Bad News PT.2 - Story #004
Ryu Miso - 28 de Fevereiro de 2026 - 09 AM
28 de Fevereiro de 2026 - 9AM
Miso não lembra quando pegou no sono, só sabe que deve ter sido em algum lapso de cansaço em meio ao choro quieto embaixo dos cobertores: uma rotina dos últimos dois dias desde o incidente.
Acordou agitada, mais cedo que o normal, e a única coisa que pôde fazer era suspirar e se levantar de uma vez, afinal, com a onda de pesadelos que andava tendo, não era uma boa ideia tentar voltar a dormir. Sua cara estava péssima quando se viu de frente para o espelho. Olheiras, pele pálida, uma expressão de quem tinha tido sua energia vital sugada desde a noite de quinta-feira. Era assim que ela ficava depois das suas crises, dias praticamente irreconhecível da Ryu Miso que as pessoas estavam acostumadas a lidar.
Vinte minutos depois, a garota estava um pouco mais apresentável: rosto lavado, maquiagem bem feita, cabelo preso em um rabo de cavalo... Até parecia gente. E ela precisava estar decente, pois na madrugada anterior havia decidido que estava na hora de ver como seu irmão estava. Ela devia isso a ele. Apesar de tudo, ele ainda era seu irmão e havia sofrido um atentado, como ela poderia simplesmente fingir que não o conhecia?
Miso só tomou um chá de hortelã, se perguntando como iria ser sua saída. Quanto mais ela postegarsse sua saída, mais seria difícil de se convencer novamente, então o martelo havia sido batido. Ela iria logo depois do almoço. Nem muito cedo, nem muito tarde.
Mesmo dia - 12:30PM
Havia vigias nas saídas do condomínio desde a noite do incidente, a confusão ainda se arrastando desde aquela madrugada, embora a Ryu acreditasse piamente que daquilo nada resultaria. Mesma conclusão do apagão, ou seja, nenhuma. Hoje entendia um pouco das frustrações dos moradores, eram todas bem embasadas, e nem poderia lhes trazer consolo, porque seu próprio sangue era o responsável por aquela baderna.
— Não pode sair mocinha, só com autorização. Trabalho? Faculdade? — O guarda havia a questionado quando se colocou entre ela e a porta. Ele parecia mais estar em uma fantasia, mas Miso não estava em posição de julgar a aparência alheia.
— Vou visitar meu irmão. — Falou simples, mas transparecendo impaciência em sua voz. — Posso ir agora?
O guarda a encarou de cima a baixo, uma expressão de desdém em seu rosto, ou seria desconfiança? Não fazia diferença àquela altura, ela só queria sair.
— Sinto muito, garota, você vai precisar de um motivo melhor para sa-...
— A droga do meu irmão é quem foi atacado, sabe? O dono do condomínio? — Frustrada, tirou a identidade da bolsa e quase esfregou na cara do homem a sua frente. — Vai por mim, o Ryu aí não tá de enfeite. Então, ou você deixa eu sair da propriedade da minha família, ou eu mesma vou forçar uma saída, mas aí você terá que responder aos meus advogados. Você não vai querer essa opção, pode confiar.
Foi mais efetivo do que ela esperava.
• • •
Em meia hora, a garota estava em frente a Residência Ryu, local de onde tinha sido carinhosamente convidada a se retirar pelo seu irmão mais velho um tempo atrás. Não era o que exatamente ela chamaria de lar, mas foi onde morou praticamente toda sua vida, então sair daquele lugar tinha sido uma situação, no mínimo, complicada.
Digitou a senha no painel de entrada do grande casarão e, uma mensagem que nunca viu antes, apareceu no visor da fechadura eletrônica.
[ACESSO NEGADO]
— Como é que é? Como assim acesso “negado”, essa é a senha... — Tentou novamente, mesmo aviso. E outra vez, e outra. A ficha lentamente caiu sobre si, a fazendo respirar fundo para não soltar um grito frustrado no meio da rua. — Eu não me mudei não tem nem 2 meses, e ele já alterou a senha da fechadura? Sério?
À contragosto, Miso apertou a campainha, segundos depois ouvindo uma voz masculina vinda do alto falante do interfone pregado na parede.
“Residência Ryu, o que posso ajudar?”
— Abre a porta, Sr. Lee. — Falou a garota, com uma expressão e tom de poucos amigos direcionada para o aparelho, que sabia que tinha uma câmera pra visualizar os visitantes.
