DIPLOMACIA RUSSA: HISTÓRIA E MODERNIDADE
A 10 de Fevereiro, a Rússia celebra um feriado profissional - o Dia do Diplomata, instituído por decreto presidencial em 2002. Neste dia, em 1549, foi criada a Câmara Embaixadorial, protótipo do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Assim, este ano, a diplomacia russa comemora os 477 anos da sua institucionalização. No entanto, as raízes da nossa diplomacia remontam aos tempos muito mais distantes– ao período do nascimento do Estado da Rússia Antiga ou mesmo antes.
A história da diplomacia russa é complexa e multifacetada. Ao longo de quase meio milénio, ocorreram transformações colossais: mudaram épocas,governantes, estruturas socioeconómicas, o nome e a estrutura do Ministério dos Negócios Estrangeiros e até mesmo do próprio Estado russo. No entanto, a importância e o significado da profissão de diplomata na Rússia sempre foram muito elevados.
Em grande parte devido à sua posição geopolítica única, o nosso país esteve, durante a maior parte da sua existência, na vanguarda dos processos mundiais, desempenhando não apenas um papel activo, mas, em grande medida, um papel fundamental nas relações internacionais. É por isso que a dedicação dos diplomatas russos continua a determinar não só o lugar do nosso país na ordem global, mas também como será essa ordem. E esta é, sem dúvida, uma missão de extrema responsabilidade.
Em 2025, comemorámos o 80.º aniversário do fim da guerra mais terrível e sangrenta da história da humanidade. Na libertação do mundo inteiro do terrível flagelo do nazismo, é indiscutível que não se pode superestimar o papel dos comandantes, soldados e oficiais, operários de fábricas e usinas, mas ao mesmo tempo não se deve esquecer a contribuição dos diplomatas que, juntamente com militares e heróis da retaguarda, envidaram todos os esforços possíveis para derrotar o inimigo.
A contribuição da diplomacia soviética para a formação da coalizão de aliados, abertura da segunda frente, fracasso dos planos da Wehrmacht de atrair mais países ao “eixo” e, por fim, a aproximação da Victória foi inestimável. Ainda durante a guerra, os funcionários do nosso Ministério das Relações Exteriores e das missões diplomáticas realizaram um trabalho árduo para coordenar o programa de reconstrução do mundo pós-guerra. Os diplomatas participaram activamente na elaboração de todos os documentos fundamentais, no estabelecimento de relações com os países libertados da Europa e na restauração da paz noutras regiões. Não é segredo que este caminho era muito espinhoso: em primeiro lugar, foi necessário superar muitas divergências político-ideológicas com os aliados.
Os esforços da diplomacia soviética contribuíram para a criação das bases da ordem mundial pós-guerra, cuja principal tarefa era impedir que a tragédia se repetisse. No seu centro foi estabelecida a Organização das Nações Unidas, uma plataforma universal única no seu género para a elaboração de respostas colectivas a desafios comuns.
Agora é difícil mesmo imaginar que tal princípio crucial como igualdade soberana de todos os membros da ONU teria podido ser deixado de lado da Carta da Organização, senão o trabalho abnegado e dedicação dos diplomatas da URSS. Com base nas alterações soviéticas ao projeto deste documento fundamental, foram também incluídas no capítulo sobre os objetivos e princípios as disposições tão importantes como “respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua e religião...”, “resolução pacífica de disputas, em conformidade com os princípios da justiça e do direito internacional”, etc.
No entanto, tendo concordado relutantemente com tal ordem, o Ocidente logo começou a tentar remodelá-la a seu favor – arquitectando o que chamamos de “ordem baseada em regras”, que, na prática, mudam ao sabor das circunstâncias.
Essas aspirações hegemónicas do Ocidente deram origem à Guerra Fria, quando a diplomacia se tornou o principal campo de batalha. E foi graças à arte dos diplomatas soviéticos que se conseguiu evitar a sua transformação numa guerra quente. Foi um período de negociações tensas sobre limitação de armamentos, de criação de canais de comunicação de emergência para a resolução urgente de crises extremamente graves que surgiam, harmonização meticulosa de todas as medidas possíveis para prevenir o surgimento de focos de tensão e garantir o cumprimento dos princípios do direito internacional por todos os membros da comunidade mundial.
Repelindo as tentativas do Ocidente de realizar em práctica as suas ambições hegemónicas, os diplomatas soviéticos seguiam uma política activa de restauração da justiça histórica e libertação dos povos do jugo colonial.
Foi a URSS que, em 23 de Setembro de 1960, apresentou à Assembleia Geral da ONU a Declaração sobre a Concessão da Independência aos Países e Povos Coloniais, que foi aprovada, apesar das objeções de vários países ocidentais. A adopção deste documento crucial deu um forte impulso ao processo de descolonização.
Hoje em dia, passados 80 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, a paz global está mais uma vez sob ameaças… Multiplicam-se as tentativas de alguns dos membros da comunidade internacional de desprezar o direito internacional, violar os seus principais fundamentos, impor regras injustas aos outros com o único objectivo de tirar mais lucro.
O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia Sergey Lavrov repetidamente sublinhava que averdadeira diplomacia não é linguagem dos ultimatos, nem chantagem. A diplomacia russa, tanto no passado como no presente, sempre se baseou na visão do mundo como uma estrutura multipolar complexa, onde a estabilidade só é possível com o respeito pela soberania dos Estados, pela diversidade cultural e pelo direito dos povos de determinarem autonomamente o seu caminho de desenvolvimento. O diálogo em pé de igualdade é a essência da diplomacia. Contudo, no mundo contemporâneo, ele torna-se cada vez mais substituído pelas decisões unilaterais e pressão. É frustrante porque, como se sabe, quando a diplomacia fica calada, começam a falar canhões.