Da Fome ao Celeiro do Mundo.
A "SANTA EMBRAPA"Emílio Carlos dos Santos, "Kaká de Barretos", Engenheiro Civil e Produtor Rural em Campina Verde no Triângulo Mineiro.
Nas décadas de 1960 e 1970, o Brasil vivia sob o fantasma da insegurança alimentar, dependendo da importação de itens básicos como carne, leite e trigo. O Cerrado era visto como uma savana estéril, de solo ácido e infértil. Essa realidade começou a mudar em 26 de abril de 1973, com a fundação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), época do governo militar, sob a premissa de desenvolver uma ciência genuinamente tropical. O grande arquiteto institucional dessa transformação foi Alysson Paolinelli, então Ministro da Agricultura, que estruturou a entidade e capitaneou o envio de centenas de jovens pesquisadores para universidades de ponta nos Estados Unidos e Europa. Ao retornarem doutores em áreas como genética e nutrição vegetal, esses cientistas aplicaram o conhecimento global ao interior brasileiro. Paralelamente, nomes como Johanna Döbereiner revolucionaram o campo com as pesquisas sobre a Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN), enquanto pioneiros como Eliseu Alves e José Ireneu Faleiro formulavam as estratégias de modernização e manejo de pastagens tropicais.
Na prática, as técnicas de calagem e gessagem neutralizaram a acidez do solo do Cerrado. A introdução de bactérias fixadoras de nitrogênio eliminou a necessidade de adubos químicos na soja, e a "tropicalização" de sementes permitiu o cultivo eficiente em regiões próximas à linha do Equador. Toda essa engrenagem científica só ganhou vida graças à figura central do produtor rural. Hoje, o agricultor e o pecuarista brasileiros são verdadeiros gestores de alta tecnologia, heróis que assumem os riscos climáticos e financeiros para garantir o abastecimento interno e a segurança alimentar do planeta. Sob o comando desses produtores, o agronegócio saltou para a liderança global, respondendo atualmente por cerca de 25% a 28% do PIB nacional e por quase metade das exportações totais do país, gerando alimentos para abastecer estimadas 800 milhões de pessoas ao redor do globo.
No entanto, a eficiência conquistada com tanto suor dentro da propriedade esbarra em graves gargalos assim que cruza a porteira para fora. O produtor brasileiro compete globalmente carregando o peso de uma infraestrutura severamente deficiente. As estradas precárias e esburacadas encarecem o frete e causam perdas absurdas de grãos pelo caminho. Há uma crônica falta de armazéns nas fazendas, cooperativas e do próprio governo, o que obriga o agricultor a vender a safra imediatamente após a colheita, na pior janela de preços, por não ter onde guardar sua produção. Nos portos deficientes, as filas de navios e a lentidão no embarque geram custos adicionais bilionários em multas de demurrage (taxa por atraso nas embarcações). Diante desse cenário de descaso com o transporte em massa, fica o desabafo histórico que resume o sentimento do setor: "O Brasil decidiu que o trem do progresso não precisa de trilhos"!!!
Para piorar o custo Brasil, a rentabilidade do produtor é constantemente espremida pela volatilidade dos insumos internacionais. O alto custo do óleo diesel encarece desde o preparo da terra até o transporte final, enquanto a dependência externa de fertilizantes (como potássio e fósforo) deixa o campo refém de crises geopolíticas e do câmbio elevado, encarecendo drasticamente o crédito — que, por sua vez, opera com juros altos e limita a capacidade de reinvestimento.
A grande lição deixada por essa trajetória é que o sucesso econômico do agro não é fruto do acaso geográfico, mas sim da resiliência do produtor e do investimento em inovação. O modelo brasileiro provou que a tecnologia cria vantagens competitivas e poupa o meio ambiente ao multiplicar a produção no mesmo espaço. Contudo, a conclusão óbvia para o futuro é que, se o país quiser continuar alimentando o mundo e liderando a agenda da sustentabilidade, precisará urgentemente resolver os seus problemas logísticos e de custos. O Brasil já provou que sabe produzir da porteira para dentro; resta agora ao Estado garantir a eficiência da porteira para fora.