A porta destrancou no mesmo segundo, Miso nem precisou pedir duas vezes. Quando adentrou o jardim, viu um homem de meia idade saindo desembestado de dentro da casa, agitado para cumprimentá-la. Esse era o secretário da família, ou faz-tudo, como a garota gostava de definir.
— Senhorita Ryu! Que bom vê-la! Você deveria ter avisado que viria, eu...
— Por que minha senha não funciona, Sr. Lee? — Indagou a garota, mais baixa que o homem, de braços cruzados e um dos pés batendo inquietamente no chão, como se cronometrasse os segundos de demora da resposta. — Minha cama mal esfriou e já me consideram deserdada? Foi isso?
— Não, senhorita... Jamais! Houve um problema com o sistema de segurança dias atrás e tivemos que trocar tud-...
— Não precisa acobertar meu irmão, ele já é bem grandinho. Cadê ele, inclusive? Vim vê-lo como ele está depois do atentado. — Falou a garota, enquanto tomava seu rumo para a entrada principal.
A casa era enorme. Se os moradores de Yongsan Central Park achavam que os apartamentos do B1 era gigantescos, provavelmente entrariam em colapso com a grandiosidade da Residência Ryu. Não era pouco dinheiro que se construía um complexo inteiro, então não era uma surpresa que a família de Miso era muito rica. No meio do hall de entrada, uma escadaria se estendia até o segundo, terceiro e quarto andar do casarão, sendo o quarto do irmão e, onde era o dela também, localizados no terceiro.
— A-atentado, senhorita?! Mas... O senhor seu irmão está b-...
— Deve estar no quarto, né? Vou lá falar com ele. — Interrompeu o mais velho, nem prestando atenção em sua palavras antes de seguir pelos degraus da escadaria.
Miso quase pôde ouvir um “oh céus” vindos do homem abaixo de si.
• • •
Chegando ao terceiro andar, Miso passou a ouvir vozes vindas do escritório de seu irmão, cômodo este que ficava ao lado de seu quarto. Se ele estava tão machucado, não deveria estar descansando em seus aposentos? Ela daria uma bronca nele quando o visse.
Estava prestes a girar a maçaneta da porta quando a conversa, agora mais alta, chamou sua atenção e a interrompeu. Ele parecia estar no telefone com alguém.
“Não, tá tudo bem... Claro que resolvi, já paguei o cara conforme o combinado, ele foi bem convincente...”
Convincente? “Do que ele está falando?”, pensou a garota, aproximando seu rosto da madeira da porta, tentando escutar mais da conversa. Não era certo espiar ligações privadas dos outros, mas não é como seu irmão já não tivesse feito o mesmo consigo.
“Ele não me feriu de verdade, isso também fazia parte da encenação. Eu só vou precisar aparecer com um curativo e ninguém vai perguntar mais nada... Já apaguei essas filmagens, mesmo se tentarem procurar alguma coisa, vai dar arquivo corrompido... Mas de qualquer forma, aquela maldita assembleia foi adiada, pelo menos assim dá mais tempo pra falar com os advogados.”
Miso não sabia se conseguiria ouvir mais daquilo. Então... Tinha sido tudo armado? Era um fingimento? Pra quê? Melhorar uma reputação que já estava no fundo do poço? Adiar uma assembleia? Que advogados ele estava falando? COM QUEM ELE ESTAVA FALANDO?
A garota estava com vontade de chorar uma outra vez, não de ansiedade como na noite anterior, mas de raiva. Raiva por ter se preocupado, raiva pelos cenários hipotéticos que havia criado em sua cabeça, raiva por, em algum momento, ter acreditado em uma palavra sequer de seu irmão.
Ele era mesquinho e mentiroso, mas ela sempre se esquecia disso.
— Miso? O que você tá fazendo aqui? — A garota, sem nem perceber, já tinha aberto a porta e entrado no cômodo. Em sua face, uma expressão de quem se sentia traída. Na face do homem mais velho, seu irmão, a expressão de quem não esperava visitas. — Desculpe, vou ter que desligar... Minha irmãzinha apareceu. — E foi o que ele fez, encerrando a chamada e enfiando o celular no bolso da calça. Seu olhar não era surpreso ou culpado, mas sim de cansaço quando você percebe que seu cachorro fez xixi no lugar errado pela décima vez. — Não era pra terem deixado você sair do condomínio.
