Caos Mode
A Dokkaebi tinha fama por onde passava e não era de boas maneiras. Entre os dormitórios, o nome do grupo já vinha acompanhado de um aviso silencioso: se eles acharem graça, alguém vai sair perdendo. Suas “pegadinhas” raramente envolviam flores ou bilhetes engraçados; eram mais o tipo de coisa que deixava uma bagunça gritante.
Naquela manhã, a sorte sorriu para eles. Os Salkwengs, rivais declarados, estavam todas em aula, deixando os quartos vulneráveis, sem testemunhas por perto. Uma brecha perfeita. Em silêncio, como se cada passo fosse parte de um ritual, os integrantes da Dokkaebi se espalharam pelos corredores, já com planos maldosos martelando na cabeça. O que viria a seguir não seria apenas bagunça: seria uma declaração, pintada, rasgada e destruída, para todo mundo ver.
Baek Yul saiu do próprio quarto já com um destino em mente: o quarto 503. Não conhecia Sangho, mas lembrava perfeitamente da vez em que o garoto o chamou de burro de carga.
Assim que chegou, encostou a porta atrás de si e um sorriso se formou no canto da boca. Olhou ao redor como quem analisa um território inimigo antes de atacar, e realmente era. Limpo demais, organizado demais e abarrotado de livros, alinhados na estante como soldados disciplinados.
“Ah, então é aqui que você esconde o seu coração.”
Murmurou, arrastando a ponta dos dedos pela lombada de um deles antes de arrancá-lo da prateleira.
A primeira vítima foi aberta no ar e, sem sequer ler o título, ele puxou um dos frascos de perfume da cômoda, girou a tampa e despejou o líquido amadeirado sobre as páginas, observando as folhas se ondularem imediatamente. Não satisfeito, passou para o segundo, o terceiro, borrifando até o quarto inteiro ficar saturado daquele aroma sufocante.
A cama veio em seguida. Baek puxou o lençol com força, rasgando-o de cima a baixo com uma faca que tirou da mochila. Não era um corte limpo; ele fez questão de repuxar o tecido até que se desfiasse em fiapos. Pegou os cremes e loções alinhados com tanto zelo na prateleira e começou a espalhar nas paredes e sobre o colchão, deixando manchas oleosas se infiltrarem na espuma.
E, já que as paredes estavam pedindo, abriu uma lata de tinta vermelha berrante que havia trazido e passou o pincel sorridente. Traços largos e agressivos, respingos caindo sobre a escrivaninha, sobre mais livros, sobre o chão. Em um canto, escreveu em letras tortas e enormes: “Com carinho.”
Pegou os perfumes que ainda sobravam e decidiu arremessá-los contra a parede, um por um, deixando o vidro se estilhaçar e espalhar pelo chão e pela cama.
Os livros, agora empilhados no centro do quarto, tiveram destinos variados: alguns rasgados página por página, outros amassados sob o peso da sola do sapato. Olhou ao redor mais uma vez, achando que ainda faltava algo. Então jogou o resto da tinta na cama, na estante e nos armários.
Quando terminou, o ambiente estava irreconhecível: perfume enjoativo no ar, creme escorrendo do colchão, tinta fresca pingando no chão. Baek Yul ficou parado na porta, admirando a sua obra de arte.
Abriu um sorriso largo antes de sair e fechar a porta devagar, como se nada tivesse acontecido. Seguiu para o próximo alvo: o quarto 303, de Haon. Dessa vez, era pessoal, os dois haviam trocado farpas recentemente.
Assim que invadiu o quarto, o cheiro suave de incenso ainda impregnava o ar, denunciando o cuidado do dono com aquele espaço. Passou os olhos pelo ambiente até que algo na prateleira chamou sua atenção: uma caixa de madeira trabalhada e polida, quase reluzente. Abriu com calma e soltou um assobio baixo ao ver a coleção de incensos organizada lá dentro. Pegou um punhado, quebrou-os no meio e deixou os pedaços caírem no chão, pisando neles logo em seguida.
Depois virou a caixa inteira, derrubando tudo. Com a faca que carregava, riscou um pequeno “D” na madeira e, achando que combinaria, fez outros cortes antes de arremessá-la contra a parede.
Seguindo para o armário, começou a vasculhar sem delicadeza, jogando roupas no chão até encontrar um embrulho no fundo. Ao puxar, revelou um uniforme de taekwondo impecavelmente dobrado, o tecido ainda preservava a rigidez de quem guarda com cuidado. Ao lado, uma faixa preta e, dentro de uma pequena caixa, medalhas de competições passadas. Baek Yul sorriu de canto e jogou tudo sobre a cama.
