As pupunhas da Dona Darcy
TANTOLogo que comecei a trabalhar na repartição, em 2007, descobri que havia uma ambulante que marcava ponto na Presidente Vargas, na esquina mais decadente do Centro, quase em frente ao meu trabalho.

Ela sempre estava com um carrinho abarrotado de pupunhas maravilhosas. Era uma senhora gorda, cheia de tatuagens e que se vestia com roupinhas de lycra muito curtas, de cores berrantes, igual seus cabelos.
Devia ter uns 50 anos, aparentando 70 e se vestindo como se tivesse 20, com roupas que mal seguravam suas curvas.
Como sou louco por pupunhas, ia lá quase todos os dias, no carrinho dela, no meio da tarde, comprar uns dois copinhos das graúdas. E, como era de se esperar, viramos amigos.
Se chamava Darcy.
Era prostituta de noite e vendedora de pupunha de dia. Toda a madrugada, no final da zona, ia no Ver o Peso comprar as melhores frutas. Assim, se tornou referência no Centro de Belém....Belo dia, nem sei quando, cheguei para a compra diária e ela disse:
- Calma, Dotô. Tenho uma especial pro senhor.
Falando isso, dona Darcy abriu uma portinha do carrinho e me ofereceu umas pupunhas diferentes das que estavam em exposição.
Maiores, mais bonitas, mais oleosa, muito vermelhas e, incrível, AS PUPUNHAS MAIS GOSTOSAS QUE JAMAIS COMI.
A partir daquele dia, sempre que ia chegando no carrinho, Dona Darcy já abria a portinhola e me oferecia as pupunhas especiais, escondidas dos demais.
Nunca perguntei a razão de serem mais gostosas, mas o povo começou a perceber algo estranho...
Porque eu fazia propaganda do carrinho da dona Darcy para todos,
- e todo mundo provava minhas pupunhas e ficava impressionado com o gosto,
- e as pessoas iam atrás de comprar mais e nunca eram iguais às minhas,
- eram simples pupunhas normais.
Aí, comecei a ficar encucado.
Belo dia, perguntei:
- Dona Darcy, por que minhas pupunhas estão sempre separadas?
- Ah, dotô, porque preparo as suas de maneira especial.
- E como é?
- Num posso falar, he he he
- Mas me diga. O povo procura as pupunhas que eu compro, mas só compram dessas, menos gostosas.
- Não posso falar, dotô! Só digo que aprendi a fazer assim com minha mãe, e não preparo para qualquer um! É que o senhor mora no meu coração!
De fato, éramos amigos, nos gostávamos e até ajudei a ela com um bando de umas questões jurídicas...
Deixei quieto.
Porém, Dona Darcy não se conteve e, impulsionada pela vontade de falar, um dia me segredou:
- Dotô, ainda quer saber como preparo suas pupunhas especiais?
- Quero sim - falei, descascando um fruto com os dentes.
- Pois vou lhe contar...
- É que, além das pupunhas na água fervendo, e do sal, eu boto um ingrediente especial na fervura da água.
- E o que é?
- Uma calcinha minha - e desandou a gargalhar da minha cara de espanto, parado no meio da rua, com uma pupunha meio comida nas mãos, pensando na revelação.
Passado o susto, Dona Darcy ainda rindo e contando para todos ao redor o seu “segredo”, me limitei a rir também, dar um abraço nela, pegar o resto das pupunhas e voltar ao trabalho.
Lá, desabafei:
- DESCOBRI O SEGREDO DAS PUPUNHAS!!!
- o quê ? o quê ? o quê ?
- Dona Darcy disse que ferve minhas pupunhas com a calcinha dela.
Mais risos e a constatação: se era isso, de fato, surtia efeito, pois muito mais gostosas do que as demais. E, diante daquele atentado à saúde pública, fiz a única coisa que me restava:
Continuei comprando as pupunhas da Dona Darcy durante anos!
Enquanto fosse safra lá estava eu, fiel, comendo as melhores pupunhas do mundo.
Até que, um dia, ela avisou que mudaria de profissão.
Deixaria a Zona e as pupunhas. Investiria em um carrinho maior, de refrigerantes.
Comprar refrigerantes, água e cerveja era mais simples do que todo o processo de escolha, compra e cozimento das pupunhas.
Ela estava ficando velha e sonhava, um dia, em se aposentar.
Durante algum tempo ela este por lá, ponto de ônibus perto da antiga esquina.
Depois, sumiu.
E nunca mais comi pupunhas tão saborosas. Por mais que mude de fornecedor, de tipo de fruto, de ponto de água e sal, nenhuma pupunha é igual à da Dona Darcy.
Provavelmente não era nada, somente uma boa escolha das frutas e carinho por mim.
Nada de calcinha.
Arrisco algum segredo inenarrável de velhas e sofridas mulheres amazônidas, entre ervas e cheiros, poções e mandingas, que fazia aquelas pupunhas serem especiais.
Ou, quem sabe, fosse, de fato, a calcinha da velha prostituta ❤️
Jamais saberei!
Fim