COVER STORY: F*** Them

COVER STORY: F*** Them

Angie Martoccio
Photographs by David Lachapelle

Antes de ser Rubia, ela era só uma garota curiosa tentando matar o tédio com criatividade. Não havia palcos nem estúdios, apenas mesas de madeira, azulejos da avó e flores que pareciam mais vivas quando ela as observava sozinha. A solidão virou plateia, a imaginação, instrumento. Foi assim que a música entrou: não como herança, mas como sobrevivência.

Autodidata, Rubia não acredita em talento nato. Aprendeu sozinha, tropeçou, pesquisou, insistiu até transformar rotina em melodia. Hoje, essa mesma obstinação move cada fase da carreira. Em seu último álbum, Telenovela, assumiu a vilã. Em seu último single, Bohemia, deu forma a uma nostalgia granulada, quase cinematográfica. “Foda-se eles”, ela dispara, quando perguntada sobre julgamentos.

Agora, Rubia chega à Rolling Stone para falar de seu próximo disco, que promete ser seu trabalho mais íntimo e maduro. Uma era que troca máscaras pela vulnerabilidade, mas sem abrir mão da teatralidade que se tornou sua marca registrada. “Talvez eu suma, talvez eu fique”, diz. “Mas por enquanto, estou aqui para entregar só uma coisa: ser eu mesma.”


RS: Bambi soa como um manifesto de liberdade e resgate pessoal. Mas a liberdade, na vida real, é tão doce quanto na música ou tem um gosto mais amargo fora da melodia?

Rubia: A liberdade é agridoce, ser livre hoje em dia de certa forma também é uma questão para sociedade e para os seus julgamentos. Você precisa ser forte e abraçar a sua autenticidade, se segurar nisso. Afinal, foda-se eles. 


RS: Na letra de Bambi, você se coloca como alguém que recupera algo perdido. Que parte de si mesma você achou que nunca mais voltaria, mas que a música trouxe de volta?

Rubia: Sim, sim... bom, minha coragem. A coragem de fazer o que eu quero, de não ter medo de ser quem eu sou e de me encaixar para agradar. Bambi me trouxe esse abraço quentinho de: você já fez diferente, agora faça você.


RS: A sua carreira é marcada por reinvenções. Entre abandonar versões antigas e criar novas, qual dessas mortes criativas mais doeu?

Rubia: Olha, nenhuma doeu, sendo bem honesta. Eu me diverti bastante! O mais difícil foi o Telenovela por eu ter que trazer mais aflorado esse lado atriz/vilã, é um projeto que tem um conceito bem difícil de ser trabalho mas por incrível que pareça, o mais difícil é de longe o meu favorito. 


RS: Bohemia parece ter nascido no limiar entre o romance e a nostalgia. Existe ali um amor verdadeiro disfarçado de ficção, ou é a ficção que você usa para revisitar amores reais?

Rubia: Tem uma misturinha dos dois, não é uma história totalmente baseada em fatos reais mas possui elementos da minha realidade. É muito sobre as transformações e fases do amor e acredito que todo mundo já passou por essas mudanças. Sobre abraçar e entender que tudo muda e você precisa mudar também para se adaptar. 


RS: Você escreve como quem não tem medo de se expor, mas a vulnerabilidade também é um produto que vende. Como saber quando está sendo genuína e quando está performando intimidade?

Rubia: Eu sempre procuro ser genuína, é a a característica que mais prezo. Muito dificilmente eu vou lançar algo 100% só para agradar ou performar, preciso ter a minha identidade ali, afinal não tem graça nenhuma não imprimir você na sua arte. Com bambi por exemplo, eu trouxe uma estrutura que não pensava ser abraçada pela crítica, foi apenas um plus. 


RS: Muitos ainda associam Rubia a um certo ar de elegância e controle, mas nas letras existe raiva, ciúmes, até crueldade. Qual dessas faces é a mais verdadeira?

Rubia: Todas. Eu sou completamente todas. Isso vem muito porque o público conhece o meu superficial, minhas músicas trazem essa essência mais profunda. Acredito que meus amigos mais íntimos conseguem enxergar todos esses lados mas eu nunca vou me mostrar totalmente para todas as pessoas. Eu acho um desperdício. Algumas merecem ficar só com as prévias e o desejo da curiosidade. 


RS: Há algo de cinematográfico em Bohemia, quase como se fosse um filme antigo esquecido num rolo de película. Essa estética é calculada ou é simplesmente como você enxerga a vida?