Sem pensar duas vezes, pegou novamente a faca e começou a rasgar o uniforme em tiras longas. Passou a lâmina pela faixa preta, cortando-a ao meio. Depois, pegou uma das medalhas, girou-a nos dedos por alguns segundos e, com certa força, marcou um “D” em sua superfície, fazendo o mesmo com as próximas. Passou a lâmina pelo fio de cada uma, arrancando-as como se estivesse decapitando algo, deixando-as cair pelo chão.
A cama foi a próxima vítima: cravou a faca no colchão e fez um corte longo e profundo, arrancando espuma para fora. O travesseiro sofreu o mesmo destino, penas voando pelo ar como neve macabra.
Para terminar, foi até a mochila, tirou uma lata de tinta preta e chacoalhou, ouvindo o som líquido lá dentro. Subiu na cama e, sem o menor cuidado, começou a despejar tinta sobre o uniforme rasgado, sobre as medalhas, sobre os lençóis, nas roupas espalhadas pelo chão e até na parede atrás. As gotas pingaram no piso, formando um rastro sujo e escuro que denunciaria o vandalismo por dias.
Quando desceu, olhou em volta e soltou um riso curto, satisfeito. Largou a faca no chão e saiu, deixando o quarto cheirando a tinta e pó de incenso.
Enquanto isso, Hakhyun seguia o seu caminho.
As oportunidades para provar o quão leves suas mãos eram, pareciam escassas recentemente. Desde a situação da queda geral de luz no perímetro escolar, os furtos foram minúsculos. Entretanto, o dinheiro que arrecadava sequer parava nos bolsos do rapaz,logo eram transferidos para sua proprietária legítima.
Gradativamente via-se livre de pagar o débito, mas ao mesmo tempo, tão longe. Caminhava num túnel escuro, mas os feixes luminosos existiam no fim do percurso — inalcançáveis, desesperançosos.
A relação de Hakhyun com a Dokkaebi nestes três anos de convivência era, no mínimo, complicada. A convivência da gangue recheada de conflitos e atritos internos, dos quais tornavam-se difícil para ele tomar algum partido em qualquer um dos lados. Porém, enfim surgia uma luz próxima e palpável para extravasar os hormônios à flor da pele dos membros.
Como prometido, o molho de chaves jazia em seus dedos no início daquela manhã, mostrando em frente ao rosto de cada um. Uma chave para cada quarto, distribuída entre os intitulados.
Mais uma falta no currículo não era preocupação para o mesmo, ele que segurava um sorriso sem dentes, exemplificando a animação pela brincadeira.
Quarto 201. Sem qualquer esforço, adentrou o primeiro dos quartos do dormitório masculino, afinal, residia no interior deste específico. A natureza desorganizada do Oh não o deixava arrumar mais do que o necessário. Em especial na data de hoje, tampouco sacudiu as cobertas, lençois. A cama dele estava da mesma maneira em que levantou-se para fora dela. Por outro lado, no lado oposto do cômodo, impecável.
Desfazendo o tratado conveniente de paz, já que Jinyoung, além de colega de quarto, era membro da Salkweng. Abriu uma gaveta de cada vez, espalhando as peças íntimas em todos os cantos. Virou as meias ao avesso. Posteriormente, os dedos pegavam o suporte de madeira da cama e a derrubou de qualquer modo no chão. E o indicador curioso, mas arteiro, empurrou o abajur de leitura até a beirada da mesa; a gravidade fez o resto.
O suor gelado escorria no formato da mandíbula de Hakhyun. Encarava-se com seriedade no espelho detrás a porta. O fôlego ofegava e, apoiados nos próprios joelhos, descansou um pouco na própria cama. Acendeu o cigarro nos dentes conforme os olhos prendiam-se à imagem do guarda-roupa dele.
Após fumar pela metade, abriu as portas duplas do móvel. As roupas arrancadas do interior, o loiro as juntou num amontoado no centro das quatros paredes. Enfim, os preciosos itens de academia do rapaz, despejando seus pós por cima das vestes e jogando o resto do cigarro por cima. No entanto, antes que se tornasse mais um incêndio em menos de um mês, ele pressionou a sola do pé por cima do fumo aceso, mas o dano nos tecidos já foi feito.
Deixando o dormitório masculino depois de trancar apropriadamente a porta do próprio quarto, rumou através da escola até o outro lado. Passando por alguns rostos conhecidos em atividades escolares, ou de clubes ou mesmo atividades esportivas, os olhos miravam unicamente para o prédio feminino. A numeração do quarto 502 escrita em caneta azul na palma canhota, subindo alguns jogos de escada até o quarto em questão.
No corredor, visualizando os arredores. Nenhuma alma penada por enquanto. Espiou na fechadura e havia ninguém dentro também. Então, colocou a chave neste buraco e girou para a direita. Moveu-se com rapidez para fechar novamente depois de entrar. Os sentidos passeavam entre o recinto, contemplando sua simplicidade quase monótona.
