Celeste
TANTOFaz uns 3 anos, tava saindo do trabalho meio pra baixo, sabe?
Muita coisa acontecendo na vida, decisões pra tomar e, pra piorar, um frio danado em São Paulo.
Só queria chegar, então botei o casaco, afundei minha cara no capuz e segui calado, doido pra ninguém falar comigo.
E segui assim, mão no bolso, olhando pra baixo e tentando colocar a cabeça no lugar.
Percorri o caminho quase no automático e assim fui, até perto de onde pegava ônibus.
E fiquei lá, esperando o sinal abrir pra poder atravessar a rua, no meio da multidão.
Quando o sinal abriu, seguindo a manada, meti o pé na pista e, até hoje não sei a razão, olhei pra frente e dei de cara com minha tia-avó, Celeste, que vinha atravessando do lado contrário.
Imagina o encontro inesperado, no meio da rua, numa cidade enorme!
Ela sorriu pra mim, eu sorri pra ela, e na hora desisti da vontade de não encontrar ninguém conhecido no caminho.
Fiquei muito feliz por vê-la ali, por ver seu sorriso acolhedor. Irmão mais velha da minha avó, Celeste era a pilastra da nossa família.
Quando a gente se encontrou, ela me deu um beijo e falou:
- Filha, nunca mais me visitou. Passa lá onde to morando qualquer dia, quero conversar contigo.
- Tá bom, tia.
- E, olha: a Keila tá na cidade. Liga pra ela.
- Tá bom, vou ligar.
- Um beijo, meu amor.
E assim foi...
Nos despedimos e, quando voltei a caminhar, lembrei de algo importante:
- Eita, tia Celeste já morreu...
Quando virei novamente para olhar, ela já não estava lá.
Meio que em transe, voltei pra realidade quando os motoqueiros começaram a acelerar as motos, dizendo: sai daí.
Só tive tempo correr e me encostar no primeiro local que vi, coração na boca, sem entender nada do que tinha acontecido...
Pois é... no meio do caos de São Paulo dei de cara com minha tia avó que faleceu anos antes.
Peguei o celular, liguei pra minha mãe e, a surpresa...
Keila, neta da tia Celeste, realmente estava na cidade.
Ela e a esposa resolveram fazer uma surpresa e vieram de Curitiba sem avisar ninguém.
Mas Keila, quando tava saindo de Guarulhos, sofreu um acidente bem feio e, naquele exato momento, estava indo de ambulância ao hospital.
Felizmente não foi coisa grave e, dias depois, ela se recuperou e pôde curtir ainda alguns dias com a gente.
E todos ficaram entre amedrontados e felizes com aquele surgimento de uma pessoa tão amada, que surgiu do nada para avisar.
Mas não parou por aí.
Da fala da minha tia, ainda tinha o pedido de visita...
"Passa lá onde to morando..."
"Nunca mais foi me visitar..."
De fato, fazia tempo que não ia ao cemitério levar flores pra tia Celeste, então, escolhi um dia mais calmo e menos frio e fui.
Acho que não fui só eu que deixou de ir lá: o túmulo estava sujo, umas plantas murchas no vaso... marcas de velas velhas.
Limpei o que pude, sujei minhas mãos e sentei na beira da sepultura logo em frente e fiquei lá, em silêncio, tentando entender a razão do pedido.
E foi nessa hora que percebi que tinha algo ao redor.
Primeiro, senti um cheiro forte de flores, como se estivesse dentro de um velório. Depois, minha vista foi ficando zonza e já nem enxergava direito o túmulo sujo a frente. Por fim, um calafrio seco que me abraçou.
Não sei que espécie de transe foi essa, mas havia alguém ao meu lado me sussurrando coisas, palavras, conselhos... nunca soube explicar.
Mas saí dali com muitas decisões tomadas e acertos de vida feitos.
Tenho certeza de que foi gesto de amor, sabe?
Nunca mais "vi" minha tia Celeste.
E, naquela visita ao cemitério, dei rumos que até hoje perduram na minha vida.
Dos encontros que a morte permite e que jamais poderão ser explicados, uma história curtinha de morte e amor para começar a semana.
Essa história aconteceu com a @oiheya, que me mandou por DM, junto com fotos da tia Celeste, que não se chama assim, e testemunhos da pessoa maravilhosa que foi em vida.
Cozinhava para sem-teto, acolhia a todos e, mesmo depois de morrer, não deixou de amar.
Fim