coisa que se há para dizer.

Ergui-me para finalmente pegar o café e limpar a mente. Estava perplexo com como o que tomava todo o meu ser poderia ser tão insignificante diante da rotina daquelas paredes; que há as provas com isso? O que há de mudar em meus conceitos, métodos e trejeitos, nas falas que decoro ou nos discursos que profiro?

Nenhuma das definições lhe era suficiente, tampouco minhas experiências dariam conta do desafio ontológico que tinha em mãos. Naquele momento, minha tese e minha antítese eram, ao mesmo tempo, você. Do dilema do terceiro excluído ao problema do terceiro corpo, eu dedicaria todas as noites de insônia a te resolver.

No fim, diante da mesa e do café recém posto, minha companhia se apresentava como uma figura postada no caminho, misteriosa apenas por existir. Como a Esfinge de Tebas, não há nem saudação nem ameaça – apenas o corpo imóvel e os olhos que observam, cientes do poder que tem.

Então, eis o que és: meu enigma, meu desafio. Aquele que, sem dizer sequer uma palavra, diz: “Decifra-me, ou te devoro.”


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