Um local digno de uma lutadora. Alguns poucos retratos de família e, assim como fez com o abajur de Jinyoung, derrubou este no chão. O vidro estraçalhado em cacos de todos os tamanhos e densidades. A foto de Sangmi e as irmãs resvalou para fora até o instante em que Hakhyun o pegou. A caneta que ele retirou do bolso, ele desenhou um X espesso e grosso no rosto de cada uma das parentes da ex-boxeadora, ocultando o que as expressões faciais como se fosse uma ameaça velada.
Os rangidos dos dentes soavam para fora da boca conforme os músculos dos bíceps esforçavam-se para carregar aqueles pesos metálicos e jogar por cima da cama. O som de algumas madeiras dos estrados se rompia.
Por fim, deixou o dormitório feminino com o par de luvas de boxe ao redor dos ombros dele. Escondendo-se na sombra da árvore mais próxima do prédio, arremessou o objeto que prendeu seus cordões num dos galhos mais altos.
Enquanto isso, mais adiante, o corredor do dormitório feminino estava silencioso — até demais — exceto pelos passos firmes de Jiwoo pelo corredor dos quartos. O capuz escondia metade do rosto, mas não era o suficiente para esconder o sorriso malicioso que se formava a cada passo dado. Honestamente, era a parte favorita dela: o ato de fazer, ver o mundo de alguns virando pó em questão de minutos.
QUARTO 501 - DORMITÓRIO FEMININO.
A porta do quarto de Nari cedeu fácil ao grampo de cabelo improvisado. Jiwoo entrou, aspirando aquele aroma adocicado e caro que a outra parecia gastar metade da vida para manter. Os olhos varreram o local primeiramente antes de começar a sabota-lo. Começou pelas prateleiras: um a um, os troféus e medalhas de taekwondo foram derrubados no chão, o som metálico ecoando pelo quarto vazio. Com um golpe do sapato, amassou a base de alguns.
As maquiagens e cremes caros vieram em seguida. Abriu, espremendo os frascos no chão e na cama, borrando os tons de batom pelo lençol branco e pelas paredes até não sobrar nada dos produtos que viu pela frente. As bolsas de grife? Rasgou e cortou alças com uma tesoura pequena que tirou do bolso, puxando fios soltos com prazer, enquanto cantarolava uma música qualquer. As roupas no armário foram atiradas no chão e pisoteadas, especialmente aquelas de tecido mais delicado. Algumas receberam cortes discretos, só para a Nari descobrir depois, quando fosse realmente usar.
Satisfeita com o rastro, Jiwoo deixou o quarto fechando a porta, mas sem trancar.
QUARTO 501 - DORMITÓRIO MASCULINO.
Entrar no dormitório masculino exigia mais silêncio, mas ela se movia com agilidade, os olhos sempre em movimento tentando buscar algum resquício de atenção ao redor. Minkyu e Maxwell dividiam o quarto, e ela sabia exatamente o que deveria procurar.
Adentrou ao mesmo da mesma forma que entrou no quarto de Nari, usando um grampo de cabelo para destravar a porta. Primeiro, foi até a prateleira de Max. As medalhas de futebol caíram na mesma desgraça: o metal amassado, fitas cortadas em pequenos pedaços, impossível de fazer uma remenda. Os troféus também foram ao chão, sendo destruídos por diversas pisoteadas até quebrar. Encontrou uma caixinha dentro do armário, abriu devagar, encarando o líquido e seringas. Um sorriso lento se formou antes de derramar o conteúdo no chão, na cama e sobre os troféus, quebrando as ampolas com o sapato, as seringas também quebradas e amassadas pelo chão. O cheiro químico subiu no ar, desagradável até para ela.
Então, virou-se para a parte de Minkyu. Os livros foram arrancados da estante e atirados no chão sem cuidado, algumas páginas arrancadas e amassadas. Ao encontrar os envelopes de carta, hesitou por um segundo, só para, em seguida, rasgá-los com precisão. O papel picado voou como neve, caindo sobre a bagunça dos livros destruídos.
Antes de sair, deu uma última olhada no caos que deixou para trás, sorrindo enquanto secava o canto da testa com as costas da mão, soltando um suspiro. Não havia pressa no passo enquanto fechava a porta e sumia pelo corredor. Quando entrassem, teriam a certeza de que um furacão passou por ali.
No mesmo instante, no lado oposto do prédio, era uma manhã atípica para Yoonchae. Quem a conhecia bem, sabia o quanto estudar era importante para ela, faltar às aulas não era uma opção. Entretanto, naquele dia em específico, ela faria isso. Teria uma boa justificativa para isso. As aulas haviam começado há alguns minutos e o dormitório feminino encontrava-se em perfeito silêncio. Saiu do seu quarto o mais discreta possível, levando apenas a mochila que a acompanhava em todas as aulas. Caso encontrasse alguém, diria que estava apenas atrasada.