— Por quê? Não queria que seu incidente de mentirinha vazasse? Você realmente fingiu tudo? VOCÊ ALGUMA VEZ FALOU ALGUMA VERDADE? — O volume da sua voz aumentava a cada palavra. Talvez fosse uma das prineiras vezes que Miso confrontava o irmão diretamente.
— Ah, não começa com o drama... Você não deveria estar feliz por ser encenação? São só negócios, eu tive que fazer isso pra ganhar tempo, nada demais. Sossega... — Falou Jihoon em um revirar de olhos enquanto se encostava em sua mesa de trabalho, braços cruzados. Era odioso admitir que os irmãos eram bem parecidos em seus trejeitos. — Além do mais, no que isso te afeta? Quando foi a última vez que me trouxe uma informação decente daquele condomínio? Se tivesse feito seu trabalho direito, eu não teria precisad-...
Em um movimento estranhamente ágil, o homem conseguiu desviar de um vaso voando em sua direção, que se chocou contra o quadro na parede atrás de si. Cacos de cerâmica voando para todo canto e o retrato do antigo patriarca Ryu caindo no chão com o impacto.
Agora sim Jihoon carregava uma expressão de surpresa e alerta, porque o vaso tinha sido atirado pela própria irmã mais nova, que nunca pareceu tão furiosa.
— COMO VOCÊ CONSEGUE FALAR ISSO TUDO DE CARA LIMPA?! — Gritou Miso, tendo as lágrimas de fúria finalmente escorrendo por suas bochecas. — COMO VOCÊ TEM CORAGEM DE FAZER ISSO TUDO E NEM SENTIR CULPA?!
— Você enlouqueceu, Miso?! Que porra acha que tá fazendo?! Esse vaso custava mais de 15 milhões de wons! — Retrucou Jihoon, alheio à ocasião e preocupado com o próprio bolso, como o esperado.
— Você herda o maior legado do vovô e decide acabar com ele?! SIMPLES ASSIM?! ELE TERIA NOJO DO QUE VOCÊ TÁ FAZENDO! EU TENHO NOJO DO QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO! — A garota cerrava os punhos enquanto esbravejava, em uma tentativa de conter as pernas bambas que o confronto com certeza traria.
Uma risada desdenhosa ecoou pelo cômodo, vinda do homem o qual a garota dividia o sangue. O gesto só a deixou mais irritada.
— E o que você sabe de legado, hein, maninha? Você não tem porra nenhuma pra chamar de legado. Pra falar a verdade, você simplesmente não tem nada e pronto. Tudo que você tem nem é seu, então pensa bem no que você vai falar pra mim. — Miso sentiu o corpo congelar, o que Jihoon percebeu, o fazendo ajeitar sua postura de vencedor da discussão previamente. — Você tem sorte de ainda ser sustentada por mim, porque do jeito que você é inútil, não me surpreende o vovô ter deixado tudo pra mim no testamento e nada pra você. Coitadinha... Deve ter sido um baque, né? Acho que de nada vale ser paparicada pelo vovô em vida se, assim que ele morreu, não te deixou nem um saleiro.
A mandíbula da garota tremia, já não sabendo mais se era raiva, de tristeza, de frustração, ou tudo misturado. Aquelas palavras a acertaram em cheio, porque, infelizmente, era o que a martelava desde o falecimento de seu avô. Óbvio que havia sido um baque, não que ela se importasse em ficar com algo do patriarca, mas era como se ela nem tivesse existido naquela família, não havia menção alguma ao seu nome no testamento.
— Você... Não sabe do que está falando... — Tentou responder, sua voz trêmula enquanto o olhar abaixava para o piso involuntariamente. Miso era péssima com discussões, principalmente com seu irmão.
— Ah, sei sim. Sei muito bem. Te conheço como a palma da minha mão, na mesma que você come, lembra? — O sorriso convencido estampava os lábios do mais velho, que caminhou em passos pesados na direção da mais nova. A destra dele levada ao rosto da menor, o puxando para cima, para encará-lo. — Você vai continuar gritando e morar na rua ou vai dar meia volta e voltar para seu lindo apartamento no Yongsan? E ai de você se eu souber que fofocou alguma coisa que ouviu nessa sala.
Ryu Miso engoliu o choro. Mais uma vez.