Rubia: Foi bem pensado. Eu apresento muitas referências antigas como um brechó e eu queria que a musica tivesse essa estética também, que não ficasse só na lírica. Aquela imagem cheia de granulado, de passado, de guardado, de escondido mesmo. Eu sempre penso no conjunto e bohemia é vintage.


RS: Sua obra vive num equilíbrio entre o que é confessional e o que é teatral. Qual é o maior risco de se mover nessa linha tênue?

Rubia: Sinceramente, não consigo enxergar riscos e se houver, eu não ligo para eles. Eu amo a teatralidade e amo a originalidade, acredito que isso me faz brincar de arte e ser de artista. As intepretações e especulações não cabem a mim mas de quem as fez. A mim apenas cabe a confissão. 


RS: Depois de Bambi e Bohemia, o que ainda pode surpreender sobre você como artista?

Rubia: Um fato sobre mim é que eu sempre vou buscar algo novo, diferente, e que esteja na linha tênue da minha personalidade. Eu espero me surpreender e como consequências surpreender meus cariños. 


RS: Você já falou sobre o medo de cair no esquecimento. O que assusta mais: ser esquecida pelo público ou se tornar irrelevante para si mesma?

Rubia: Os dois me assustam. Eu tenho mais medo do esquecimento, talvez isso seja um dos meus maiores defeitos porque me faz trabalhar incansavelmente, as vezes sinto que não vou ter pausas mas espero encontrar esse equilíbrio, ainda não encontrei. Irrelevante para si mesma talvez me assuste menos mas eu tenho muita confiança na minha identidade e isso me faz ter quase a certeza que não chegarei a esse ponto.


RS: Se tivesse que escolher entre manter a estética que o público ama ou destruí-la para criar algo novo, qual caminho você seguiria e por quê?

Rubia: Destruir para criar algo novo! TOTALMENTE. Eu não gosto de entregar algo que esperam, algo do momento ou ser igual a alguém, isso me me mata. Eu já mudei a estética de lançamentos já prontos porque eu vi que era aquilo que entrou no momento ou que tinha algo no mercado parecido. Originalidade. Sempre penso nessa palavra, eu tenho esse desejo de ser diferente e isso me faz sempre estudar, sempre correr atrás do que eu quero. É uma sina. 


RS: Você já deu pistas de que seu próximo trabalho vai ser a era “mais apaixonante de todas”. O que torna este projeto diferente de tudo que já fez?

Rubia: É um projeto sensível, confortável. O Estrella Fugaz é mais um Coming Of Age, o Telenovela traz muito essa juventude embaraçosa, o Solaris é a infância e acho que o próximo traz esse lado mais Adulto. Tem muita maturidade, muito entendimento e vem muito do que falamos aqui: Estou totalmente confortável em ser eu mesma. É o mais íntimo de todos. 


RS: No processo criativo desse álbum, você está se aproximando mais de quem você é ou se afastando de propósito para criar uma nova persona?

Rubia: Esse álbum tem menos personas, é menos teatral, mais próximo da minha identidade. Tem muita verdade, claro que sempre vou trazer um encenação, é a minha marca que não posso perder. Se no Telenovela eu retratei a vilã em uma prisão de egos, nesse eu apresento a mocinha que anseia a sua liberdade. 


RS: Em um cenário em que todo mundo quer ser “único”, você sente que a originalidade ainda é possível ou já estamos todos bebendo da mesma fonte?

Rubia: Sempre é possível. Basta ter atenção e respeito com o que está ao seu redor. Sempre vamos nos inspirar mas até as suas escolhas de inspiração podem ser originais e fugir do esperado. Nunca beber da mesma fonte que já está ficando rasa, não sobra muita água. 


RS: E para finalizarmos… Num mercado saturado de nomes que desaparecem rápido, o que você promete fazer para garantir que a Rubia de daqui a 10 anos ainda esteja em pauta, sem se trair?

Rubia: Hm, uma coisa que eu aprendi, eu não faço promessas. Muito melhor surpreender, não acha? Qualquer promessa tem sua expectativa e eu odeio decepcionar. Talvez eu suma um dia, talvez eu fique mas o que eu posso falar por agora: A Rubia do presente está aqui para entregar o que ela sempre propõe, ser apenas ela.

Rubia chega à sua nova fase com a confiança de quem não tem medo de quebrar a própria estética para criar algo diferente. Entre vulnerabilidade e teatralidade, ela reafirma que não joga para agradar, joga para ser ouvida. E é exatamente por isso que vale prestar atenção no que vem a seguir.







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