Como ainda encontrava-se no dormitório feminino, a coreana decidiu começar pelo o que julgava mais fácil: o quarto de número 301. Andava tranquilamente até o dormitório que sua ex-colega de gangue dividia com Saena. Encontraria a porta destrancada, como havia combinado com Areum previamente. Após conferir, mais uma vez, que estava sozinha, Yoonchae levou a mão até a maçaneta, abrindo a porta com facilidade.
Assim que entrou no quarto, seu olhar vagou por ali, andando pelo local, procurando pelas coisas que pertencia a Saena. Foi então que algo chamou a atenção da loira: alguns cadernos e livros que pertenciam a garota da Salkweng. Yoonchae sabia que os estudos eram importantes para Saena assim como eram para ela, afinal já havia presenciado a mesma comentando sobre isso em sua rede social. Precisava atingi-la de alguma forma, então, que fosse onde mais doesse.
— Juro que isso vai doer em mim também… – suspirou, caminhando até onde estava os materiais de estudo.
Abriu a mochila, retirando de lá uma tesoura média, porém afiada o suficiente para o que precisava fazer. De início, pegou os cadernos e guardou dentro da bolsa; os livros vieram em segundo. Arrancou algumas páginas, fazendo bolinhas de papel, espalhando-as pelo quarto. Depois, abriu os livros em páginas aleatórias, usando a tesoura para recorta-las de formas diversas. Fez isso em todos os livros que encontrara. Quando terminou, bagunçou o canto onde Saena usava para estudar, jogando alguns lápis e canetas no chão, junto com os próprios livros já recortados. Guardou a tesoura na mochila, pronta para sair dali. Olhou para trás, observando o quarto uma última vez. Fechou a porta enquanto pensava: um já foi. E assim, saiu dali o mais rápido possível, seguindo o caminho que a levaria até o dormitório masculino.
***
Yoonchae apressou o passo, com a intenção de chegar logo ao dormitório masculino, principalmente sem ser vista. As aulas ainda aconteciam, mas todo o cuidado era pouco. Em sua mão, estava uma cópia da chave do quarto 302, que ela conseguiu com a ajuda de Hakhyun. Hongsu e Haejun dividiam o mesmo quarto, então, seria mais fácil para ela; um trabalho a menos. Chegou ao terceiro andar sem dificuldade, sempre atenta aos seus passos e tudo à sua volta. Colocou a chave na fechadura, destrancando-a com um único clique, entrando sorrateiramente no quarto.
A primeira coisa que fez ao adentrar o local foi caminhar até o armário que pertencia a Honsu. Talvez, encontrasse algo ali que valeria a pena roubar ou destruir. Não precisou procurar muito, pois, assim que o armário de roupas foi aberto por ela, seus olhos deram de cara com alguns uniformes de trabalho. Voltou a abrir a mochila, tirando de lá a mesma tesoura que havia usado anteriormente. Com um dos uniformes em mãos, Yoonchae começou a recortar a camisa, tirando uma das mangas, deixando alguns buracos espalhados pelo resto da peça. Pegou mais um uniforme, repetindo o processo, deixando alguns cortes de formato aleatório, estragando a roupa o suficiente para que nunca mais fosse usada. A coreana gostava de Hongsu e não evitou ficar sentida com tal feito, mas, infelizmente era preciso, pois os dois pertenciam a gangues rivais. Finalizou revirando o restante das roupas dele, jogando algumas peças no chão; o armário com as portas abertas.
Finalmente, chegou a hora do seu alvo final: Haejun. Yoonchae era indiferente quanto a ele. Gostava em alguns momentos, mas, na maioria, achava-o extremamente irritante. De todos os nomes que ficaram sob a responsabilidade da garota, este era o que ela menos se arrependeria. Não foi difícil encontrar algo bom o suficiente para lhe chamar a atenção, pois seus olhos logo avistaram o pc gamer sobre a mesa do coreano. Havia também algumas carteiras de cigarro. A loira já tinha escutado sobre Haejun comercializar os produtos para alguns estudantes, então, ele tomaria um prejuízo se os cigarros fossem destruídos. Pegou a garrafinha de água presa na mochila, derramando o líquido sobre os cigarros dispostos no móvel; não poderia usá-los nem tampouco vendê-los após isso. O golpe final veio quando Yoonchae pegou a tesoura mais uma vez, cortando alguns dos fios e cabos do computador; Haejun precisaria comprar outros se quisesse usá-lo novamente. Antes de sair do quarto, derrubou o monitor no chão, deixando uma rachadura na tela do mesmo. Ela saiu do local da mesma forma que entrou, discreta e sem ser vista, saindo do dormitório masculino com a sensação de dever cumprido.